Está um dia radioso de sol quando as sirenes começam a tocar - é sinal do que aí vem: cinco mísseis supersónicos foram lançados em direção a alvos estratégicos da cidade de Lisboa. Perante este hipotético e desastroso cenário, o que podem fazer as nossas Forças Armadas? “Estamos tramados”, afirma o major-general Agostinho Costa à CNN Portugal. “Não temos defesa possível, zero. A capacidade da defesa antiaérea em Portugal é nula. Não temos nem nunca tivemos, diga-se de passagem.”

O major-general explica que a defesa aérea do território português é da responsabilidade da Força Aérea e conjuga aviões de superioridade aérea, como os F-16, com mísseis. “O problema é que a Força Aérea não tem mísseis. O que temos de defesa aérea são, fundamentalmente, os F-16. Ao nível de mísseis, não temos nem de longo alcance, nem de médio alcance. Temos apenas os stingers do Exército. São meios de defesa aérea de curto alcance, utilizados à vista, quando o operador do sistema faz o lock on do alvo e dispara. No entanto, são normalmente usados para defesa das forças terrestres. Para este caso, não são relevantes”, considera o major-general.

Sistema Stinger em ação (AP)

Por sua vez, o major-general Agostinho Costa frisa que os navios têm “por natureza” sistemas de defesa antiaérea. “As fragatas MEKO, da classe Vasco da Gama, têm mísseis e canhões para esse efeito. No entanto, servem apenas para a defesa do próprio navio.”

Numa altura em que a Europa é atormentada por um conflito como ainda não tinha visto no século XXI, o cenário português parece, à primeira vista, dramático. Corrigi-lo, salienta Agostinho Costa, é também muito difícil e dispendioso. “Teríamos de gastar muito dinheiro, estamos a falar de milhares de milhões e só para proteger a cidade de Lisboa. A capital é, naturalmente, a nossa infraestrutura mais crítica. É onde está o poder político, o Banco de Portugal e outros centros de poder. Se Lisboa fosse atacada, o país ficaria completamente decapitado.”

Para Agostinho Costa, se a cidade de Lisboa estivesse protegida por uma bateria de sistemas NASAMS “já seria qualquer coisa” (cada bateria tem seis unidades). Mas não seria perfeito. “O ideal seria um grupo de artilharia, com três baterias, para ter redundância. Não basta, no entanto, ter um sistema de longo alcance, temos também de ter um sistema de curto alcance. No Ocidente, bom seria ter os sistemas NASAMS, de médio alcance, na casa dos 40 quilómetros, integrados com os sistemas Patriot, que já têm um alcance de 150, 200 quilómetros. É preciso ter, no fundo, um sistema composto por sistemas.” Os custos são, de facto, astronómicos: uma só bateria de Patriots custa mil milhões de dólares, cerca de 926 milhões de euros.

Partindo dos acontecimentos na Ucrânia, como a recente tragédia em Dnipro, Agostinho Costa tem outra recomendação. “Os sistemas têm de ser colocados fora da cidade e não como estamos a ver na Ucrânia, em que os sistemas estão dentro da cidade e depois acontecem dramas como em Dnipro. Quando a batalha é feita sobre a cidade, os mísseis não ficam no ar.”

"O paradigma da defesa aérea alterou-se"

Para Agostinho Costa, o pressuposto de que Portugal não enfrenta nenhuma ameaça ao seu território levou que o investimento no sector na Defesa reduzisse. “Temos andado muito distraídos. Foi esta ideia que fez com que uma boa parte dos países da Europa se tenha desarmado e tenha transformado as suas forças armadas numas forças armadas expedicionárias. Nós comprámos 36 carros de combate aos Países Baixos porque Haia entendeu que estes já não eram necessários. Agora não têm nenhum”, afirma, notando que a Força Aérea Portuguesa não está sincronizada com o ambiente estratégico atual.

“A nossa Força Aérea sempre assentou a defesa aérea do país em aviões, é essa a sua conceção. Hoje, o tipo de ameaça é diferente, o ambiente estratégico mudou. A partir do momento em que surgiram, na Primeira Guerra do Golfo, as munições inteligentes, o paradigma da defesa aérea alterou-se. Nós ainda temos uma Força Aérea direcionada para um conflito como a Segunda Guerra Mundial, em que a única ameaça são aviões”, explica.

“O que vemos na guerra da Ucrânia são aviões a voar muito baixo, a fazer ataques aéreos próximos muito limitados. Todas as campanhas russas são, fundamentalmente, de mísseis. É uma guerra de munições inteligentes. A defesa aérea é virada para mísseis, drones e foguetes de artilharia. Os aviões têm uma pegada muito pequena, o que quer dizer que temos de rever todo o paradigma da nossa defesa aérea”, prossegue Agostinho Costa.

No entanto, o major-general alerta a Europa para não entrar numa “deriva armamentista” sem antes analisar bem o contexto atual. “Temos de tirar conclusões deste conflito. Esta guerra é um case study. Estamos a assistir a uma guerra híbrida, em que estamos a ver a combater, ao lado de forças regulares, legiões internacionais e empresas militares privadas, esta última uma coisa que nunca tínhamos visto, mas também a aplicação muito intensa de munições inteligentes. Antes de comprarmos equipamento devemos refletir um pouco”, recomenda o especialista.

Pedro Falardo