A 80ª edição dos Globos de Ouro, que decorreu esta madrugada em Beverly Hills, deu os prémios de topo a “Os Fabelmans” de Steven Spielberg, “Os Espíritos de Inisherin” e à série da HBO “The House of The Dragon”.

Depois de escândalos éticos e polémicas pela falta de diversidade, esta edição marcou uma nova era para a cerimónia, com uma lista de vencedores mais diversa que antes e um compromisso com o progresso no futuro.

Steven Spielberg ganhou o Globo de Ouro de Melhor Realizador pelo título semiautobiográfico “Os Fabelmans” e o filme levou o Globo de Melhor Filme Dramático. 

“Tenho andado a esconder-me desta história desde os 17 anos de idade”, disse Spielberg, no discurso de vitória. “Contei esta história em partes e pedaços ao longa da minha carreira”, continuou. “E.T. e Encontros Imediatos tiveram muito a ver com esta história”. 

Spielberg disse que toda a gente o vê como um sucesso mas que ninguém sabe quem somos realmente até “termos a coragem contar a nossa história”. 

Na categoria de Melhor Filme de Comédia ou Musical, a vitória foi para “Os Espíritos de Inisherin”, que também levou o Globo de Melhor Argumento e deu a Colin Farrell a estatueta de Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical. O ator irlandês mostrou-se “horrorizado no bom sentido” com a receção que o filme teve. 

Colin Farrell (à esquerda), Martin McDonagh, Kerry Condon e Brendan Gleeson posam com o prémio para Melhor Filme de Comédia ou Musical "Os Espíritos de Inisherin" (Foto: Chris Pizzello/Invision/AP)

Ainda no cinema, Austin Butler foi o Melhor Ator em Filme Dramático pelo seu papel em “Elvis” e Cate Blanchett foi a Melhor Atriz em Filme Dramático por “Tár”. 

Já o filme “Tudo Em Todo o Lado Ao Mesmo Tempo” garantiu a Ke Huy Quan o prémio de Melhor Ator Secundário e a Michelle Yeoh a estatueta de Melhor Atriz Em Filme de Comédia ou Musical. 

A atriz, natural da Malásia, lembrou o caminho longo que teve de fazer para chegar a esta distinção, depois de 40 anos na indústria. 

“Quando vim para Hollywood foi um sonho tornado realidade até chegar aqui”, afirmou, lembrando que lhe disseram que ela era “uma minoria” e não iria ter sucesso. 

“Fiz 60 [anos] no ano passado e penso que todas as mulheres percebem que à medida que os anos aumentam as oportunidades diminuem”, continuou, elogiando a coragem dos produtores do filme de “escreverem sobre uma mulher emigrante a envelhecer”. 

Também Angela Bassett, de 64 anos, saiu vitoriosa como Melhor Atriz Secundária pelo papel em “Black Panther: Wakanda Para Sempre” e falou de “coragem, paciência e um verdadeiro senso próprio” na perseguição dos sonhos. Foi a primeira vez que um filme da Marvel venceu numa categoria de representação nos Globos de Ouro, o que a levou a dizer que “foi feita história” com este galardão. 

O Melhor Filme de Animação foi “Pinóquio de Guillermo Del Toro”, com o realizador a dizer que este foi “um grande ano para o cinema” e que “a animação é cinema” e não um género para crianças. 

A Melhor Banda Sonora caiu para o lado do filme “Babylon” e do compositor Justin Hurwitz, sendo que a Melhor Canção Original foi para “Naatu Naatu” do filme indiano “RRR: Revolta, Rebelião, Revolução”. A canção em língua telugu bateu celebridades como Rihanna, Lady Gaga e Taylor Swift. 

Na televisão, “House of the Dragon” foi a Melhor Série Dramática. O produtor Miguel Sapochnik agradeceu à HBO por lhes ter confiado “a galinha dos ovos de ouro” com esta série sucessora de “A Guerra dos Tronos”. 

Emma D'Arcy (à esquerda), Milly Alcock e Miguel Sapochnik aceitam o Globo para melhor Série de Televisão por "House of the Dragon" (Foto: Rich Polk/NBC via AP)

A melhor minissérie foi “The White Lotus”, que também deu o Globo de Melhor Atriz Secundária em minissérie a Jennifer Coolidge, e a melhor série de comédia foi “Abbott Elementary”, com Quinta Brunson a levar Melhor Atriz em comédia e Tyler James Williams a ser reconhecido como Melhor Ator Secundário em comédia por este trabalho. 

Julia Garner venceu com o papel em “Ozark”, Paul Walter Hauser triunfou com “Black Bird”, Jeremy Allen White ganhou com “The Bear” e Evan Peters foi distinguido por “Monstro: A história de Jeffrey Dahmer".

Com Ryan Murphy a ser reconhecido com o prémio de carreira Carol Burnett, a cerimónia voltou a ser transmitida ao vivo na NBC depois de um hiato provocado por escândalos de ética e diversidade que abalaram a associação organizadora, Hollywood Foreign Press Association (HFPA). 

A controvérsia foi referida por vários vencedores e pelo apresentador, Jerrod Carmichael, cujo monólogo de abertura endereçou os problemas da associação de forma crua.

“Estou aqui porque sou negro”, afirmou o apresentador. “Esta cerimónia não foi transmitida no ano passado porque, não vou dizer que a HFPA é racista, mas não tinham um único membro negro até à morte de George Floyd”. 

Apesar da polémica, a cerimónia reuniu os maiores pesos pesados da indústria e foram poucos os vencedores que não subiram a palco para receberem as suas estatuetas – aconteceu com: Cate Blanchett, Melhor Atriz por “Tár”; Kevin Costner, Melhor Ator em Série Dramática por “Yellowstone”; Zendaya, Melhor Atriz em Série Dramática por “Euphoria”; e Amanda Seyfried, Melhor Atriz em minissérie por “The Dropout: A História de Uma Fraude”.

Intervenção de Zelensky

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse esta madrugada que “não haverá III Guerra Mundial”, num discurso remoto durante a cerimónia dos Globos de Ouro, que decorreu em Los Angeles.

“Isto não é uma trilogia”, afirmou Zelensky, depois de dizer que não haverá sucessora da I e II Guerras Mundiais, “que mataram milhões de pessoas”.

Ele próprio um antigo ator, Zelensky lembrou que os Globos de Ouro foram criados em plena II Guerra Mundial, com a primeira edição a premiar os melhores desempenhos em 1944, numa altura em que a guerra ainda sacudia o mundo.

“A II Guerra Mundial ainda não tinha acabado, mas a maré tinha virado e todos sabiam quem ia vencer”, disse. “Agora estamos em 2023, a guerra na Ucrânia não acabou mas a maré está a virar e já é claro quem vai vencer”.

Zelensky sublinhou o apoio do mundo à causa ucraniana e pediu a sua continuação. “Ainda há batalhas e lágrimas à nossa frente, mas agora posso definitivamente dizer-vos quem foram os melhores no último ano, foram vocês”, disse. “Os povos livres do mundo livre. Aqueles que se uniram em torno do apoio a um povo ucraniano livre na nossa luta comum pela liberdade”.

O chefe de Estado falou ainda da necessidade de continuar a luta “pelo direito das novas gerações de conhecerem a guerra apenas através dos filmes”.

Mais de dez meses depois do início do conflito, Zelensky continua a manter os holofotes mediáticos sobre a Ucrânia, tendo ido ao congresso norte-americano em dezembro e recebido o compromisso da Casa Branca, na última semana, de um novo pacote de 3,75 mil milhões de dólares (3,49 milhões de euros) em ajuda militar para o país e aliados adjacentes da NATO.

“A Ucrânia vai parar a agressão russa no nosso território”, garantiu o presidente, terminando com a saudação tradicional que o mundo agora reconhece: Slava Ukraini (Glória à Ucrânia). 

A intervenção foi apresentada pelo ator Sean Penn, que, antes de dar o palco a Zelensky, elogiou também a coragem da juventude iraniana que está a levantar-se em protesto e “o movimento sempre perseverante” das mulheres afegãs.

“Somos relembrados, em termos não incertos, que a liberdade de sonhar não é simplesmente um luxo humano mas sim uma necessidade humana, pela qual se deve lutar e fazer sacrifícios”, disse Penn.

“Se a liberdade de sonhar fosse uma lança, apresento-vos um ser humano que esta noite representa a ponta mais afiada dessa lança”, disse Penn sobre o presidente ucraniano. Em 2022, o ator entregou o seu Óscar a Zelensky com uma missão: “quando vocês vencerem, tragam-no de volta a Malibu”. 

/ BC