Taiwan ficou no centro da mesa. E, para Paulo Portas, foi Pequim quem escolheu o lugar, o tom e a frase.
No Global deste domingo, no Jornal Nacional da TVI, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros fez o balanço da visita de Donald Trump à China com uma leitura direta: “Xi Jinping marcou o seu ponto e Donald Trump não trouxe nada de volta em termos de significado político nas relações entre os dois países.” A visita, disse, ficou marcada pelo “momento Taiwan”, num encontro em que o Presidente chinês terá repetido uma mensagem que Portas já tinha destacado meses antes: “O ponto mais importante nas relações entre a China e a América é Taiwan”.
A frase, para Portas, não é apenas diplomacia. É aviso. “Se a questão de Taiwan for mal gerida, nós temos um problema e podemos ter um confronto”, afirmou, sublinhando que se trata de uma eventual colisão entre “as duas maiores superpotências militares do mundo”, com a exceção russa no plano nuclear. O contexto é sensível: Donald Trump disse esta semana que discutiu com Xi Jinping vendas de armas a Taiwan, numa altura em que permanece em aberto um pacote militar norte-americano avaliado em cerca de 14 mil milhões de dólares.
O que surpreendeu Portas foi a resposta, ou a ausência dela. “Sendo absolutamente previsível que isto, desta maneira ou de outra, mais suave, fosse dito a Donald Trump, ele ficou mudo.” Para o comentador, esse silêncio pode significar que o Presidente norte-americano ainda não sabe se assina ou trava os fornecimentos militares a Taiwan. “Isto faz lembrar o que aconteceu com a Ucrânia”, comparou.
A China, acrescentou, percebeu como lidar com Trump. Houve salvas militares, crianças com bandeiras, música dos Village People e a passagem pelos jardins da Cidade Proibida. Portas chamou-lhe o “momento Putin”: a encenação destinada a seduzir o Presidente norte-americano. Quando Trump perguntou se Pequim costumava levar chefes de Estado estrangeiros àqueles jardins, Xi terá respondido que não era costume, “mas cá esteve Putin”. “Deixou um gelo”, resumiu.
Irão, inflação, (des)União
Nem o Irão produziu avanço visível na visita de Trump à china. Portas falou num “não momento”. A China, lembrou, sempre defendeu o controlo do programa nuclear iraniano e fez parte do acordo de 2015. A novidade, se alguma houve, é pequena: Pequim e Washington querem a abertura do Estreito de Ormuz e Xi terá feito saber que o problema iraniano não se resolve com um ataque militar. A Agência Internacional de Energia tem alertado para a quebra da oferta e para um mercado petrolífero sob forte pressão desde o agravamento da guerra e dos bloqueios no Golfo.
É aí que Portas vê o maior risco imediato para a economia global. Citando relatórios da OPEP e da Agência Internacional de Energia, alertou para a queda da produção na Arábia Saudita e no Kuwait e para a diminuição dos inventários. “Quanto mais tempo passar, mais nós podemos aproximar-nos de um desastre, que é um choque pelo lado da oferta que tem impacto nos preços”, avisou. Mesmo que haja acordo, acrescentou, a normalização demoraria “algumas semanas ou meses”.
O efeito, defendeu, já se sente nos Estados Unidos. A inflação norte-americana terá subido em abril para 3,8%, quase o dobro da meta da Reserva Federal. “Eu não estou a ver uma baixa de juros com a inflação a subir assim”, afirmou. Para Portas, a administração americana subavaliou o impacto económico de uma guerra que começou longe dos consumidores, mas pode acabar nos combustíveis, nos preços e no bolso dos eleitores.
Do petróleo, passou ao Reino Unido. E aí a palavra escolhida foi "fratura". “O Reino Unido — a parte do ‘Unido’ está aqui em risco”, disse, antes de apontar Keir Starmer como “vítima dele próprio”. O problema, na leitura de Portas, é antigo e chama-se Brexit. Starmer, defendeu, nunca teve coragem de dizer que o Brexit foi “uma asneira” e que prejudicou a economia britânica.
O resultado é um sistema político estraçalhado. Trabalhistas, conservadores, liberais, Reform, verdes, nacionalistas escoceses e autonomistas galeses tornam o Parlamento difícil de governar. A Escócia, avisou, poderá voltar a pedir um referendo de independência. E desta vez Portas não tem a certeza de que o resultado de 2014 se repita. “A primeira consequência do Brexit foi saírem da Europa e agora dividem-se dentro do Reino Unido.”