Em política o timing é crucial. A precipitação ou o atraso produzem o mesmo efeito – a diferença entre sucesso e fracasso. É por isso que as candidaturas a cargos políticos eletivos são um jogo entre pausas e oportunidades, quase como um cálculo exato de uma flecha ou para aludir à canção de Rui Veloso, o tempo preciso em que Jardel voava sobre os centrais.
Esse bailado ao compasso de um tempo preciso, porém indeterminado, é visível no comentário político, entre quem achou que Marques Mendes anunciou a sua candidatura demasiado cedo e quem dizia que ele não poderia esperar mais. Ora, se é verdade que uma candidatura cedo tem o condão de afastar dúvidas, marcar o território político e manifestar coragem, não é menos verdade que tende a sofrer desgaste prolongado, como uma rocha por muito tempo exposta às ondas do mar. Em rigor, parece ser isso que vem acontecendo, de forma mais sonante, com a candidatura de Henrique Gouveia e Melo, que depois de aparecer como o messias militar, ao jeito histórico de Sidónio Pais ou Humberto Delgado, vem perdendo ancoragem, numa combinação de desgaste resultante das suas posições públicas e perda de efeito “novidade”.
Ora, enquanto a esquerda não tem uma candidatura própria, perdida entre António José Seguro – o indesejado socialista –, Sampaio da Nóvoa – o que não avançou –, e António Filipe – o que não agrega –, é percetível que será à direita que se vão decidir estas eleições, confirmando a mudança de paradigma sociológico geral, com a viragem social à direita (num redesenho socioideológico de manifesto interesse científico).
Quando tudo parecia indicar uma vitória do “populismo de farda” com o Vice-Almirante “das vacinas”, as últimas sondagens (Aximage, julho 2025) mostram que o cenário não está definido: Gouveia e Melo surge com 26%, Marques Mendes com 19% e António José Seguro com 14%. Já a sondagem da Intercampus, realizada no mesmo período, indica uma quebra de 6,7 pontos de Gouveia e Melo face ao mês anterior, deixando-o com 20,6% e em empate técnico com Marques Mendes (17,2%) e Seguro (16,5%), o que confirma que a certeza da vitória do primeiro poderá ter sido “fogo de vista”. Sabendo que Marques Mendes não é nem um agregador nem uma figura carismática – algo vital em tempos de espetáculo político –, o cenário político abriu as portas a uma candidatura “extra”.
Retomando a ideia de que o timing é crucial, João Cotrim Figueiredo marcou território, numa altura em que se continua a falar numa potencial candidatura de Rui Moreira. É verdade que Cotrim Figueiredo é um liberal, rosto maior de um partido de nicho, associado às elites económicas e com nenhuma ou quase nenhuma sensibilidade social. No entanto, aparece com um timing preciso, com a frescura da “novidade”, e com um élan que envolve uma imagem que transmite confiança e estadismo (gravitas), construída num namoro da aparência física com a apreciação mediática.
Assim, parece evidente que Cotrim de Figueiredo veio para baralhar as contas, com uma enorme probabilidade de empurrar Marques Mendes para uma terceira posição e, desse modo, disputar uma segunda volta com Gouveia e Melo e, quiçá, vencer as eleições, graças à sua experiência em campanhas eleitorais, onde a capacidade de dialogar com a população, mas sobretudo de lidar com os momentos políticos e as perguntas dos jornalistas, poderá fazer toda a diferença face ao Vice-Almirante na reserva.
Esta probabilidade de Cotrim de Figueiredo vir para conquistar a presidência é apenas enfraquecida por uma potencial candidatura de Rui Moreira, que cairia no mesmo espaço político. No entanto, como Cotrim avançou primeiro – aproveitando o momento e ocupando o espaço –, a candidatura de Rui Moreira parece redundante. Se assim for, Cotrim poderá transformar uma corrida previsível num duelo improvável — e talvez na maior surpresa política de 2026.