Gouveia e Melo, o militar com "fama de frio" que afundou na corrida a Belém - TVI

Gouveia e Melo, o militar com "fama de frio" que afundou na corrida a Belém

Henrique Gouveia e Melo em ação de campanha em Lisboa (LUSA)

PERFIL || Das profundezas do oceano - onde passou mais de 20 mil horas - à estratosfera das sondagens - onde chegou a estar acima de Passos Coelho ou de Guterres. Gouveia e Melo, o militar mais conhecido da pandemia não atingiu o sonho de Belém. O ex-líder da Marinha terminou em quarto lugar com pouco mais de 12% dos votos

 
CNN PORTUGAL
 
Presidenciais 2026
cartão do candidato
 
 
 
Candidato
Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo
Nascimento
21 de novembro de 1960
65 anos
Naturalidade
Quelimane
Moçambique
Formação Académica
Curso de Promoção a Oficial General
Instituto de Estudos Superiores Militares
PROFISSÃO Atual
Almirante da Marinha portuguesa
 
Tracking poll: #4 lugar
 

 

No mesmo mês em que Gouveia e Melo foi promovido a Chefe de Gabinete do Estado-Maior da Armada, a Marinha passava por uma humilhação. Era abril de 2014 e, na Base do Alfeite, Aguiar-Branco, na altura ministro da Defesa, assistia a um teste com o primeiro drone entregue pela Tekever àquela força militar. O vídeo desse momento tornou-se uma sensação no Youtube com milhões de visualizações: nele, um fuzileiro corre, lança a pequena aeronave no ar e, instantaneamente, a máquina cai de nariz na água. 

A falha não terá sido do equipamento, já que à segunda tentativa correu bem. Mas o dano estava feito. “Muita gente gozou com a Marinha nesse momento”, refere um oficial que trabalhou com Gouveia e Melo, recordando o seu papel após aquele incidente. “Teria sido fácil cair na tentação de abandonar este projeto, mas ele insistiu na visão de que a Marinha tem de apostar na tecnologia de drones e hoje a Tekever, que é uma das maiores empresas deste setor na Europa, está nessa posição por causa dessa aposta”.

Para quem acompanhou de perto o trabalho do almirante na Marinha, essa seria a sua melhor valência para a Presidência da República: “É uma pessoa extremamente focada, com as ideias arrumadas, que não se deixa prender na espuma dos dias”. É também alguém que não gosta de perder o controlo, razão pela qual, por norma, não bebe álcool. “Ele costuma dizer: ‘o álcool faz com que a gente perca o controlo e eu não perco o controlo’”. Prefere coca-cola.

Gouveia e Melo vota para as eleições presidenciais deste domingo / Lusa

Dentro da Armada, ganhou fama de “frio” e de “alguém intolerável com a falha”, mas para um militar que esteve envolvido na task-force de vacinação esses adjetivos não lhe fazem justiça. “Ele valoriza quem tenta e falha, mas não tem tolerância para quem não se esforça, ou é preguiçoso”. 

Nome desconhecido da maior parte dos portugueses até à pandemia, Gouveia e Melo ganhou destaque quando António Costa o colocou a liderar a vacinação após uma série de irregularidades na distribuição de vacinas. Na altura, a escolha prendeu-se pelo bom trabalho que o militar tinha alcançado no teatro de operações durante os incêndios de 2017, mas também pelo apoio que estava a dar na gestão das Camas de Cuidados Intensivos. 

Nesse momento, passou a ser uma presença frequente nas televisões de um país em confinamento. Segundo conta no livro “As Razões”, da jornalista Valentina Marcelino, o convite foi uma surpresa e não muito bem-vinda, já que implicava adiar o sonho de chegar ao topo da Marinha. Prometeu a Costa um ano para vacinar a população portuguesa, mas concluiu a missão em nove meses, fazendo com que o país fosse o primeiro do mundo a chegar a uma taxa de vacinação de 97%. 

O "travão" ao poder político

Gouveia e Melo toma posse como CEMA em 2021 / Lusa

Quem partilhou o ‘quartel’ da task-force com Gouveia e Melo destaca o seu pragmatismo como o principal motivo do sucesso, mesmo perante alguma resistência política. Na primeira fase da vacinação, uma das decisões estratégicas foi começar pelas faixas etárias mais altas e descer a partir daí. Mas foram também criadas exceções, abrindo-se a prioridade a professores, algumas forças de segurança e outras classes tidas como essenciais. “Nessa altura, o poder político quis abrir ainda mais exceções, como por exemplo à restauração, mas [Gouveia e Melo] travou essa ideia, explicou-lhes que, se o fizéssemos, seria muito mais difícil vacinar em massa, e que isso iria ser visto pela opinião pública como uma injustiça”, recorda um oficial da Marinha que integrou a task-force.

Quando Gouveia e Melo deixou a task force, viu as portas abrirem-se para conseguir cumprir o sonho de liderar a Marinha. O Governo convidou-o, ele aceitou, mas acabou por só ser empossado três meses mais tarde graças a um “problema de comunicação” entre São Bento e Belém. A razão: a nomeação do militar com mais holofotes do país poderia dar a entender que estava a existir um “atropelamento”, como assumiu Marcelo, nomeadamente do almirante Mendes Calado, que tinha mandato para mais dois anos.

Foi uma cerimónia amarga para Gouveia e Melo, como recorda no livro ‘As Razões’. “Só quando o Senhor Presidente acordasse bem-disposto é que eu poderia ser nomeado Chefe do Estado Maior da Armada". “No dia 27 de dezembro de 2021 fui nomeado CEMA, numa cerimónia triste. Deprimente e com comentários deprimentes". 

Pouco antes da nomeação, tinha dado um leve passo em direção ao caminho que hoje conclui. Numa tertúlia comemorativa dos 157 anos do Diário de Notícias, não excluiu uma candidatura a Belém, referindo que “o futuro só a Deus pertence”. Viria apenas a pensar nela de forma mais concreta em 2024. 

Talvez a maior pegada que deixou na Marinha foi o desenvolvimento do NRP D. João II, o primeiro navio porta-drones a ser construído em Portugal. A homenagem ao “Príncipe Perfeito” não é ao acaso. Entre os mais próximos de Gouveia e Melo, fala-se de que as suas principais referências políticas são duas figuras incontornáveis da época dos Descobrimentos: D. João II, que consolidou as bases para a descoberta do caminho marítimo para a Índia, e Afonso de Albuquerque, o "Leão dos Mares" que criou os pilares para o império português do Índico. Mais do que Soares ou Sá Carneiro.

Seria em 2023, que o momentum para uma possível candidatura de Gouveia e Melo começaria a tomar forma. Ainda que o próprio a rejeitasse com afirmações que o viriam a penalizar mais tarde: “Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar”. Mas, na verdade, as sondagens colocavam-no como o nome mais provável a suceder a Marcelo: no estudo do Iscte de setembro daquele ano, o nome do almirante ficava acima de Guterres e Passos Coelho.

Regressou ao centro da atualidade quando 13 marinheiros do NRP Mondego recusaram embarcar para uma missão de acompanhamento de um navio russo, alegando falta de segurança, e bloqueando a saída do navio. Gouveia e Melo classificou publicamente o ato como “indisciplina grave”. Foi criticado pelo raspanete público, mas a sua postura acabou mesmo por lhe permitir arrecadar alguns apoios vindos dos partidos tradicionais, nomeadamente do PSD e do CDS. Fernando Negrão, histórico social-democrata, é um desses exemplos. O ex-deputado, que foi seu mandatário, viu naquele ato um “líder em construção”. “A ideia com que fiquei foi que ele quis travar outros polos de indisciplina”. 

Negrão conta que decidiu apoiar o almirante antes da confirmação oficial da sua candidatura numa conversa onde viu dissipadas as suas dúvidas sobre vir a ter um militar em Belém. “Nota-se que evoluiu: deixou de ser um líder forte militar para se tornar num líder moderno, mais aberto”. “Encontrei um patriota, um homem que gosta muito de Portugal e que porá Portugal sempre em primeiro lugar”.

Mas o élan como favorito às eleições foi desvanecendo, especialmente desde outubro, altura em que aparece destacado nas sondagens com valores perto dos 30%. Na última sondagem antes da eleição, apresentava-se com intenções de voto na ordem dos 13%. Ainda assim, conta Negrão, que o acompanhou na campanha eleitoral, em nenhum momento houve desmoralização: “Nada disso, e mais, quem está na política convencido de que vai ganhar de certeza absoluta olha para a democracia de uma forma enviesada”.

Nas ruas e nos debates, Gouveia e Melo apostou na mensagem de que era o único candidato capaz de guiar o país perante as mudanças na ordem internacional, mas também o mais “independente” - foi ele, aliás, o principal autor do ataque às “influências” de Marques Mendes enquanto advogado. 

O tiro "fez cair" Mendes nas sondagens, mas, ao que tudo indica, os frutos foram colhidos por outros candidatos “como Seguro e Cotrim”, segundo o matemático Henrique Oliveira. “Gouveia e Melo ficou estagnado”. Chegando à reta final, Gouveia admitiu mesmo a possibilidade de criar um partido caso perdesse, hipótese que afastou entretanto. Acreditando até ao fim que uma maioria silenciosa lhe iria dar a vitória, os próximos planos de Gouveia e Melo deverão passar pelas tecnologias militares.

No discurso onde assumiu a derrota, contudo, Gouveia e Melo deixou pistas sobre esse mesmo futuro. “Depois de 45 anos a servir Portugal, posso afirmar com clareza que o país poderá continuar a contar com a minha voz e os meus valores”, assumindo-se “disponível” para “servir” Portugal.

Continue a ler esta notícia