Os analistas políticos não têm dúvidas: Portugal enfrenta neste momento uma crise política que vai muito além da demissão de Pedro Nuno Santos e da polémica da TAP. De acordo com dois politólogos contactados pela CNN Portugal, o Governo está sem "sentido de rumo" e precisa que António Costa tome as rédeas da situação com "alterações de fundo no Governo" - caso contrário, a solução pode estar nas mãos de Marcelo.

“O Governo está fragilizado. Estamos a assistir a uma luta de galos pelo mesmo poleiro entre Fernando Medina e Pedro Nuno Santos, e a uma falta de coordenação política por parte de António Costa”, resume José Filipe Pinto, politólogo e professor catedrático da Universidade Lusófona.

Para José Fontes, politólogo e professor catedrático da Academia Militar, esta situação não decorre apenas da “falta de coordenação política”, mas sim de “uma falta de sentido de rumo” do executivo. “Parece que o Governo não é um conjunto articulado de vozes, mas uma soma de partes, e cada uma das partes está a lutar por um interesse particular que nada tem que ver com o interesse do país.”

De qualquer modo, a responsabilidade recai sobre o primeiro-ministro, que logo na tomada de posse prometeu estabilidade ao país, como resultado da maioria absoluta. Mas a verdade é que o próprio Governo se tornou “o principal fator de instabilidade” no país, como descreve José Filipe Pinto. E, segundo o politólogo, isto acontece porque António Costa formou um Governo mais partidário do que técnico.

“António Costa privilegiou claramente o seu círculo de amizades políticas, e por isso mesmo levou para o Governo Fernando Medina, que tinha acabado de perder as eleições para a presidência da Câmara de Lisboa, bem como todos os seus outros potenciais sucessores, como Mariana Vieira da Silva [ministra do Estado e da Presidência], Pedro Nuno Santos [ministro das Infraestruturas] e Ana Catarina Mendes [ministra dos Assuntos Parlamentares]. Muito dificilmente o novo secretário-geral do PS será diferente de um destes quatro nomes”, sublinha o politólogo.

Este é um dos "tiques de snobismo político" que António Costa tem vindo a demonstrar nos últimos meses e que José Filipe Pinto atribui à maioria absoluta que lhe foi confiada pelos portugueses.

Daí que a demissão de Pedro Nuno Santos não tenha surpreendido o politólogo, que a classificou mesmo com uma decisão "inevitável", sobretudo depois da declaração de Fernando Medina, quando disse não ter conhecimento da indemnização da então administradora da TAP, Alexandra Reis. “Essa afirmação implica de imediato a queda de Pedro Nuno Santos. E o ministro das Finanças teve de ter o beneplácito de António Costa antes de a fazer”, aponta.

Na perspetiva de José Filipe Pinto, este caso da TAP mostra “nitidamente” uma "preferência" por Fernando Medina em detrimento de Pedro Nuno Santos na sucessão de António Costa.

Ao extravasarem as discussões no seio do Partido Socialista, estas questões acabam por minar a governação da maioria absoluta, além de fragilizarem a confiança dos portugueses no próprio primeiro-ministro. “Com tanta saída de membros do Governo em tão curto espaço de tempo, o primeiro-ministro também fica numa situação mais frágil. Não digo que não tenha condições para governar, mas sim que não soube escolher. Parece que este é um Governo que se está a desfazer”, argumenta José Fontes.

Para o politólogo, “este é o momento exato para o primeiro-ministro olhar para a sua equipa” e ponderar se não serão necessárias novas mexidas no Governo, desde logo no Ministério das Finanças, que também está sob escrutínio nesta polémica da TAP. "Não basta dizer que não se tem conhecimento, é preciso mais. É preciso apurar. O primeiro-ministro devia aproveitar esta situação grave para olhar para todo o Governo e analisar se é preciso alguma alteração de fundo.”

E o sucessor de Pedro Nuno Santos já deve constar dessa alteração de fundo, caso contrário, os politólogos não auguram um desfecho positivo para este Governo: "Se [o novo ministro das Infraestruturas] for uma escolha acertada e se o processo retomar alguma normalidade, isso será um ativo a favor do primeiro-ministro. Se, pelo contrário, a escolha for longe de consensual, (...) podemos caminhar para uma dissolução da Assembleia da República", antecipa José Filipe Pinto.

"A escolha do(a) substituto(a) de Pedro Nuno Santos é fundamental para a imagem política do primeiro-ministro, mas também é fundamental para a avaliação que os portugueses e o Presidente da República faz de António Costa. Isto vai determinar se a médio prazo não trocamos a estabilidade pela instabilidade, o que vai gerar dificuldades no normal funcionamento das instituições e, como tal, a dissolução da Assembleia da República", sintetiza o politólogo.

Beatriz Céu