“Mamã, hoje tenho escola?”. Esta é a primeira pergunta que o filho de sete anos lhe faz todos os dias de manhã. Está no 1º ano. Sónia Gonçalves é presidente da Associação de Pais da escola do filho, a EB Maria Costa, em Caneças, e explicou à TVI/CNN Portugal como tem vivido o último mês de greves na área da educação. Mas não só. Conta também a realidade que tem visto e o que sabe por outros pais: “crianças sozinhas à porta da escola”, “PSP chamada” e até pais ameaçados “com a CPCJ”.

“A nível pessoal, sobressai a parte emocional e psicológica dos miúdos. A incerteza se vão, ou não, ter escola, a que horas começa e a falta de rotina, sem perceberem como vai ser o seu dia”, afirma à TVI/CNN Portugal. 

Mas Sónia tem também uma filha de 10 anos que está no 5º ano. Tem alguma flexibilidade de horários e os planos são feitos “dia-a-dia”, às vezes hora a hora. Num dia da semana passada, “o diretor foi à porta da escola da minha filha às oito da manhã e disse: ‘A escola está aberta e as crianças podem entrar. Tenho uma lista de professores que já sei que não estão cá, tenho uma lista dos que estão e os outros não sei’. A minha filha não teve as primeiras aulas”, conta. Mas havia a possibilidade de ter aulas às 11:30. 

“Veio para casa. Tudo o que estava marcado para essa manhã tive de desmarcar. Às onze voltámos à escola e a professora estava. Esse período da manhã foi para esquecer. Ir de manhã, depois vir para casa, às onze voltar...”, continua.

Sobre a greve dos professores, Sónia Gonçalves não tem dúvidas em reconhecer que “os pais compreendem, não compreendem é a forma como isto está a ser feito”. E o apoio que ainda existe, devido à instabilidade diária, “com o passar do tempo, será cada vez menor”. Diz mesmo que lhe parece que "os pais estão a ficar menos tolerantes”. 

E é profissionalmente que os pais mais se sentem afetados. “Na semana passada, tive de desmarcar uma coisa, para fazer hoje. Gravar uns áudios num estúdio. Neste estúdio consigo fazer marcações de três em três meses. Portanto, eu já perdi o da semana passada, se por acaso perder o de hoje, só daqui a três meses é que consigo fazer aquele trabalho”, explica Sónia.

“Temos pais a receber queixas das entidades patronais”

Como representante da Associação de Pais, são muitos os casos que conhece. “Temos pais, na nossa escola, que precisam de levar os meninos para o trabalho. No outro dia era uma senhora que faz limpezas. A professora fez a greve à primeira hora, das 09:00 às 10:00. Ela teve de ir porque se não fosse perdia o trabalho e teve de levar o menino. Era longe daqui (escola). Na altura não sabíamos se a professora ia voltar”, recorda. A professora acabou por voltar e isso foi comentado no grupo de pais: “A senhora ficou desesperada, porque o menino teve de faltar à escola o dia todo. Teve de andar com ela, de casa em casa, a fazer limpezas. Estava longe e não conseguia vir pô-lo”.

Muitos optam por levar “os filhos para o trabalho”, mas nem sempre é uma escolha pacífica: “Temos pais a receber queixas da entidade patronal, a dizer que não podem levar os filhos e outros a dizer isto não pode continuar”. “Para os pais, há também uma quebra de rotinas e cada entidade patronal gere isto de forma diferente. Ter falta, não ter falta e justificar”.

No concelho de Odivelas há escolas com os Centros de Apoio à Família a funcionar, mas só em algumas. Na escola do filho, “este é o primeiro ano que o CAF não está a garantir” apoio às famílias nestes dias de greve. “Houve pressão dos sindicatos e, agora, cada agrupamento faz à sua maneira”. Mas este era um apoio que permitia a muitos pais irem trabalhar, deixando os filhos num local seguro.

Crianças à porta da escola, PSP chamada e ameaças com CPCJ

Nas reuniões que tem tido com as outras Associações de Pais do concelho de Odivelas, Sónia Gonçalves fala em situações "absurdas" que estão a acontecer. “Temos situações de crianças, no agrupamento, que às nove horas os pais ainda não tinham chegado para as ir buscar e foram postas fora da escola. Alegaram que não podiam estar dentro da escola. Como é possível fazer-se isso?”, questiona.

“Há também ameaças aos pais com a CPCJ. Dizem que se não forem buscar os meninos às nove horas, vão fazer uma denúncia à PSP e chamar a CPCJ. Os pais, às vezes, estão no trabalho e não conseguem vir logo buscá-los. São situações ridículas. Aliás, diz, há escolas onde a polícia já foi chamada duas ou três vezes: “Chamada pelos sindicatos, porque ainda havia meninos dentro das escolas, porque o CAF estava a trabalhar. Dizem ainda que também vão chamar a ACT”, conclui.

Sónia Gonçalves relembra que no concelho há muitas famílias “vulneráveis” e devido à greve há crianças que estão sem pequeno-almoço e almoço. “Por exemplo, no escalão A, famílias com mais dificuldades, nos dias de greve, as refeições não são asseguradas a estes meninos. Quando foi da pandemia arranjaram-se marmitas e as famílias podiam ir buscar. Para algumas crianças é a melhor refeição e para outras praticamente a única, porque à noite comem uns cereais ou umas sandes”.

Enquanto mãe, Sónia admite também estar preocupada com a aprendizagem. Não tem havido trabalhos de casa e talvez fosse importante “algumas atividades estruturadas que dessem continuidade na aprendizagem". "E eu sinto que esse processo de aprendizagem está a ser descontinuado. E tenho receio de como isso se vai refletir em termos de consolidação de conteúdos”.

Escolas nem sempre estão a passar justificações

Há algumas situações em que os agrupamentos de escolas estão a dificultar a emissão de justificações para os pais. Sónia Gonçalves dá o seu exemplo: “Na escola do meu filho, estava um cartaz a dizer ‘não há aulas devido à greve, com exceção da turma x’. Nós vimos o cartaz e viemos todos para casa. No segundo dia de greve, à noite, contactei a diretora da escola e perguntei como é que os pais podiam pedir uma justificação para entregar no emprego”. Ela respondeu que os pais podiam pedir no agrupamento, mas ressalvou que os professores às dez horas se estavam a apresentar ao serviço. Ou seja, os pais podiam não ter direito a justificação.

No caso do filho de Sónia tinham sido dois dias seguidos: segunda e terça. “Eu perguntei ‘como assim têm-se apresentado ao serviço? O cartaz dizia que não havia aulas’”. Ao que a diretora lhe respondeu que “isto é uma greve por tempo indeterminado, pode ser por períodos e os professores às dez horas apresentaram-se e nós tirámos o cartaz”. 

Indignada, Sónia insistiu junto da diretora: “Está a querer dizer que durante dois dias o meu filho ficou em casa e a professora dele esteve dois dias dentro da escola sem alunos? Como é que eu havia de saber? 'Os pais têm de se informar, têm de ligar para a escola’, foi a resposta que me deu”.

“Como é que eu consigo neste momento apoiar? Eu compreendo o que eles pedem, mas como é que eu consigo apoiar? A professora teve um desconto de uma hora por dia, nos dois dias. E os outros pais tiveram um desconto de um dia inteiro de trabalho. Além de que as crianças estiveram sem aulas”, conclui.

“Tenho a sorte que muitas famílias não têm”

Sandra Gachineiro é a representante da Associação de Pais da EB Artur Alves Cardoso, também em Odivelas. Tem duas filhas no ensino básico e considera que é “uma privilegiada”. “Tenho a sorte que muitas famílias não têm. Tenho apoio familiar”, afirma à TVI/CNN Portugal. E aqui têm sido “os avós” a salvar os dias.

São eles que “asseguram a estadia das crianças em ambiente familiar”, confessa. Mas isso não a impede de ver a realidade dos outros pais. “A situação é muito complicada para famílias deslocadas da sua terra de origem e para famílias imigrantes”, garante. “A forma intermitente da greve” está a prejudicar as famílias, acrescenta.

Como presidente da Associação de Pais, conhece várias situações: “Encontramos uma panóplia de soluções. Há crianças que vão com os pais para o trabalho, o que em algumas situações não é o ideal. Há pais que recorrem entre si, ajudam-se, e vão rodando para ficar com os miúdos. Outros pais solicitam o teletrabalho”.

A certeza que tem é que tem sido uma “gestão difícil do dia a dia”. Sabe que também há pais que recorrem à “assistência à família”, mas lembra que “estamos em greve desde 9 de dezembro e não há prazo que aguente”.

Sandra Gachineiro também sente que há uma “grande imprevisibilidade e as crianças mais pequenas estão a sofrer com isso, tal como os pais”. Até porque “os mais pequenos não percebem o que se está a passar”. “Eu entendo a luta, os critérios, as exigências, não acho é que seja a melhor forma de reivindicação”, justifica.

“Pais sentem-se pressionados”

Das queixas que recebe, os “pais estão com dificuldade em garantir o seu direito ao trabalho”, garante. “Os pais sentem-se pressionados. Há situações que não é possível o teletrabalho e não podem levar os filhos para o trabalho, o que os leva a faltar. Há entidades que não aceitam as justificações e pressionam”.

O facto de algumas escolas em Odivelas terem o CAF a funcionar protege alguns pais, mas não todos. Sandra também sabe que a polícia já foi chamada a algumas escolas do concelho e lamenta a situação.

A representante dos pais não tem dúvidas que são “as muitas famílias imigrantes” que existem no concelho que mais estão a sofrer por falta de “rede de apoio”. E é por isso que considera que “esta está a ser uma luta assimétrica, que está a impactar as pessoas com menos recursos”.

No seu caso, nos últimos dias, e porque uns professores “podem aderir e outros não”, já houve dias em que nenhuma das filhas teve aulas, outros em que teve uma e não teve a outra, etc. “Nunca sei”, assume.

A TVI/CNN Portugal procurou confirmar junto dos respetivos agrupamentos algumas das situações aqui referidas, mas até ao momento não obtivemos resposta. Tanto o facto de algumas crianças terem sido colocadas no exterior das escolas antes da chegada dos pais, como a existência de eventuais ameaças a pais com a CPCJ, como ainda a presença da PSP numa escola onde o Centro de Apoio à Família (CAF) está a funcionar.

Patrícia Pires