Precisa aliviar o stress? Gritar pode ajudar - mas é preciso ter atenção onde e quando o faz - TVI

Precisa aliviar o stress? Gritar pode ajudar - mas é preciso ter atenção onde e quando o faz

Gritar (Pexels)

Gritar serve para mostrar excitação, felicidade e surpresa, mas pode também servir para aliviar o stress e a tensão. Só que antes do grito deve vir a ponderação e, sobretudo, a compreensão desta necessidade. Duas psicólogas explicam porque sentimos vontade de dar gritos e como o podemos e devemos fazer

É uma cena comum em filmes, um episódio várias vezes relatado em livros e uma necessidade que todas as pessoas, em algum momento das suas vidas, já sentiram. Após um momento de stress, tensão ou até excitação, eis o grito - ou a vontade de gritar. 

Gritar é como o expelir de algo que nos consome, mas também ajuda a concentrar, a dar alento a algo ou para marcar uma posição, como mostra  estudo publicados nos úlitmos anos, como o que foi publicado na revista Current Biology,  em 2015, que sugere que ouvir um grito pode ativar os circuitos de medo do cérebro, agindo como um sinal de alerta para quem ouve. Talvez seja por todos estes motivos que existe o Haka, a dança e cântico que os jogadores de rugby da Nova Zelândia fazem antes do começo de cada jogo. 

“O grito pode ser uma forma de expressarmos as nossas emoções que estão, de alguma maneira, mais guardadas, como a raiva e o stress”, começa por explicar Tânia Gaspar, psicóloga e professora associada com agregação na Universidade Lusófona. 

Catarina Graça, psicóloga e psicoterapeuta na Clínica da Mente, diz que gritar “é como se fosse uma catarse de exteriorização de emoções mais negativas”, comparando até àquilo que também se vê com frequência na sétima arte e na literatura: o partir a loiça quando se está zangado, irritado ou stressado - uma ‘explosão’ momentânea. “Ao gritar estamos a ativar amígdalas e sistema límbico, zonas do cérebro, e liberta endorfinas, alivia o stress, tal como o exercício físico”, continua.

“Essas endorfinas, juntamente com os peptídeos produzidos pela glândula pituitária, podem juntas ter um efeito encorajador, acionando os receptores do cérebro para reduzir a dor e aumentar a força”, descreve, ao The Guardian, Pragya Agarwal, cientista comportamental e defensora do grito, seja em que lugar for.

“Uma pessoa muito contida e rígida, com dificuldade de expressar emoções, pode ter outras formas [de expressar as suas emoções], como gritar depois da corrida. Uma coisa mais radical ajuda a pessoa a compreender que ‘afinal consigo fazer isto’”, exemplifica Tânia Gaspar, frisando que, “em determinadas situações, pode ser importante ter alguma coisa mais intensa”, soltar um grito a pulmões abertos. “Fazer isso pode ser uma forma de se libertarem”, refere a docente.

Os benefícios do grito são claros, não fosse o próprio grito algo inato ao ser humano - é a forma como os bebés se começam a expressar, o modo quase automático como as crianças mostram o que sentem. Mas gritar é uma forma de libertar as emoções que tem impacto nos outros, um hábito que a sociedade ainda não abraça e que requer alguma compreensão, adiantam as psicólogas. 

Terapia para interpretar o grito

Falar do grito como uma terapia para cuidar da saúde emocional ou mental pode trazer consequências, sobretudo quando o berro é visto como a única forma de exprimir o que se sente. Aliás, o próprio conceito de terapia do grio não é amplamente aceite pela comunidade científica, apesar de ser inúmeras vezes usado em revistas e artigos publicados em blogues e até órgãos de comunicação social. Embora tenha sido criada em 1960 pelo médico Arthur Janov, esta ‘terapia’ é considerada uma pseudociência, seja pelos resultados nem sempre comprovados do seu sucesso, mas também por não ser a solução mais indicada na maioria dos casos. 

Tanto Tânia Gaspar como Catarina Graça dizem que gritar traz benefícios, mas que antes de se tornar um hábito é importante que a pessoa perceba as emoções que a levam a querer gritar e que tenha em consideração o contexto em que se encontra.

“Gritar apenas não tem um efeito milagroso, apenas alivia no momento. Para falar em terapia tem de haver uma interpretação do porquê do grito, um trabalho primeiro. Se a pessoa ganha apenas esse hábito de o fazer acaba por ser prejudicial”, esclarece a psicóloga Catarina Graça. “É como dizer asneiras, não podemos passar a vida a dizer asneiras, não resolve nada”, atira.

“Em situações de frustração, ansiedade e pressão, de sentir com muitos estímulos a exigir de si à sua volta ou de estar num ponto de exaustão, gritar é libertador”, continua a psicóloga, adiantando que se “o objetivo é não ter de gritar” , para isso, há que fazer um trabalho de casa: compreender as emoções e tudo o que está à sua volta e interfere com o que sente.

“Se a pessoa consegue ter auto regulação e expressar emoções no dia-a-dia de forma adequada, se calhar não vai precisar de momentos para gritar”, sublinha Tânia Gaspar, que reconhece, porém, que “fala-se muito de emoções”, mas as pessoas não sabem ao certo o que sentem e porque o sentem. “Sentem uma coisa estranha, aqui dentro, mas não conseguem dizer o que é,  o que estão a sentir”, lamenta.

Censura social 

O grito de felicidade após saber que a melhor amiga está grávida, o grito de adrenalina após uma corrida de dez quilómetros, o grito no carro após um momento stressante ou o grito em casa depois de um dia angustiante (e há quem o faça na almofada, abafando o som) podem ser vantajosos para libertar e expressar emoções, sejam elas positivas ou negativas, e pode ser um hábito a incluir no estilo de vida. Mas, apesar de ser algo inato, o grito é ainda mediado socialmente, sobretudo quando dado 'fora de portas' ou à frente dos outros.

Um grito em plena troca de ideias no local de trabalho, um grito no supermercado porque já não consegue lidar com a angústia que sente ou um berro a alta voz num parque de estacionamento. Estes são exemplos de situações em que o grito pode ser olhado de lado - a velha história do histerismo -, mas pode também ser “desproporcional”, como diz Tânia Gaspar, a propósito do exemplo dado no artigo do The Guardian, em que a autora relata o episódio em que desatou a gritar, juntamente com os filhos, num parque infantil para se libertar do stress. “Se em algum momentos quisermos expressar de uma forma mais intensa, termos esse direito se não colocar em causa o bem-estar social”, atira Tânia Gaspar. “Temos várias formas de expressar, como cantar a pulmões abertos uma música”, sugere, adiantando que cada pessoa deve encontrar a forma com que se sente mais confortável de o fazer.

“Temos a censura social que diz onde gritar. Temos de encontrar um contexto com base na necessidade, porque gritar por gritar não vai fazer efeito nenhum”, diz Catarina Graça.

Para Tânia Gaspar, “o grito parece uma forma um pouco radical e extrema de exteriorizar" as emoções:"Há outras formas em que a pessoa pode sentir-se mais confortável”, diz, acrescentando: “Se estiver com uma pessoa e sentir raiva não vou gritar com ela, vou perder a razão que possa ter. Tenho que sentir que estou com raiva e ter competências de autorregular essa raiva”. Daí que considere que “se a pessoa consegue ter auto regulação e expressar emoções no dia a dia de forma adequada se calhar não vai precisar de momentos para gritar”.

Embora defenda que as pessoas devem sentir-se livres de expressar as suas emoções, a professora admite que, apesar de já vivermos numa sociedade “mais aberta” a estas questões, “o que fazemos tem consequências na forma como nos veem e tratam”. E  nem todos, recorda, lidam da mesma forma perante o grito dos outros.

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