A escolha do Alasca como cenário para a primeira reunião do segundo mandato de Donald Trump com Vladimir Putin não surgiu por acaso. A região já fez parte do Império Russo, até ter sido vendida aos EUA em 1867 por 7,2 milhões de dólares (o correspondente a pouco mais de 6,1 milhões de euros) devido a dificuldades financeiras em São Petersburgo.
A sugestão do local partiu da administração norte-americana, e os russos concederam, considerando a escolha “bastante lógica”. “Parece bastante lógico que a nossa delegação simplesmente sobrevoe o Estreito de Bering e que uma reunião tão importante como esta entre os líderes dos dois países seja realizada no Alasca”, declarou o conselheiro do Kremlin Yuri Ushakov.
Atravessar o Estreito de Bering, que separa a Rússia e os EUA, não é assim tão simples: apesar de estarem divididos por 80 quilómetros, a viagem, tanto de um lado como do outro, nunca será menos de oito horas de avião.
Não se sabendo ao certo as rotas das viagens que ambas as delegações planeiam fazer, o comandante José Correia Guedes pressupõe que Putin, partindo de Moscovo, atravessa a Sibéria “uns largos milhares de quilómetros”, sobrevoa “um bocado” sobre o Ártico até entrar no espaço aéreo do Alasca. “O avião [de Putin, um Ilyushin Il-96-300PU] tem autonomia que chega e sobra para fazer a viagem direta”, sublinha o antigo piloto da TAP, esclarecendo, por isso, que não são necessárias paragens. O jornal The Guardian estima que seja um voo de nove horas de Moscovo a Anchorage, a maior cidade do Alasca.
Em relação a Donald Trump, complementa o comandante, também “podemos presumir, com elevado grau de certeza, que fará uma rota direta”, com o Air Force One do presidente norte-americano a partir de Washington DC e atravessa o Canadá seguindo em direção ao Alasca.
A opção Alasca também cumpre um requisito essencial para a comitiva russa: é um sítio seguro para Vladimir Putin, que continua sob um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional (TPI) pelos crimes de guerra de deportação ilegal de crianças de zonas ocupadas da Ucrânia para a Rússia após a invasão de fevereiro de 2022. Uma vez que os EUA não reconhecem a jurisdição do TPI, e que a viagem não implica sobrevoar nem parar em países hostis, o estado norte-americano do Alasca parece a opção mais segura para o presidente russo - que chegou a sugerir os Emirados Árabes Unidos como local do encontro, talvez pela mesma razão.
Mas há outro motivo que pode explicar a escolha do Alasca como cenário para o encontro, que assinala a primeira viagem de Vladimir Putin para os EUA desde 2007, excluindo as visitas à Organização das Nações Unidas. O estado remoto está longe o suficiente da Ucrânia e dos seus aliados europeus para os relegar para segundo plano.
"Quando ouço falar no Alasca parece-me mais uma reunião bilateral sobre o Ártico do que propriamente sobre outras localizações no mundo. Isso sim importa a esses dois estados no futuro", afirma o comandante João Fonseca Ribeiro, em declarações à CNN Portugal.
De acordo com o comandante, esta reunião pode servir para que ambos os líderes consigam desenhar “um alinhamento estratégico relativamente ao Ártico”. Note-se que Rússia e EUA integram o Conselho do Ártico, tal como Canadá, Dinamarca (com a Gronelândia), EUA, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Segundo o comandante, Trump poderá ter receio que a Rússia deixe uma “porta aberta” à China - que chegou tarde à exploração do Ártico e, por isso, foi impedida de integrar o Conselho do Ártico -, mediante acordos celebrados entre os dois países que, com a contrapartida de poderem alimentar o esforço de guerra russo, podem acabar por “ceder à China os recursos naturais da Rússia no Ártico”, nomeadamente combustíveis fósseis e minerais.
“Trump tem interesse em conter a intenção da China em chegar aos recursos naturais do Ártico, alinhando interesses com a Rússia”, teoriza o comandante, que lembra o interesse do presidente dos EUA na Gronelândia, já que, anexando a ilha dinamarquesa, "também estenderia a sua soberania sobre o Ártico".
Na mesma linha, pode acontecer que Trump - que fez campanha para este segundo mandato com pretensões territoriais na Groenlândia - tenha agora um “entendimento diferente quanto à soberania” no Ártico, sugere João Fonseca Ribeiro. “Isso nunca esteve posto em causa pelos EUA relativamente ao que os outros Estados foram reclamando em termos de área sob sua soberania ou jurisdição. A questão é que o interesse americano pode alterar-se de tal modo que pode não reconhecer essa soberania por parte da Rússia”, problematiza.
Mas há mais: o Alasca pode ser “um sinal de que, para os americanos, na relação com a Rússia o que é importante é o Ártico”, relegando a questão da Ucrânia para os europeus. “E, como resultado desta reunião, pode haver um argumento para os Estados Unidos retirarem o seu protagonismo” no conflito, sugere o comandante.
Independentemente das intenções na escolha do local para aquele que será o primeiro encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin em sete anos - o último teve lugar em Helsínquia, capital finlandesa, em julho de 2018 - fica cada vez mais claro que a Ucrânia não será mais do que o elefante na sala nesta reunião entre os dois líderes.