Vladimir Putin disse esta semana que, "se a Europa quiser", a Rússia está "pronta" para uma guerra. Se um conflito eclodisse já amanhã entre russos e europeus, como é que tudo se processaria do nosso lado?
É um exercício difícil, porque pressupunha que haveria uma invasão ou ataque e não tenho como certo que vá ser assim. Acho que vamos alimentando esse conceito de ameaça para ver se nos preparamos para ter capacidade suficiente de dissuasão que garanta a nossa segurança. A tradição europeia é, no fundo, habituarmo-nos muito rapidamente a umas coisas e esquecermo-nos do que dantes considerávamos urgente. Os discursos sobre as ameaças russas, sobre o perigo para a Europa, não aguentam muito tempo na política, pelo que temos de ir sempre alimentando um pouco esta ideia [de invasão] para ver se temos sustentação no esforço orçamental, para ver se conseguimos mobilizar vontades políticas em torno da causa.
Então não considera que as declarações ameaçadoras de Putin envolvam uma potencial invasão terrestre do território europeu para lá da Ucrânia?
Não, não consigo antever realisticamente que a Rússia tenha qualquer capacidade para atacar a Europa. Particularmente no último ano e meio, temos estado a tentar antecipar aquilo que vai acontecer. Vai ser uma invasão? Vai atacar os bálticos? Vamos sofrer ataques até 2030? Depois passou para 2029 e agora alguns falam como se estivessem iminentes. O discurso político e militar é cada vez mais influenciado por esta construção de ameaça, é um instrumento, uma ferramenta política, se quiser, de mobilização das opiniões públicas.
Com ou sem invasão, quão pronta está a Europa para lidar com um potencial conflito mais alargado?
Parece-me claro que não estamos prontos, não é sequer uma coisa pessimista, evidentemente não estamos prontos para um conflito nesta altura, embora deva dizer que, muitas vezes, achamos que as realidades são absolutamente estáticas, quando não é assim. Não estamos prontos agora, e isto é dito por todos – não estamos prontos para enfrentar uma ameaça potencial da Rússia, porque essa ameaça não tem de mobilizar divisões, não tem de mobilizar agressão como aconteceu em fevereiro de 2022 com a Ucrânia.
Neste contexto, como olha para estas declarações do presidente russo?
Como um condicionamento político. A gestão da ameaça é algo que Putin faz habilmente, invocando sempre capacidade de destruição, capacidade nuclear. Ele disse que a guerra contra a Ucrânia tem sido cirúrgica mas que connosco seria à bruta – isto também é uma forma de, politicamente, Vladimir Putin nos dissuadir de começarmos a ter uma voz mais musculada. Recordo que estas declarações foram proferidas depois de a NATO ter admitido a hipótese de ações preventivas perante a guerra híbrida da Rússia, de encetar ações como resposta antecipatória.
Refere-se ao tipo de ações que a Rússia já tem tomado para desestabilizar as nações europeias?
Sim, não se trata de uma guerra convencional típica, mas de uma que resulta da manipulação de informação, da desinformação, de ciberataques, dos drones que aparecem por coincidência no nosso espaço aéreo. É isso que nos tira do sério, e como nos tira do sério Putin sabe tocar nos pontos que, para nós, são muito sensíveis, que nos enervam, que nos deixam com medo. E claro que para um português é mais fácil falar de tudo isto do que para um estónio.
Exclui, portanto, a hipótese de uma guerra convencional entre a Rússia e a Europa?
Não me parece realista a hipótese de uma invasão, de todo. E quem disse isto está a basear-se em dados que eu nem consigo descobrir onde os encontrou. Além disso, isto é contraditório em relação ao nosso discurso oficial. Dizemos que, no último ano, a Rússia terá conquistado, quando muito, 1% do território ucraniano, e damos isso como um exemplo da incapacidade russa. Ora, se não consegue sequer ‘resolver’ o caso ucraniano, como manifesta e felizmente não consegue, ia conseguir, ao mesmo tempo que está a ocupar a Ucrânia, atacar a Europa? Não tem capacidade de sustentação militar para a Ucrânia, ia ter para nós? Por muito atrasados que estejamos, e estamos, na preparação da nossa defesa e segurança, acho sinceramente que a ideia de iminência serve para nos manter em sentido, para nos fazer aceitar decisões que normalmente não aceitaríamos, como um reforço orçamental para a Defesa.
E o que falta fazer no que toca a esse reforço necessário da Defesa?
Aquilo que ainda não conseguimos enfrentar é essa questão. O que fizemos, em três anos e meio, quase quatro anos de guerra, para nos prepararmos? Essa é que é a grande questão. O que fizemos a partir de 2014, quando a Rússia ocupou e anexou a Crimeia? O que é que de relevante fizemos para preparar a nossa defesa? Dissemos sempre que só precisávamos de 2% do nosso PIB, agora já não são 2%, são 5%, e aquilo que não conseguimos resolver roça o penoso, por exemplo, em termos de mobilidade militar – da necessidade de termos, de uma vez por todas, um espaço único europeu para mobilizar militares, capacidades para que militares do sítio A possam ser utilizados no sítio B imediatamente.
Recentemente, a presidente da Comissão Europeia aflorou essa necessidade de um "espaço Schengen na Defesa".
Sim, mas isto ao fim de três anos e meio? Percebe porque é um bocadinho irritante? Na UE falamos muito como união, mas continuamos a ser muito pouco unidos, e na Defesa ainda pior. Estamos há décadas a discutir o que podemos fazer para garantir financiamento para o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos.
Uma discussão que, ultimamente, tem girado em torno dos ativos russos congelados no sistema bancário europeu desde o início da guerra, cuja utilização está a ser contestada pela Bélgica.
Eu sou muito crítico do confisco dos bens russos – mas vejamos, nesse caso estamos a falar de uns módicos 180 mil milhões de euros. Isto significa para os Estados europeus, nos próximos dois anos, um esforço financeiro de aproximadamente 1% do PIB europeu. 1%! Se não conseguimos, ao fim de mais de meio ano, e numa questão crucial para a nossa existência, prescindir de 1% da nossa riqueza, permito-me duvidar da eficiência do modelo que estamos a desenhar.
Dizemos que temos de nos rearmar, mas continuamos divididos sobre a forma, sobre a quem comprar armamento, sobre como criar uma real indústria europeia, continua a ser cada Estado a decidir… Alguém acredita que vai dar um resultado rápido e eficiente? Eu não acredito. Estamos a criar um sistema muito competitivo a nível intraeuropeu, em que se destacam os alemães mas também os franceses, e cada um vai querer ficar com o seu quinhão. Quanto aos pequenitos, como nós, permito-me duvidar. Muitos Estados acabam por pensar: ‘dependendo por depender, prefiro depender dos EUA’.
Diria, então, que continuamos longe de garantir a nossa autossuficiência em matéria de defesa e segurança?
Diria que enfrentamos uma série de tremendos obstáculos para se encontrar uma solução credível para o nosso esforço em matéria de Defesa. Não estou a criticar ninguém, mas sim a nossa incapacidade, como europeus, de falarmos e atuarmos como europeus. E depois vêm sempre os do costume dizer que isto se resolve gastando muito mais. Mas a mitologia hoje é dos 5% [do PIB para a NATO], e qualquer dia é de 10%, mas para usar como? Depois vêm outros dizer que, para isso, temos de renunciar ao Estado social. Porquê? É uma discussão ideológica perturbadora, parece que alguns querem aproveitar a necessidade de defesa para conseguirem uma alteração do modelo de Estado. Acho errado e acho que não nos leva a lado nenhum. Acho que não temos de ser um Estado sem dimensão social para nos podermos defender. Agora é fácil explicar isto?
Essa é uma das grandes questões da atualidade, como comunicar estas necessidades às populações num momento de grande fragilidade política e económica?
Admito que não é fácil e a própria guerra da Ucrânia está a custar-nos muito politicamente. E se olharmos para hoje em comparação com 2022, a Europa está mais forte ou mais fraca?
O que acha?
Eu diria que estamos mais fracos, menos democráticos, muito divididos, menos capazes de atuar politicamente, e infelizmente os nossos adversários sabem muito bem disso. A Rússia conhece-nos extremamente bem, ainda por cima, para azar dos Távoras, acentuou-se nos últimos anos a forma menos empenhada como o nosso aliado transatlântico nos olha, e digo menos empenhada para não dizer pior. Estamos numa situação que nunca imaginámos possível.
E agora temos os líderes europeus temerosos da possibilidade de os EUA "atraiçoarem" Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia, nas negociações que têm em curso com a Rússia.
E quase quatro anos depois [da invasão em larga escala], não podemos permitir-nos nesta altura uma cessação das hostilidades nestes termos [impostos por Moscovo], seria uma derrota estratégica. Mas, ao mesmo tempo, olhamos para o outro lado do Atlântico e só vemos nuvens, não vemos sinais animadores. Achávamos que o nosso casamento nunca acabaria, como aqueles casais de velhotes que se zangam e fazem as pazes, achando que nada porá em causa a união. Hoje percebemos que não é assim – e ainda não fomos capazes de digerir isso de uma vez por todas.
Aceitar de uma vez por todas que a tradicional aliança transatlântica acabou?
Continuamos sempre à espera que seja só um arrufo, que seja porque é Trump que está no poder, quando temos é de aceitar que, na geopolítica, deixámos definitivamente de ser uma prioridade dos EUA. Não podemos pedinchar o regresso do cônjuge que decidiu sair de casa, temos de aceitar esse facto sem dramas, e mostrar capacidade de fazer pela vida e reconstituir o sentimento fundamental das comunidades, que é o sentirmo-nos seguros, e não sob ameaça permanente da Rússia. E o que acho extraordinário é que, ao fim de quase quatro anos, não tenhamos dado passos decisivos para mudar a nossa ação externa.
Temos de encarar isto como um facto da vida, não é agradável mas é um facto. Podemos imaginar os cenários mais excitantes que quisermos sobre ameaças iminentes, querem tentar convencer-nos de que a Rússia está amanhã no Rossio, isso não é plausível. Mas pelo menos que aproveitemos o tempo que temos para tomar medidas que nos libertem deste sentimento de angústia geopolítica.