"Seria um suicídio para a Transnístria": há um "aviso" para um "acontecimento de grande impacto" que pode "internacionalizar o conflito" com a Rússia - TVI

"Seria um suicídio para a Transnístria": há um "aviso" para um "acontecimento de grande impacto" que pode "internacionalizar o conflito" com a Rússia

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  • 28 fev, 08:00
Transnístria (AP)

Dos EUA chegou um "aviso" para "um acontecimento de grande impacto de probabilidade indeterminada" na Transnístria, que, a acontecer, poderia obrigar a um envolvimento da NATO com as forças russas. Mas os analistas desvalorizam este aviso, descrevendo-o mesmo como "um devaneio"

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O Instituto para o Estudo da Guerra emitiu, no passado dia 22 de fevereiro, um aviso para “um acontecimento de grande impacto” na Transnístria, que pode, em última instância, “alargar o conflito” entre a Rússia e a Ucrânia à Moldova e levar ao envolvimento da NATO na região.

Em causa está um alegado referendo sobre a anexação da Transnístria à Rússia, que, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, poderá ser anunciado esta quarta-feira, no âmbito do Congresso dos Deputados da Transnístria, a decorrer em Tiraspol, num evento que, segundo aquele instituto, “raramente” acontece e que não estava previsto na agenda.

O comunicado do Instituto para o Estudo da Guerra é vago e pouco claro, enunciando como "pretexto" para a convocação do referendo a "alegada necessidade de proteger os cidadãos e 'compatriotas' russos" que vivem naquela região separatista pró-russa, situada entre a Moldova e a Ucrânia, "das ameaças da Moldova ou da NATO ou de ambas".

Localização da Transnístria no mapa europeu (CNN)

Mas o comunicado vai mais longe, advertindo que Vladimir Putin "poderá, na mais perigosa das hipóteses, declarar a anexação da Transnístria pela Rússia durante o seu discurso na Assembleia Federal Russa, prevista para o dia 29 de fevereiro", precisamente o dia seguinte ao referido Congresso dos Deputados. 

O think tank norte-americano faz este aviso, para logo a seguir fazer uma ressalva, admitindo que "parece pouco provável" que Vladimir Putin possa vir a declarar isso mesmo. "O mais provável é que Putin se congratule com qualquer que seja a decisão do Congresso de Deputados da Transnístria", refere-se no mesmo comunicado.

"O Instituto para o Estudo da Guerra apresenta esta avaliação como um aviso para um acontecimento de grande impacto de probabilidade indeterminada", acrescenta-se.

Os analistas têm levantado várias dúvidas sobre este aviso, questionando quais os fundamentos do think tank para emitir este comunicado, que não apresenta factos que o sustentem. Tanto que o chefe dos serviços secretos da Ucrânia, Kyrylo Budanov, já veio a público deixar claro que “ninguém se irá juntar à Federação Russa em 28 de fevereiro”.

No comunicado, o Instituto para o Estudo da Guerra destaca a pertinência deste Congresso dos Deputados, tendo em conta que o último aconteceu em março de 2006, tendo sido precisamente nessa ocasião que se decidiu realizar o referendo sobre a independência da Transnístria da Moldova, e que veio a decorrer mais tarde nesse ano. Além da soberania da Transnístria em relação à Moldova, esse referendo incluía uma questão sobre uma futura integração daquela região separatista pró-russa na Federação Russa, no âmbito de um acordo político por associação. À luz da realidade portuguesa, ao abrigo desse acordo, a Transnístria “seria uma espécie de Região Autónoma dos Açores ou da Madeira da Federação Russa”, compara Tiago André Lopes, explicando que não se tratava de uma "anexação" per se, mas sim “uma partilha de competências", com a Rússia, à semelhança da Bielorrússia.

Os resultados do referendo mostraram que 97% das pessoas estavam a favor da independência da Transnístria e de uma associação a Moscovo.

É neste contexto que Tiago André Lopes duvida da convocação de um novo referendo sobre a anexação da Transnístria à Rússia. “Se a Rússia quisesse entrar na Moldova, já tem um instrumento de 2006 para esse efeito, não precisa de o repetir”, diz.

Mas, mesmo com esse referendo, realizado há 18 anos, o professor de Relações Internacionais duvida que o Kremlin avance nesse sentido, sobretudo agora, no decurso da invasão da Ucrânia. “Mesmo que a guerra [na Ucrânia] agora esteja a correr marginalmente bem à Rússia, está muito longe de estar ganha. Não estou a ver a Rússia a partir agora em mais uma frente para entrar na Moldova”, argumenta Tiago André Lopes.

O major-general Agostinho Costa diz mesmo que “seria um suicídio para a Transnístria” avançar com um referendo sobre a anexação à Federação Russa, “porque daria um argumento à Moldova para entrar na Transnístria e, se necessário, pedir apoio à Ucrânia” para o fazer. Ora, “um território que tem uma profundidade de escassos quilómetros [com uma área de 4.163 quilómetros quadrados - quase o dobro do distrito de Lisboa] não resistiria um dia se fosse atacado pelos dois lados”, diz o especialista em estratégia militar, que lembra que a Transnístria tem um contingente militar russo de cerca de 1.500 soldados - as chamadas forças de “manutenção de paz”, mas que, segundo o major-general, “estão ali para manter o status quo” do Kremlin. 

Portanto, continua o major-general, “qualquer ação” na Transnístria “consubstancia uma escalada” do conflito em curso na Ucrânia, uma vez que implica “o envolvimento da Moldova”, o que iria “internacionalizar o conflito”, correndo-se o “risco de uma intervenção da NATO”. 

“Seria uma provocação autêntica para a Moldova. Seria completamente contracorrente e absolutamente irracional”, reforça o major-general Agostinho Costa.

Neste contexto, o professor Tiago André Lopes, questiona então qual “o interesse” por detrás deste aviso e “porquê agora”. “A razão é muito simples", responde. "O estudo bate com a argumentação do espectro de uma guerra contínua e de uma Rússia transformada quase numa ‘Alemanha nazi’, ou seja, a avançar por países adentro. Parece estar a tentar dar a ideia de que isso de facto vai acontecer, ou seja, de que há um grande plano russo para engolir a Moldova”, teoriza, acrescentando: “Não quer dizer que não aconteça, mas não há indicadores sustentados.”

“Esta informação vem de uma fonte norte-americana para criar alarmismo e disrupção e para justificar que os Estados europeus continuem a apoiar o esforço de guerra da Ucrânia”, sintetiza Tiago André Lopes.

Confrontado com este aviso, o governo da Transnístria garante que "não há motivos para acreditar que a situação na região possa deteriorar-se". "O gabinete de políticas de reintegração acompanha cuidadosamente a situação na região da Transnístria, estando em contacto com permanente com a Missão da OSCE [Organização para a Segurança e Cooperação na Europa] e outros parceiros internacionais. Com base nas informações de que dispomos, não há motivos para acreditar que a situação na região possa deteriorar-se", declarou o governo da região separatista, citado pela Rádio França Internacional (RFI).

Situada no leste da Moldova, a Transnístria é uma região separatista prór-russa, com cerca de 470 mil habitantes, que declarou a independência da Moldova em 1990. Internacionalmente, porém, nenhum Estado-membro das Nações Unidas reconhece a soberania da região, considerando-a parte da Moldova, um antigo Estado soviético que tem vindo a aproximar-se cada vez mais dos ideais ocidentais. A presidente da Moldova, Maia Sandu, tem vindo a trabalhar na adesão do país à União Europeia (UE) - um cenário cada vez mais próximo de se concretizar, tendo em conta que em dezembro passado, o Conselho Europeu decidiu abrir as negociações formais de adesão à UE com a Ucrânia e com a Moldova.

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