"Quando se está em Gaza, não se sabe nada". 20 dias de guerra pelos olhos de um soldado israelita - TVI

"Quando se está em Gaza, não se sabe nada". 20 dias de guerra pelos olhos de um soldado israelita

Gaza (Byron)

Byron, israelita de 24 anos, viu-se forçado a combater pelo seu país. Podia ter dito que não, mas sentiu que era um dever depois do ataque de 7 de outubro. Tinha acabado de regressar a Israel para estudar

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Um passo em falso, a pontaria errada, a constante ameaça de ser apanhado desprevenido. Mesmo com treino rigoroso e uma estrutura militar organizada, a realidade na zona de guerra de Gaza é um balagan - caos, em hebraico.

Com a missão de localizar e neutralizar membros do Hamas, Byron, um jovem soldado de 24 anos, foi destacado para a linha da frente no norte da Faixa de Gaza, motivado pela memória dos amigos que perdeu no ataque de 7 de outubro. 

"Era uma grande confusão. A guerra é um caos. Nada é organizado como é suposto." Byron esteve no norte da Faixa de Gaza em missão durante 20 dias. "Foram dias intensos e de constante superação", descreve. Aquando do cessar-fogo, o soldado israelita regressou à base militar, de onde relatou a sua experiência, por telefone, à CNN Portugal. A sua voz transmitia uma mistura de exaustão e determinação.

Byron (nome fictício por razões de segurança) sentiu a responsabilidade de regressar ao exército israelita assim que soube da morte de muitos dos seus amigos, vítimas do ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro. "Tudo estava normal até que um dia, de repente, tudo mudou. Fomos obrigados a parar de trabalhar e estudar."

Antes do 7 de outubro, Byron era bartender [empregado de bar] e ansiava que chegasse o dia 22 desse mês para que pudesse começar a estudar gestão e economia em Telavive. No entanto, a chamada inesperada ao serviço militar veio alterar os seus planos, levando-o a responder imediatamente à missão das Forças de Defesa de Israel (IDF).

Refletindo sobre a sua decisão, Byron explica que podia ter recusado a convocatória para se juntar à missão, mas era incapaz de o fazer. "Sim, podia ter dito que não, garante. Byron foi um dos 360 mil reservistas que foram convocados pelas IDF. E desses foi um dos que decidiu aceitar.

Quando tinha 18 anos, Byron cumpriu 32 meses de serviço militar obrigatório. Não ficou por ali e esteve ainda dois anos em missão com as IDF, numa unidade especial. Cansado e preocupado com a sua saúde mental, acabou por deixar o exército e foi viver para a Austrália. Regressou este ano a Israel na expectativa de começar um curso superior, mas a operação lançada pelo Hamas trocou-lhe as voltas.

Assim que foi convocado, Byron juntou-se à sua unidade numa base militar perto de Telavive. "Fui imediatamente para a base e treinei durante duas semanas para rever a técnica e, sobretudo, para relembrar como se dispara uma arma", explica Byron, frisando que a transição da sua vida civil para a militar foi radical e repentina. 

Apesar de toda a preparação, Byron diz que a zona de guerra pouco se parece com os treinos e há vítimas da inexperiência de combate. "Em Gaza alguns soldados morreram porque, por vezes, disparamos uns contra os outros sem querer." Como em tudo, uma guerra também tem as suas regras. "Só podemos disparar diretamente contra um terrorista se estiver a menos de 300 metros", indica o soldado, enfatizando a importância de uma identificação clara e precisa do alvo.

Byron diz que nunca se sentiu pouco preparado, mas defende que esta missão não é pequena, como aquelas a que estava habituado. "Quando se está em Gaza, não se sabe nada." Já numa missão pequena "sabe-se tudo, sabe-se exatamente o que vai acontecer e o que é preciso fazer".

A equipa de Byron era composta por 15 elementos. "Não entrou apenas a minha equipa. Esta é uma grande guerra, por isso, o exército todo entrou na Faixa de Gaza. As equipas podem não se encontrar. Podemos nunca mais ver um companheiro."

E entraram em Gaza após vários dias de bombardeamentos. 

A nossa missão era entrar e 'limpar' o norte de Gaza", revela o soldado de 24 anos, que se deparou com vários civis. 

Israel avisou os civis para partirem para sul, mas a realidade dentro de Gaza estava longe de ser clara.

"Quando entrámos, o caos governava", prossegue, contando que a sua unidade foi muitas vezes visada "pelos terroristas".

Byron relembra também um dos encontros com civis: "Uma vez encontrámos uma mãe e os seus dois filhos", conta, garantindo que a sua equipa não disparou. "O objetivo do exército israelita não é matar crianças. Mas infelizmente milhares de crianças morreram em Gaza."

"Eles não deviam estar ali. Sabem que é uma zona de guerra", argumenta ainda. Para o soldado a sua missão não passa por alertar os locais. "Essa não é a nossa missão, é uma missão para o governo de Gaza." No entanto, Byron reconhece as dificuldades sentidas pelos locais. "Penso que é difícil para eles porque o Hamas não lhes dá a opção de partir."

"Nem todos somos soldados de profissão, estamos no exército a lutar contra o Hamas, uma organização terrorista, não é assim tão fácil." 

Byron e a sua equipa passaram 20 dias em combate no norte da Faixa de Gaza. “Permanecemos dentro de Gaza. Não dormimos, às vezes fechávamos os olhos por duas horas, no chão ou numa casa que parecesse segura”, descreve.

A equipa de Byron no norte da Faixa de Gaza (DI)

Byron conta que numa dessas casas encontrou um livro de inglês que continha mensagens de ódio a Israel. "As crianças de Gaza aprendem na escola a odiar-nos. Não sabem mais nada. A população de Gaza dedica-se a aprender como ocupar Israel", acredita Byron, preocupado em defender o seu país. Para o soldado, a educação em Gaza é um dos maiores problemas deste conflito. "Toda a gente nos quer mortos."

Durante o cessar-fogo, que durou sete dias, Byron regressou à base militar em Israel. "A base militar está a poucos quilómetros de Telavive, onde a vida continua", diz o jovem que sente uma enorme responsabilidade em lutar pelo seu país. "Muitas pessoas da minha equipa desistiram, toda a gente pode fazê-lo. Podia desistir agora, mas o exército precisa de mim."

Enquanto Byron se confronta com o que presenciou na Faixa de Gaza, sublinha a dificuldade de regressar à realidade de Israel. Byron nem consegue descrever como se sente. "Ainda não terminámos a nossa missão. É muito difícil refletir e pensar quando estamos dentro da zona de guerra em Gaza", confessa.

Na memória leva consigo as vítimas do 7 de outubro. "Nós queremos o nosso povo de volta, muitos estão dentro de Gaza", aponta, referindo-se aos reféns. "É uma loucura. Neste momento os nossos reféns são uma moeda de troca, parece um negócio."

Durante o breve cessar-fogo em Gaza, Byron partilhou a sua história com a CNN Portugal. Byron voltou entretanto à Faixa de Gaza. Desde então, o contacto com o jovem foi perdido. 

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