Nota do editor: Frida Ghitis, antiga produtora e correspondente da CNN, é colunista para assuntos mundiais. É colaboradora semanal da CNN, colunista colaboradora do The Washington Post e colunista da World Politics Review. As opiniões expressas neste comentário são as suas próprias.

 

Rússia pode em breve tornar a guerra na Ucrânia ainda mais sangrenta

A guerra na Ucrânia poderá em breve ficar muito pior.

A Rússia pode estar a preparar-se para lançar uma grande ofensiva na Primavera, e ela poderá vir mesmo antes de a neve do Inverno começar a derreter.

O momento de dar à Ucrânia o que ela precisa para se defender e expulsar os invasores russos é agora. Mas apesar de um compromisso notavelmente unificado, alguns dos apoiantes da Ucrânia no Ocidente estão a deitar areia na engrenagem.

A Ucrânia acredita que o Kremlin poderá fazer outro esforço para tomar a capital, Kiev, e antecipa que o Presidente russo, Vladimir Putin, irá mobilizar mais cerca de 500 mil soldados, para lá dos 300 mil mobilizados no final do ano passado.

Moscovo nega estar a planear uma segunda mobilização, mas o noticiário russo independente Volya, citando fontes militares da Rússia, informou que Moscovo planeia recrutar mais 700 mil tropas. Além disso, a Ucrânia também enfrenta mais de 50 mil mercenários do exército privado, a maioria dos quais prisioneiros russos libertados em troca de combates.

Na sexta-feira, o secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, declarou que "este é um momento decisivo para a Ucrânia numa década decisiva para o mundo", após uma reunião crucial dos principais aliados ocidentais da Ucrânia na Base Aérea de Ramstein, na Alemanha.

A Ucrânia está a lutar contra uma Rússia que tem sido uma força perniciosa e desestabilizadora na cena mundial. O Ocidente está a tentar calibrar o seu apoio, mas o resultado da reunião de Ramstein foi decepcionante para Kiev e para aqueles que acreditam que a Rússia deve ser derrotada.

Austin reiterou que os Estados Unidos continuarão a apoiar a Ucrânia "durante o tempo que for necessário", exortando os amigos de Kiev a "cavar ainda mais fundo". Apesar das exortações, porém, os chefes de defesa falharam num dos principais objectivos da reunião, sobre decidir enviar tanques de batalha, que a Ucrânia diz precisar sem demora.

A decisão sobre os tanques foi bloqueada pela Alemanha, que está relutante em enviar os seus tanques Leopard 2 ou em autorizar outros países que os possuem para que os liberem. Berlim receia que Moscovo veja a presença de tanques alemães como uma provocação e quer que os EUA enviem os seus tanques para lhe dar cobertura.

Washington está a enviar veículos blindados de combate e outras armas pesadas, mas mantém que os seus tanques Abrams não são adequados para esta guerra porque aprender a operá-los leva demasiado tempo e eles são difíceis de manter. Os EUA insistem que os tanques alemães são mais adequados.

Bloquear a transferência das armas necessárias para a Ucrânia não é, digamos, a Alemanha no seu melhor.

Os apoiantes da Ucrânia da Europa Oriental, que foram invadidos pela Rússia durante a Guerra Fria e anteriormente, ficaram a fumegar. O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco arrasou a Alemanha, recordando a Berlim que isto não é apenas um exercício, "o sangue ucraniano derramado é verdadeiro". Os três Estados bálticos - Letónia, Estónia e Lituânia - exigiram que a Alemanha atue "agora".

Um frustrado Volodymyr Zelensky afirmou: "Não há nenhuma razão racional para a Ucrânia ainda não ter sido abastecida com tanques ocidentais".

Ao combater soldados e mercenários russos, a Ucrânia tem outra preocupação. Uma fonte ucraniana disse à CNN que Kiev está preocupada com a mudança no equilíbrio político em Washington, agora que os republicanos - alguns dos quais não apoiam totalmente a Ucrânia - assumiram o controlo da Câmara dos Representantes dos EUA. Os ucranianos exigem o apoio constante e enérgico que receberam de Washington.

Observando de longe, é fácil ter a impressão de que Putin poderá em breve pôr fim à sua infeliz guerra com a Ucrânia. Afinal, este conflito tem sido um desastre total para a Rússia, mesmo que continue a matar dezenas de civis ao bombardear blocos de apartamentos, e apesar de um avanço simbólico ocasional.

Putin não tem a intenção de parar. Ele silenciou os seus críticos liberais em casa, mas está sob pressão de nacionalistas de extrema-direita, incluindo alguns que possuem exércitos mercenários e estão a exibir as suas proezas enquanto zombam do exército russo que lhes obedece, tal como Yevgeny Prigozhin, que dirige o Grupo Wagner.

Além disso, Putin, que se vê a si próprio como um inteligente estudante de história, pode estar a olhar para algumas das maiores vitórias da Rússia, arrancadas das garras da derrota.

A Rússia conseguiu repelir as invasões de Napoleão e dos nazis, mas o atual Presidente russo pode ter colhido a lição errada das proezas dos seus antecessores. Napoleão e Hitler foram os invasores. O império russo, e mais tarde a União Soviética, estava a defender-se a si próprio.

Desta vez, a Rússia é o agressor. A Ucrânia tem a vantagem do campo de batalha, incluindo a determinação inesgotável de derrotar o odiado invasor.

Na verdade, a história ensina-nos outra coisa: em 2008, Putin invadiu a vizinha Geórgia e escapou com a captura de parte do seu território. Em 2014, invadiu a Península da Crimeia da Ucrânia e também conseguiu escapar. Depois, no ano passado, decidiu tomar toda a Ucrânia.

A lição é que quando as aventuras militares expansionistas do Kremlin são bem sucedidas, são seguidas de mais agressões, mais guerras, mais confiscação ilegal de território dos seus vizinhos. As vitórias de Moscovo parecem produzir mais guerras de agressão russa.

Derrotar este ataque é a melhor forma de assegurar a paz futura, de reafirmar a noção de que um país ganancioso não pode simplesmente engolir um vizinho pacífico - uma noção que pensávamos ter terminado após a Segunda Guerra Mundial.

Compreensivelmente, a Alemanha emergiu dessa guerra com uma inclinação pacifista. Mas a lição da Segunda Guerra Mundial é sobre o perigo de permitir que déspotas agressivos vão ganhando.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, pode hesitar em enviar tanques para combater a Rússia, como a Alemanha fez nos anos 40, mas também ele pode estar a destilar as lições erradas da história. Nessa altura, os tanques alemães invadiram um país soberano. Desta vez, eles estariam a defender um.

Alguns, na verdade, argumentam que a experiência da Segunda Guerra Mundial confere à Alemanha uma responsabilidade moral única para fornecer a Kiev o que ela precisa. (Já agora, quando os nazis invadiram a União Soviética, invadiram a Ucrânia, uma das suas repúblicas).

Depois de os ministros da defesa em Ramstein terem anunciado que não tinham decidido enviar tanques, Zelensky, claramente desapontado, reafirmou que a Ucrânia precisa urgentemente de tanques, mas acrescentou um comentário intrigante sobre o que tinha acontecido. "Nem tudo", disse ele, "pode ser anunciado em público".

Tenho poucas dúvidas, mais cedo ou mais tarde os tanques virão. Já o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, encomendou um inventário dos Leopards e sugeriu que outros países que os possuem comecem a fazer preparativos para o caso de a Alemanha autorizar a transferência.

Mais tarde é melhor do que nunca, mas não há nenhuma razão, nenhuma desculpa, para adiar. Porque a Rússia está prestes a tornar a guerra na Ucrânia ainda mais mortífera. A janela para evitar uma guerra muito mais longa pode fechar-se em breve.

CNN / Frida Ghitis