Nem França, nem Itália, nem sequer a Alemanha. A ajuda que permitiu a resistência inicial da Ucrânia à Rússia veio de onde menos se esperava: da Bulgária, um dos países mais pobres da Europa e um Estado tido como pró-russo ao longo de vários anos.

A ajuda chegou logo nas primeiras semanas de guerra em forma de combustível e munições, mantimentos essenciais para fazer face à feroz entrada russa em território ucraniano, que se fez em praticamente toda a zona de fronteira.

A revelação foi feita numa entrevista ao jornal alemão Die Welt, que juntou testemunhos dos ex-primeiro-ministro e ministro das Finanças da Bulgária, Kiril Petkov e Assen Vassilev, respetivamente, e do ainda ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba.

Apesar de oficialmente recusarem todos os pedidos de ajuda, os búlgaros enviaram cerca de 30% das munições utilizadas por Kiev na fase inicial da guerra. “Kiril Petkov mostrou a sua integridade e vou estar sempre grato pela utilização das suas capacidades políticas para encontrar uma solução”, afirmou Dmytro Kuleba, referindo-se ao homem que liderava o governo búlgaro à altura.

“Decidiu estar do lado certo da história e ajudar-nos a defender-nos de um inimigo muito mais forte”, acrescentou.

O governo liderado por Kiril Petkov teve de agir de forma que não se percebesse o que realmente se passava. Tudo porque na Bulgária existem várias fações partidárias pró-Rússia que poderiam colocar em causa a ajuda caso soubessem dela. Mais oficial foi a demissão do ministro da Defesa, que se recusou a classificar a agressão russa como invasão e um ato de guerra.

Mas o então primeiro-ministro não foi só contra a oposição. Foi também contra a população. A julgar pelas sondagens feitas à altura, mais de 70% dos búlgaros eram contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia, motivados pelo medo de poderem ser arrastados para o conflito, uma vez que o país está apenas a 200 quilómetros da Ucrânia, mais concretamente da região de Odessa.

Dmytro Kuleba esteve na Bulgária a 19 de abril (Valentina Petrova/AP)

A ajuda começou quando a guerra não tinha chegado ao seu segundo mês, a meio de abril. Seguiu-se a uma visita de Dmytro Kuleba a Sófia, capital da Bulgária, numa altura em que a Ucrânia tinha conseguido afastar as tropas russas de Kiev, mas continuava a ter dificuldades para manter a sua defesa em várias outras áreas, nomeadamente nas regiões de Donetsk e Lugansk. Ao país ainda não chegavam as várias armas ocidentais, pelo que munições com calibre soviético eram essenciais, uma vez que essas eram as armas existentes no arsenal ucraniano. E a Bulgária tinha essas munições.

“Sabíamos que a Bulgária tinha grandes quantidades das munições que precisávamos, então fui enviado para tentar obter os materiais necessários”, contou Dmytro Kuleba, falando num assunto de “vida ou de morte”. Mesmo perante uma situação interna que “não era fácil”, Kiril Petkov garantiu que faria “tudo o que estivesse ao alcance”.

NATO como intermediária (e um segredo ainda maior)

Para manter a face oficial no país a Bulgária não podia fazer os envios de armas de forma direta. Em vez disso utilizou intermediários, incluindo países da NATO, enquanto mantinha todas as ligações com países como Polónia, Roménia e Hungria, que fazem fronteira terrestre com a Ucrânia e por onde, ainda hoje, chegam os vários mantimentos recebidos por Kiev do Ocidente. Muitos desses envios búlgaros terão sido pagos pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

Mais secreta ainda foi a operação de envio de combustível, que também decorreu por via de intermediários internacionais. Alguns deles mostraram-se céticos, uma vez que grande parte do gasóleo e da gasolina enviados provinham de petróleo produzido por uma refinaria controlada pela empresa russa Lukoil, perto da cidade de Burgas, no Mar Negro.

“Camiões e tanques eram enviados regularmente para a Ucrânia via Roménia, e em alguns casos o combustível era carregado em comboios”, contou Assen Vassilev, garantindo que “a Bulgária tornou-se um dos maiores fornecedores de combustível da Ucrânia”, chegando mesmo a exportar cerca de metade da produção realizada em Burgas. Exportações essas que chegaram em “tempos críticos”, segundo Dmytro Kuleba.

Guerra na Ucrânia assombra eleições na Bulgária. Em cima da mesa também está uma escolha entre o Ocidente e a Rússia (Visar Kryeziu/AP)

A reação russa e a resposta americana

A Rússia acabou por perceber a operação montada, reagindo com o lançamento de ciberataques, ações de espionagem ou até cortes nos gasodutos a uma Bulgária altamente dependente logo a 27 de abril. Isso custou a expulsão de 70 diplomatas russos de Sófia.

A Bulgária entrou então numa grave crise energética que foi solucionada pelo envio de dois grandes tanques norte-americanos. Uma mensagem que Washington entendeu ser necessária como um “sinal político de toda a Europa de que há sempre uma forma de sair da dependência da Rússia”.

O governo de Kiril Petkov acabou por cair em junho depois da aprovação de uma moção de censura. Aí já o resto do Ocidente ajudava diretamente a Ucrânia. Quanto à Bulgária, só em dezembro foi aprovada uma resolução oficial para permitir o envio de armas à Ucrânia.

A situação energética também foi controlada, com Sófia a assumir o controlo total da Lukoil no seu território, ao mesmo tempo que pensa na importação de petróleo junto de outros países.

Kiril Petkov e Assem Vassilev, que têm como objetivo combater a corrupção com o partido “Continuamos a Mudança”, vão voltar a tentar ganhar eleições esta primavera. Seja qual for o resultado, o ex-primeiro-ministro acredita na possibilidade de um mundo sem a “dependência ou medo” da Rússia. Tal como em setembro, espera-se que as eleições deste ano sejam fortemente marcadas pela guerra na Ucrânia, nomeadamente pela possível influência de Moscovo junto do eleitorado.

António Guimarães