Dia decisivo para a Ucrânia (mas também para a União Europeia): vem aí um delicado confronto político - TVI

Dia decisivo para a Ucrânia (mas também para a União Europeia): vem aí um delicado confronto político

  • CNN
  • Luke McGee
  • 1 fev, 08:00
Viktor Orbán com Ursula von der Leyen (Geert Vanden Wijngaert/AP)

Os líderes dos 27 Estados-Membros da União Europeia (UE) vão reunir-se em Bruxelas esta quinta-feira e tentar desbloquear o financiamento de 50 mil milhões de euros para a Ucrânia, bloqueado pela Hungria em dezembro, numa cimeira que acontece num momento decisivo da guerra.

O fracasso de um acordo representaria um rude golpe para a Ucrânia, numa altura em que as forças ucranianas se debatem no campo de batalha com um novo ataque russo e em que a ajuda militar dos Estados Unidos se esgotou no meio de uma batalha em curso em Washington D. C. sobre o futuro financiamento de Kiev.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, diz que não se opõe ao financiamento europeu para a Ucrânia, mas insiste que o dinheiro não deve sair do orçamento da UE. Na terça-feira, o responsável disse que também achava que o valor de 50 mil milhões de euros era demasiado elevado e reiterou a sua exigência de que qualquer acordo de financiamento seja revisto todos os anos. Os outros 26 líderes opõem-se a estas exigências.

Os críticos de Orbán referem que a UE está atualmente a reter dinheiro da Hungria por esta ter violado os requisitos do Estado de direito do bloco - valores fundamentais consagrados nos tratados comunitários. Suspeita-se que o primeiro-ministro húngaro está a usar o seu veto aos fundos para a Ucrânia para forçar Bruxelas a desbloquear esse dinheiro para a Hungria. Orbán e os membros do seu governo têm negado repetidamente que exista qualquer ligação entre as duas questões ou que tenham violado as regras da UE.

Se a Hungria continuar a bloquear os 50 mil milhões de euros, é possível que os outros 26 Estados-Membros procurem um acordo alternativo fora das estruturas da UE.

Fontes de Bruxelas disseram à CNN que o mais provável é que cada um dos governo envie dinheiro diretamente para a Ucrânia, em vez de o fazerem através da UE. Segundo as mesmas fontes, esta opção é menos desejável, uma vez que será mais dispendiosa e tornará mais difícil coordenar a forma como o dinheiro é gasto com os atuais programas da UE na Ucrânia.

Há outras sugestões de que a UE poderia gerar receitas para a Ucrânia a partir dos ativos russos congelados no bloco, uma solução há muito discutida, mas que nem todos os Estados-membros veem com bons olhos.

Antes da cimeira, a Hungria acusou Bruxelas de chantagem, depois de uma notícia do Financial Times ter afirmado que os funcionários da UE estavam a elaborar propostas sobre como atingir a economia húngara como castigo por bloquear os planos de financiamento. Budapeste garante também que foram enviadas propostas a Bruxelas relativamente ao dinheiro para a Ucrânia.

"Bruxelas está a usar a chantagem contra a Hungria como se não houvesse amanhã, apesar de termos proposto um compromisso", escreveu Balázs Orbán, diretor político do primeiro-ministro húngaro, no X, juntamente com uma imagem do artigo do FT.

"Bruxelas delineou uma estratégia para atacar explicitamente as fraquezas económicas da Hungria, pôr em perigo a sua moeda e provocar um colapso na confiança dos investidores, numa tentativa de prejudicar o 'emprego e o crescimento', se Budapeste se recusar a levantar o seu veto à ajuda a Kiev", acrescentou o responsável.

O FT afirma que um documento a que teve acesso descrevia que a falta de acordo sobre o pacote de medidas para a Ucrânia levaria provavelmente à retenção de fundos da UE na Hungria, o que "poderia rapidamente desencadear um novo aumento do custo de financiamento do défice público e uma queda da moeda".

Um alto funcionário da UE disse à CNN que o documento citado no artigo do FT "não define qualquer plano específico relacionado com o QFP (orçamento da UE) e o Mecanismo Ucrânia, nem define qualquer plano relacionado com a Hungria".

A maioria dos diplomatas está otimista quanto à possibilidade de se chegar a algum tipo de acordo durante a cimeira de dois dias, quer a Hungria concorde ou não. Vários diplomatas disseram à CNN que acreditam que a Hungria acabará por ser persuadida, com base no facto de, até agora, ter concordado com a maioria das iniciativas da UE e da NATO para a Ucrânia.

E tem-no feito apesar da conhecida proximidade entre o primeiro-ministro húngaro e o presidente russo Vladimir Putin, mesmo que Orbán tenha feito comentários públicos pró-russos que levantaram dúvidas nos últimos dois anos.

A cimeira e a decisão sobre os fundos surgem num momento extremamente importante do esforço de guerra na Ucrânia. São frequentes as notícias de que a guerra está a chegar a um impasse e que os soldados e dirigentes ucranianos estão exaustos. Os responsáveis europeus pela segurança afirmam que a Ucrânia está, de um modo geral, a superar a Rússia no campo de batalha, mas que a vitória exigirá o apoio dos aliados ocidentais até ao fim.

Há também receios de que a Ucrânia esteja a descer na agenda do Ocidente. Esta tem sido uma preocupação desde o ataque do Hamas a Israel no ano passado e tem sido exacerbada pelo conflito crescente no Médio Oriente.

Para além das distrações tangíveis, Kiev e os seus aliados estão também perfeitamente conscientes das mudanças políticas que poderão ocorrer durante o próximo ano, decisivo pelas várias eleições que aí vêm, incluindo as Europeias, nas quais se perspetiva que se junte o maior grupo de sempre de deputados de extrema-direita no poder legislativo da UE.

A opinião da direita europeia não é, obviamente, uniforme, mas há um grande número de políticos de direita que são contra o financiamento da Ucrânia e, nalguns casos, são muito pró-Rússia. As sondagens atuais preveem que a direita terá os números necessários para atuar como um bloco no Parlamento, o que poderá tornar muito difícil a aprovação de legislação.

A Ucrânia também está a descer na lista de assuntos que interessam aos cidadãos europeus. No início da guerra, a opinião pública europeia era relativamente sólida no seu apoio à Ucrânia e assim permaneceu durante muito tempo. No entanto, de acordo com um estudo do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, publicado este ano, o conflito está agora a ficar para trás em relação a questões como a economia, as alterações climáticas e a imigração.

Para além da Europa, existem também grandes preocupações sobre o que uma segunda presidência de Donald Trump significaria para a Ucrânia e para a segurança europeia no seu conjunto.

A retórica de Trump durante o seu primeiro mandato levou os responsáveis da UE e da NATO a falarem mais seriamente sobre a necessidade de a Europa se tornar mais autossuficiente em matéria de defesa e segurança. No entanto, a Europa não fez grandes progressos na sua estratégia de defesa a longo prazo.

Isto pode tornar muito difícil o envio de dinheiro e armas para a Ucrânia durante muito mais tempo para os países que estão a tentar ativamente reforçar as suas próprias forças.

É claro que também há receios de que Trump, que foi visto como um candidato mais favorável a Putin durante a sua última presidência, tente mediar uma negociação que acabe por custar à Ucrânia.

À medida que a crise ucraniana se aproxima dos dois anos, a sua gestão está a tornar-se cada vez mais difícil para a Europa. Por um lado, o cansaço está a levantar questões sobre a viabilidade de um apoio sem fim. Por outro lado, as consequências de a Ucrânia perder a guerra podem ser inaceitáveis para o resto da Europa.

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