"É calmo, quente, bonito e não há guerra." Viúvas e órfãos ucranianos encontram consolo no luto em Portugal - TVI

"É calmo, quente, bonito e não há guerra." Viúvas e órfãos ucranianos encontram consolo no luto em Portugal

  • Helena Lins
  • Guilherme Agostinho (repórter de imagem) e José Santos (editor de imagem)
  • 6 jun, 08:00

Durante duas semanas, mães e filhos ucranianos trocam as sirenes, as ausências e a espera, por uma casa em Ourém, praia, museus, futebol e silêncio. Não são férias como as outras. É uma pausa breve para crianças que perderam os pais na guerra e para mulheres que ainda vivem entre o luto, a burocracia e um país a tentar continuar

Os pais de Timur e Iehor morreram nos primeiros meses da guerra da Rússia contra a Ucrânia. “Eu tinha seis anos, ele não sobreviveu para me ver entrar na primeira classe”, conta Timur, numa calma controlada que acaba por ceder às lágrimas. Respira fundo. A mãe abraça-o. “Está tudo bem.”

Iehor tinha três anos. “Quase não se lembra do pai”, conta a mãe, que o ajuda a recompor as poucas memórias. Há uma, porém, que não precisou de ser ensinada. “O meu pai amava-me.”

Iehor conversa com a CNN Portugal. Imagem CNN Portugal 

“O meu marido morreu em 2022. Ainda está desaparecido, não o enterrámos e eu sei que não o vamos enterrar porque está no lado ocupado”, recorda Alina.

Os dois homens, pais e maridos, morreram na região de Donetsk, território ucraniano ocupado pela Rússia. Fazem parte dos milhares de baixas de uma guerra cujos números o governo ucraniano — e o russo — continuam a não revelar. Por isso, está também por precisar o número de viúvas e órfãos. Mas o impacto já se começa a sentir na Ucrânia. Também por isso, Timur e Iehor estão agora em Portugal.

Fazem parte do segundo grupo de cerca de 30 mães e crianças que a associação portuguesa HELP UAPT trouxe até Ourém. Segundo o vice-presidente da associação, foram selecionadas de uma lista de espera com mais de três mil famílias. Partiram de Dnipro, a cerca de 100 quilómetros da linha da frente, e de Kiev, para uma viagem de 20 horas de autocarro — o espaço aéreo ucraniano está encerrado a voos comerciais desde o início da guerra — até Varsóvia, na Polónia. Daí seguiram de avião para Lisboa. Depois, ainda houve a estrada até Ourém.

Delegação da Associação HELP UAPT com o vice-ministro dos Assuntos dos Veteranos da Ucrânia, Ruslan Prykhodko. Imagem CNN Portugal 

No Centro de Reabilitação Fénix, criado pela HELP UAPT no antigo seminário dominicano de Aldeia Nova, são recebidos por trabalhadores e voluntários da associação, muitos deles parte da diáspora ucraniana em Portugal.

“Eu gostaria de agradecer em especial aos rapazes que jogaram futebol com as nossas crianças e lhes proporcionaram muita alegria. Como estas crianças perderam os pais, não têm atenção masculina, apenas a mãe”, agradece Anna, que viajou com o filho Illia.

Illia na viagem de autocarro de Dnipro para Varsóvia. Imagem CNN Portugal

Durante cerca de duas semanas, recebem reabilitação psicológica e emocional, alternada com momentos de lazer: praia, museus, visitas culturais, turismo, dias em que o corpo e a cabeça podem repousar noutro país. “É um dia de passeio, cultura, e um dia de tratamento no centro. Nós temos uma psicóloga ucraniana que fala português e faz a tradução do tratamento junto com a psicóloga que vem do grupo, nomeada pelas Forças Armadas da Ucrânia”, explica Ângelo Neto, vice-presidente da HELP UAPT.

A história destas mães e destas crianças cabe numa casa em Ourém, mas começa muito antes e é muito maior. A população ucraniana, que antes da guerra ultrapassava os 40 milhões, caiu para 29 milhões no território controlado pelo governo ucraniano. Os problemas demográficos não nasceram com a invasão, nem são exclusivos do país, sublinha Ella Libanova, diretora do Instituto de Demografia e Estudos Sociais Ptoukha. “Começaram na década de 1960, quando a taxa de natalidade desceu abaixo do nível que permite a reprodução de gerações.”

É uma situação que se repete em praticamente toda a Europa, “mas aí, primeiro, é compensada por uma taxa de mortalidade mais baixa e pelo fluxo migratório da população”, explica Libanova.

O país enfrenta o envelhecimento da população, combinado com uma elevada mortalidade masculina. “A diferença na esperança de vida entre homens e mulheres na Ucrânia é superior a 10 anos. Esta é uma característica de todo o espaço pós-soviético. Mesmo nos países bálticos, a situação é igual. Não consigo explicar, mas já faço isto há muitos anos e vejo que se mantém. O mais provável é o estilo de vida”, acrescenta Libanova, sentada à secretária, atolada de folhas e dossiers, no escritório no centro de Kiev.

Ella Libanova, diretora do Instituto de Demografia e Estudos Sociais Ptoukha em entrevista à CNN Portugal. Imagem CNN Portugal

A outra razão é a migração, acentuada pela guerra. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, quase seis milhões de ucranianos vivem como refugiados no estrangeiro.

“Se falarmos de migrantes da guerra — não gosto do termo ‘refugiados’ porque os nossos não são refugiados, vivem lá sob uma lei diferente —, portanto, se estivermos a falar de migrantes da guerra, mais de 70% das mulheres ucranianas migrantes da guerra com 25 anos ou mais têm formação superior. E este é, certamente, um número muito grande”, explica Libanova. “Isto está relacionado com o facto de quase todos os que partiram serem moradores de cidades. As pessoas do campo não foram para o estrangeiro. Além disso, saíram principalmente de Kharkiv, Kyiv, ou seja, de cidades com um nível de educação mais elevado.”

A guerra agravou uma situação demográfica que já era difícil. E mudou também a organização do trabalho. “Os empresários não têm opção, são obrigados a contratar mulheres para cargos que eram anteriormente ocupados por homens. E tenho a certeza de que, depois de os homens regressarem da frente de batalha, as mulheres não lhes darão esses empregos de volta. Este é outro desafio que nos espera”, antecipa Libanova.

Tem pressa. A seguir, tem uma reunião com a primeira-ministra da Ucrânia, para lhe apresentar algumas ideias para a recuperação do país.

“Haverá um Plano Marshall ou algo do género. O problema é que, na primeira fase de implementação desse plano, seremos obrigados a restaurar a infraestrutura porque, sem isso, será difícil fazer alguma coisa”, continua Libanova. Vê aí outro problema — a escassez de mão de obra — e uma oportunidade: “Espero que possamos atrair pessoas do Bangladesh e da Índia.”

Enquanto a guerra continua, já no quinto ano de combates, o governo ucraniano tenta mitigar a situação e reabilitar os 1,8 milhões de veteranos de guerra e respetivas famílias.

Viagem de autocarro para Varsóvia, mãe e filho. Imagem CNN Portugal

“Se queremos ganhar a guerra contra a Federação Russa, precisamos de uma economia forte. Mas nenhuma economia pode ser forte sem pessoas que trabalhem e paguem impostos”, sustenta Ruslan Prykhodko, vice-ministro dos Assuntos dos Veteranos da Ucrânia, no seu escritório da rua principal de Kiev.

“É por isso que o nosso principal objetivo agora é reintegrar os veteranos e as suas famílias na vida ativa. Oferecemos muitos programas diferentes. O primeiro bloco de recuperação inclui reabilitação física e psicológica. O segundo é o da assistência social. O outro é um bloco de programas educativos. E o passo seguinte é o emprego e o empreendedorismo para os veteranos”, enumera.

Numa reunião com a delegação da HELP UAPT, em Kiev, Prykhodko reconhece que há apenas cerca de oito milhões de participantes ativos na economia ucraniana. Ângelo Neto oferece as instalações e os serviços do Centro de Reabilitação Fénix para receber combatentes feridos ucranianos em reabilitação física e psicológica.

A associação acolheu o primeiro grupo em junho de 2024, mas desde então tem sido difícil repetir a iniciativa, sobretudo por razões burocráticas e de logística. Enquanto tenta ultrapassar essas barreiras, concentra-se no apoio a viúvas e órfãos de militares.

Viagem de avião de Varsóvia para Lisboa. Imagem CNN Portugal
Grupo de viúvas e órfãos de militares ucranianos no aeroporto de Varsóvia. Imagem CNN Portugal

A iniciativa funciona em parceria com as autoridades nacionais e regionais da Ucrânia e com a associação Friends of Ukraine Foundation.

“Isto é muito valioso para os ucranianos neste momento e sentimos que não estamos sozinhos. Não se trata apenas de assistência militar, mas também de apoio humanitário, que, neste caso, se manifesta na oferta de férias às nossas famílias”, sublinha Ivan Vashchenko, vice-governador da região de Chernihiv, a 70 quilómetros da fronteira com a Rússia, de onde partiu, em janeiro deste ano, o primeiro grupo de mães e crianças para Portugal.

“Foi como um conto de fadas em Portugal”, recorda uma das mães.

O regresso custou mais do que esperava. “Foi muito difícil regressar a toda esta realidade, a esta vida quotidiana da Ucrânia. Não há um silêncio constante. Lá é calmo. É quente, bonito e não há guerra”, acrescenta outra mãe.

Homenagem aos soldados mortos na Praça da Independência, em Kiev. Imagem CNN Portugal

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