O principal fornecedor de armas à Ucrânia fechou a porta a Kiev: pode a Polónia condicionar o futuro da guerra? - TVI

O principal fornecedor de armas à Ucrânia fechou a porta a Kiev: pode a Polónia condicionar o futuro da guerra?

Polónia exibe as suas armas na maior parada militar das últimas décadas (AP)

A Polónia foi o país que mais armamento pesado deu à Ucrânia e agora decidiu colocar um ponto final na transferência de armamento. Será este o fim de “uma aliança quase sagrada” no leste da Europa?

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Se as palavras de Zelensky durante a Assembleia Geral das Nações Unidas sobre “o thriller dos cereais” foram poucas, a resposta da Polónia foi muito mais. Um dia depois do presidente ucraniano criticar “os amigos da Europa”, o primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki anunciou que o seu país, um dos maiores fornecedores de armamento a Kiev, vai travar a entrega de equipamento militar. O impacto nas operações militares ucranianas pode ser profundo.

“Não se pode ser amigo em algumas coisas e depois abandona-se noutras. Mas, a verdade, é que entre Estados há interesses e mais nada. Realpolitik pura e dura. O presidente Zelensky começa a sentir-se desapoiado”, considera o major-general Agostinho Costa.

Sem esse apoio dificilmente a Ucrânia teria conseguido algumas das suas principais vitórias durante o primeiro ano da guerra. Até a própria contraofensiva poderia estar em causa. Do ponto de vista militar poucos países ajudaram tanto a Ucrânia como a Polónia. Desde o primeiro dia do conflito, Varsóvia não teve outra resposta senão a do apoio total a Kiev. E este apoio refletiu-se com particular intensidade na área militar. 

De aviões aos mais avançados carros de combate, passando pelas cruciais armas antiaéreas portáteis que impossibilitam que a Rússia utilize a sua força aérea sem restrições. De acordo com um relatório produzido pelo parlamento britânico, a Polónia é, de longe, o principal fornecedor de armamento militar pesado à Ucrânia. Só em carros de combate, Varsóvia enviou 200 T-72 de fabrico soviético, bem como 60 veículos PT-91 e liderou o envio dos modernos carros de combate Leopard 2A ainda a tempo do início da contraofensiva ucraniana. Um travão no apoio militar polaco pode impactar o futuro da guerra.

“Estes países têm sido tremendamente solidários, mas não admitem que a Ucrânia se intrometa nas suas políticas económicas. Estão a chamar a Ucrânia à realidade. Eles também estão a fazer um esforço, mas que esse esforço só é possível se a Ucrânia não lhe impuser a eles um sacrifício”, explica o professor José Filipe Pinto.

Carro de combate Leopard 2 (EPA)

A Polónia serve também de centro logístico para o fornecimento de armamento à Ucrânia. Muito do equipamento militar que chega ao país entra no aeroporto de Rzeszów, perto da fronteira com a Ucrânia. Mesmo quando a ajuda militar que chega à Ucrânia não é fabricada na Polónia, a probabilidade de que tenha passado lá é grande. Além do mais, desde junho de 2023, mês em que se iniciou a contraofensiva ucraniana, foi estabelecido neste país um centro de manutenção para os carros de combate Leopard 2, que repara estes blindados alemães que estão a ter um papel crucial nas manobras de combate ucranianas a sul do país.

A ausência de apoio militar polaco pode ter um impacto muito grande noutra arma que Kiev vê como fundamental para o seu esforço de guerra: o F-16. Desde o início da contraofensiva que a chefia militar ucraniana tem alertado que um dos motivos para o avanço mais lento do que o esperado era a ausência de superioridade aérea local. Para resolver esse problema, os Estados Unidos da América aprovaram a exportação dos aviões F-16. Mas poucos países os têm em quantidade suficiente para os doarem à Ucrânia. Um desses países é a Polónia, que conta com 48 aeronaves ao seu dispor, embora nem todos estejam prontos para o combate.

Quem o pilotou descreve-o como “possivelmente um dos melhores aviões de sempre” para o combate entre aeronaves. “Muito capazes para adquirir superioridade aérea”, transportam um conjunto de armas que pode causar sérios problemas ao exército russo.

“Apesar de complexas, são fáceis de voar. Conseguem operar de dia, de noite, dentro de nuvens e fora de nuvens, conseguindo atacar com precisão alvos no solo ou destruir aeronaves inimigas. São aeronaves muito evoluídas e altamente modernizadas. Um dos melhores aviões de sempre para fazer o chamado dogfight”, descreveu à CNN Portugal o coronel Nuno Monteiro da Silva, antigo piloto do F-16MLU e antigo Comandante da Esquadra 301 “Jaguares” da Força Aérea Portuguesa (FAP).

F-16 em manobras de policiamento na fronteira da NATO com a Rússia (AP Images)

Mas, para a contraofensiva ucraniana, nenhuma área é tão fundamental como a capacidade de produção de munições de 155mm, um dos calibres mais pesados dos exércitos da NATO. Estima-se que a Ucrânia utilize seis mil munições por dia e, desde o início de 2022, que o governo polaco tem incentivado através da encomenda de centenas de milhares de munições várias empresas a aumentar a sua capacidade de produção. O consórcio polaco PGZ planeia aumentar a sua produção anual de munições para 200 mil. Atualmente, esta capacidade de produção é absolutamente fundamental para o esforço de guerra na Ucrânia, particularmente numa altura em que vários analistas temem que a Coreia do Norte possa passar a fornecer armamento à Rússia.

Varsóvia não só tem apoiado Kiev com o envio de munições, como também tem feito um esforço para entregar o mais depressa possível os canhões para as disparar. Um destes sistemas diferenciou-se pela sua capacidade de fazer a diferença. É o Krab, uma espécie de carro de combate que possui um canhão capaz de atingir alvos a 40 quilómetros, fora do raio de distância das armas russas. Além disso, por ser um canhão montado em lagartas, pode rapidamente disparar contra um alvo e esconder-se logo de seguida.

Apesar deste “irritante” entre os dois países, os especialistas acreditam que a Polónia vai continuar a apoiar a Ucrânia. O país faz mesmo parte do grupo restrito que dirige o Internacional Donor Coordination Centre, criado em abril de 2022 e que conta com 30 países, juntamente com os Estados Unidos da América e com o Reino Unido. Este grupo serve para “assegurar o apoio militar da comunidade internacional” à Ucrânia e que este seja o mais “coordenado e eficaz” possível.

“Os interesses da Polónia jogam-se na Ucrânia. A Polónia não está a fazer nenhum favor à Ucrânia. O discurso do presidente Duda não perspetiva paz e os polacos pretendem uma solução militar para o conflito”, analisa o major-general Agostinho Costa.

Mas o motivo por detrás da decisão de suspender o envio de armamento para a Ucrânia pode estar mais ligado ao desconforto com a situação interna na Polónia do que com qualquer mal-estar que exista para com o governo de Zelensky. A verdade é que aproximam-se as eleições polacas, que têm data marcada para 15 de outubro, e o partido nacionalista que governa o país pode querer manter o apoio dos agricultores, que são fortemente afetados pela entrada de cereais ucranianos baratos.

“A Polónia vai ter eleições e precisa de responder perante os seus eleitores. É uma decisão muito nacionalista, mas que abre uma brecha com a Ucrânia. É difícil dizer que à segunda e terça-feira temos de apoiar a Ucrânia e depois à quarta-feira queremos barrar as suas exportações”, explica o professor e especialista em Direito Internacional Francisco Pereira Coutinho, que considera que esta decisão pode vir a minar a “quase sagrada aliança” que os dois países tinham.

As declarações do primeiro-ministro polaco causaram um impacto de tal forma grande que, horas mais tarde, o porta-voz do executivo veio a público sublinhar que o travão na exportação acontece para que a própria Polónia tenha capacidade de repor as suas reservas e cumprir o plano de expansão do seu exército que o tornará, caso seja cumprido, no maior da Europa.

Polónia exibe as suas armas na maior parada militar das últimas décadas (AP)

Do outro lado da fronteira, reina o silêncio. Apesar de parecer ainda existir bastante apoio entre a opinião pública dos países que apoiam o esforço de guerra da Ucrânia, Zelensky não parece estar disposto a intensificar a troca de acusações com um dos seus principais aliados, particularmente numa altura em que a contraofensiva ainda não teve o resultado esperado. Para os especialistas, o líder ucraniano está a sentir que o apoio lhe pode fugir e vai continuar a tentar mobilizar o Ocidente através do medo de que, se a Ucrânia cair, a seguir quem se segue é a Europa.

“Cada metro que se avança é graças a um custo de vidas muito elevado. Há países no Oidente que começam a perceber que a guerra é longa e não têm condições para continuar este apoio e começam a pensar numa solução política. Zelensky está a tentar que haja uma mobilização contínua destes países, para que não haja um afrouxamento desse apoio. É uma mobilização pelo medo”, reforça José Filipe Pinto.

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