Os países da NATO reuniram-se na base aérea de Ramstein, na Alemanha, para discutir uma decisão que pode mudar o curso da guerra na Ucrânia: o envio de carros de combate Leopard 2 para Kiev.

Apesar de muitas pressões vindas de diferentes países, nomeadamente da Polónia e dos Bálticos, a Alemanha continua a resistir dar luz verde para o envio destes veículos militares.

Dinamarca, Letónia, Estónia e Polónia têm carros de combate Leopard 2 e querem enviá-los, mas não podem. Porquê? Porque as leis de exportação em vigor na Alemanha vinculam os outros países a uma autorização de Berlim para a utilização de equipamento militar, como é o caso. Na prática, a lei germânica visa evitar que a sua produção militar possa acabar nas mãos de terceiros.

Mas este cenário é diferente. Dos cerca de dois mil Leopard 2 existentes em todo o mundo, pensa-se que 300 seriam absolutamente decisivos para o curso da guerra na Ucrânia, uma vez que se trata de veículos altamente sofisticados com maior capacidade de artilharia e um maior alcance relativamente aos que estão no terreno atualmente.

A resistência alemã deve-se, em grande parte, a uma tentativa de não escalar a guerra, sendo certo que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, tem acenado por várias vezes com uma ameaça de guerra nuclear caso haja mais envolvimento de países da NATO no conflito.

De acordo com a CNN, Berlim espera também por Washington, até porque o pacote de ajuda em que seriam incluídos os Leopard 2 também prevê o envio de carros de combate M1 Abrams, de fabrico norte-americano. Acontece que os Estados Unidos também ainda não concordaram com esse envio, havendo relatos de que a carga não está pronta.

"Colocaram-nos entre a espada e a parede", afirmou um militar norte-americano em declarações à CNN, criticando a Alemanha por estar a pedir carro por carro, em vez de considerar as outras ofertas feitas pelos Estados Unidos.

As críticas a Berlim

Sem prejuízo de não haver autorização, o ministro da Defesa da Ucrânia já anunciou que as suas tropas vão começar a ser treinadas para este equipamento na Polónia. Oleksii Reznikov, que também esteve presente em Ramstein, garantiu que o país vai começar o treino e vai "mais além".

Apesar do impasse, o governante ucraniano tem uma visão otimista sobre o assunto: “Vejo isto de uma forma otimista. O primeiro passo foi dado, vamos começar as missões de treino com os Leopard 2.”

E esse passo só foi possível graças à posição da Polónia, o país que mais tem pressionado a Alemanha a desbloquear o pacote de ajuda. O ministro polaco dos Negócios Estrangeiros, Paweł Jabłoński, afirmou, numa entrevista a uma rádio do país, que os alemães têm um "problema fundamental" com o plano. Já o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki acusou mesmo os germânicos de serem os "menos proativos" no combate à Rússia.

Alemães e ucranianos protestam em Berlim contra impasse gerado pela Alemanha (Maja Hitij/Getty Images)

A Letónia também voltou a pressionar a Alemanha para o envio de tanques Leopard para a Ucrânia. Através de um tweet, o ministro dos Negócios Estrangeiros, em conjunto com Estónia e Lituânia, pede à Alemanha que forneça os Leopard à Ucrânia "agora”.

“Isto é preciso para travar a agressão russa, ajudar a Ucrânia e restaurar a paz na Europa rapidamente. A Alemanha, como potência líder na Europa, tem responsabilidade especial neste assunto”, afirmou Edgars Rinkevics.

Já Dinamarca ou Finlândia fizeram declarações no mesmo sentido, sendo que Copenhaga aprovou mesmo o envio de 19 canhões howitzers para Kiev, no que foi visto como um claro sinal à Alemanha.

A Alemanha continua a negar a criação de um impasse, com o chanceler do país a afirmar que o seu governo "fornece continuadamente a Ucrânia com largas quantidades de armas em consulta próxima com os seus parceiros". Olaf Scholz lembrou, a partir de Davos, que só Berlim já deu mais de 12 mil milhões de euros para a causa ucraniana, garantindo que vai "continuar a apoiar a Ucrânia enquanto for necessário".

Menos convencidos das boas intenções do governo alemão estão os próprios alemães. Na noite desta sexta-feira várias pessoas saíram à rua em Berlim, a capital, para protestarem pelo impasse criado. Os germânicos juntaram-se a refugiados ucranianos em frente à chancelaria com vários pedidos para a libertação dos Leopard 2, num protesto que teve como mote a frase "libertem os leopardos".

Existem 13 países que já têm este tipo de carros de combate, sendo que nesse grupo se encontra Portugal, que tem ao seu dispor 37 Leopard 2, de acordo com o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o almirante Silva Ribeiro. Portugal não esclarece, porém, quantos carros pode enviar para a Ucrânia.

António Guimarães