"Quando a Ucrânia recebeu helicópteros franceses, os pilotos não precisaram de ir estudar francês": então para quê aprender "inglês técnico" para ter os F-16 (adiados de novo)? - TVI

"Quando a Ucrânia recebeu helicópteros franceses, os pilotos não precisaram de ir estudar francês": então para quê aprender "inglês técnico" para ter os F-16 (adiados de novo)?

Caças F-16 norte-americanos em exercício da NATO na Europa (Foto: Ronald Wittek/EPA)

Aviões de combate F-16 para os ucranianos só mesmo para o ano - é oficial. Mas há quem desvalorize: "Se fossem os modernos F-35, a coisa mudava de figura - são furtivos. Os F-16 deixam uma pegada no radar"

Foi em jeito de lamento que o porta-voz da Força Aérea ucraniana admitiu que não será possível “defender a Ucrânia com F-16” durante o outono e o inverno, uma vez que os seus pilotos estão obrigados a estudar “inglês técnico” durante quatro meses antes de iniciar o curso. É mais uma deceção para a Ucrânia, que se vê privada de um elemento que poderia permitir defender melhor o céu ucraniano.

“Podia dar jeito para a contraofensiva, mas não é um game changer. Esta guerra é uma guerra diferente. A Rússia tem o melhor sistema de defesa antiaérea, com um sistema de várias camadas. Se fossem os modernos F-35, a coisa mudava de figura, que são aviões furtivos. Os F-16 não são, têm uma pegada no radar. Estes aviões não vão fazer a diferença”, sublinha o major-general Agostinho Costa.

O que resta da Força Aérea ucraniana é composto por equipamento de origem soviética, que tem sido habilmente adaptado para operar diversas armas ocidentais, como os mísseis de longo alcance Stormshadow ou mísseis antiradar norte-americanos. A diferença dos F-16, em termos práticos, não seria muita, argumenta Agostinho Costa. Para o general, o "verdadeiro gamechanger" para a Ucrânia seria o envio de helicópteros Apache, que dariam aos ucranianos capacidades de que eles não dispõem.

Questionado sobre qual o motivo que leva a este constante adiamento, o especialista em assuntos militares culpa a falta de vontade do Ocidente em enviar estes equipamentos e compara a situação com casos anteriores, onde não se obrigou os pilotos a tantos requisitos de formação.

“Quando não há vontade as coisas não acontecem. Quando a Ucrânia recebeu helicópteros franceses, os pilotos não precisaram de ir estudar francês. Há perceção no Pentágono de que os aviões não vão fazer a diferença. A Ucrânia tem recebido estas notícias com alguma apreensão e com algum desagrado legítimo”, aponta o major-general Agostinho Costa.

O treino dos pilotos: como, quando, onde

Isto tudo acontece numa altura em que a contraofensiva ucraniana, em curso desde 4 de junho, continua a tentar quebrar a linha defensiva russa a sul do país. O sucesso da operação tem sido limitado e Kiev esperava contar com esta nova arma para poder fazer frente ao seu inimigo. A somar os quatro meses do estudo de inglês técnico, os pilotos escolhidos para o plano de treino têm pela frente mais seis meses para aprender pilotar o avião.

“A Ucrânia explicou à opinião pública ocidental que não se fazem omeletes sem ovos. E que, sem a defesa do espaço aéreo ucraniano, é muito difícil que a contraofensiva ucraniana tenha sucesso nos últimos tempos. Sem o armamento conveniente, não tem capacidade levar a cabo uma contraofensiva ou a defesa eficaz do território ucraniano”, explica a especialista em Assuntos Internacionais Diana Soller.

E foi esse motivo que levou o porta-voz da Força Aérea ucraniana a vir a público expressar a frustração com mais um adiamento do prazo. Para Diana Soller, este gesto “em forma de lamento” deriva do facto de a Ucrânia saber que “nada pode fazer” em relação a esta situação que vai fazer com que a guerra se prolongue no tempo.

Holanda e Dinamarca lideram uma coligação de onze países que concordaram em treinar pilotos da Ucrânia, mas não foi detalhado como, quando e onde este treino será realizado. Os Estados Unidos, que deram luz verde aos seus aliados para exportar caças para a Ucrânia, ofereceram-se para participar apenas na fase de treino. "As expectativas não são grandes e os americanos sabem-no", defende o major-general Agostinho Costa.

O envio destas aeronaves bastante complexas criaria várias questões difíceis de resolver. Ao longo do conflito, a Rússia esforçou-se para destruir os aeroportos ucranianos para que estes não fossem capazes de servir a sua frota. Porém, a Força Aérea ucraniana é composta por aviões maioritariamente Su-24 e Su-25, bastante resistentes e capazes de levantar voo nos mais diferentes cenários. O F-16 é uma aeronave que coloca alguns problemas.

“[Enviar F-16] levanta um conjunto de problemas difícil de resolver. Não levantam de qualquer pista. A tomada de ar do motor é muito baixa, junto ao chão. O que faz que seja um avião muito sensível. Os Su-24 e 25 conseguem ser operados de caminhos de terra batida e pistas improvisadas em autoestradas. Eles não podem fazer isso com o F-16”, conclui Agostinho Costa.

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