“Deixei de ter energia para levar uma conversa além do ‘como estás?’. Começamos com um 'olá, como estás?' e não consigo ir além desse diálogo. Não tenho energia para o fazer." É assim que Vlad (como quis ser chamado, sem apelido), de 30 anos, descreve ao Washington Post como têm sido os encontros que consegue marcar através de aplicações para esse efeito. 

Como refere numa breve descrição no seu perfil, Vlad é um dos combatentes que lutam na chamada "zona cinzenta" do campo de batalha em Kharkiv, onde ocorrem as operações de combate mais perigosas. Nas pequenas pausas que lhe concedem, Vlad procura nas aplicações de encontros uma fuga da realidade, onde impera a morte e a destruição. Mas, como revela ao jornal, o trauma da guerra impossibilita-o de ir além da frente de combate, mesmo que o encontro esteja a acontecer num café ali ao lado.

Kyrylo Dorolenko, um tenente do exército ucraniano, de 36 anos, procura fazer o mesmo nas suas horas vagas, tal como o fazem os seus soldados. "Quando estás ali, estás constantemente debaixo de fogo e há adrenalina, há stress, há amigos feridos e concusões. Vês morte, todo o tipo de morte, e não consegues lidar com isso durante muito tempo", conta o jovem tenente, justificando assim a necessidade de procurar alguém que, mais do que uma relação, o leve para outra realidade.

"Mas não temos tempo para mudar a nossa realidade e ser gentis, emocionais e afetuosos”, lamenta.

O psicoterapeuta ucraniano Alexander Kolomiychuk admite ao Washington Post que, no início da invasão, a “ousada resistência ucraniana” pode ter criado “uma espécie de emoção” na população que motivava à demonstração de afetos. Mas essa emoção rapidamente desapareceu e foi substituída pelo “peso psicológico dos inúmeros traumas da guerra”. 

“É um verdadeiro trauma, e trauma e romance não combinam”, analisa Kolomiychuk. “Quando as pessoas estão a lutar para sobreviver, não pensam em intimidade, em sexo, porque essas são atividades de prazer, recreação. Na guerra, não há tempo para prazer", explica.

Mas a verdade é que, tal como acontece no terreno, a resistência ucraniana tem conquistado também outras esferas, como estas das relações interpessoais e amorosas. É que, mesmo no meio da destruição, muitos ucranianos têm encontrado forma de criar novas relações e até casar, como aconteceu com Genia Aslanian, de 32 anos, residente em Kiev. Em 2019, a jovem separou-se do então namorado, Anton, que queria mudar-se para o Canadá para frequentar uma escola de aviação. Porém, quando a guerra começou Anton regressou à Ucrânia para se juntar ao exército ucraniano e os dois reencontraram-se, até que decidiram dar o nó meses depois.

“Voltámos a ficar juntos por causa da guerra”, resumiu Aslanian.

Mas também há casos em que a distância que separa o casal pode ser motivo de ansiedade, como é o caso de Yaroslav Sachko, um soldado de 43 anos que combate na linha da frente de Sloviansk e que já não vê a mulher e os filhos desde que a família se mudou para a Alemanha no início da guerra. Sachko admite ao Washington Post que está preocupado com a forma como a mulher - e ele próprio - irá reagir quando se reencontrarem, tanto ao nível dos “aspetos físicos, como dos aspetos não físicos”.

“É como se eu nunca a tivesse conhecido, como se nunca a tivesse visto. É quase como conhecer uma desconhecida. Vamos ter de aprender a conhecermo-nos novamente”, afirma.

Beatriz Céu