Sanções, crise energética e preços que não vão descer. Qual o preço de um ano de guerra na Europa? - TVI

Sanções, crise energética e preços que não vão descer. Qual o preço de um ano de guerra na Europa?

Preços, inflação, reduflação, estagflação, economia, legumes, cabaz, supermercado. Foto: rtur Widak/NurPhoto via Getty Images

Mesmo estando longe do campo de batalha, em apenas um ano a invasão russa da Ucrânia mudou as nossas vidas. A inflação e os juros subiram, o poder de compra caiu - e segue-se agora um período de incerteza. Mas, olhando para trás, que balanço podemos fazer? O professor e investigador Ricardo Ferraz ajuda a entender o que é que a guerra na Ucrânia mudou na economia

Ainda a Rússia não tinha lançado o primeiro míssil em direção à Ucrânia e já a Comissão Europeia tinha divulgado as primeiras sanções económicas contra o Kremlin, numa tentativa de impedir Putin de prosseguir com uma agressão militar. O conflito escalou na mesma e, em apenas um ano, seguiram-se nove pacotes de sanções do Ocidente.

A 24 de fevereiro de 2023 a invasão continua, mas, ao contrário da ideia que o Kremlin tem vindo a passar, a economia da Rússia tem saído bastante penalizada e enfraquecida desta guerra. Mas não só.

Ocidente vs Rússia: quem saiu mais a perder?

Se olharmos para as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) antes da guerra, previa-se um crescimento económico em 2022 para a Rússia de perto de 3%. Contudo, de acordo com o boletim do FMI de janeiro, a economia russa acabou por contrair 2,2%. “Isso significará uma queda do PIB real em cerca dos 30 mil milhões de dólares. E estamos a falar apenas no primeiro ano de guerra”, afirma o economista Ricardo Ferraz.

Além disso, a Rússia também regista atualmente uma elevada taxa de inflação, “à volta dos 14%”, detalha o economista - o que significa que também está a ser fortemente penalizada em termos de aumentos de preços. As transações comerciais também caíram, apesar do Kremlin as ter tentado mitigar, virando-se para outros parceiros.

“Claro que a Rússia tem tentado aqui, de alguma forma, minimizar o impacto económico das sanções do Ocidente. Sabemos que adotou diversas medidas: por exemplo, intensificou as relações com a China e com a Índia, que representam um terço da população mundial", indica Ricardo Ferraz. "Mas os dados que existem disponíveis demonstram que as exportações e importações também caíram”, revela. 

E se não fosse isso, o economista acredita que o impacto na Rússia seria significativamente maior. “Ainda assim, à luz dos indicadores económicos conhecidos, creio que, de alguma forma, é um absurdo dizer que não tem existido efeitos visíveis na Rússia das sanções”. 

Para este ano, o FMI espera para a Rússia entre em estagnação, mas há outras instituições internacionais que acreditam que a economia russa vai mesmo contrair. 

A Rússia está a ser penalizada economicamente. Claro que isso não foi suficiente até agora ainda para travar a guerra, não é?", questiona Ricardo Ferraz.

Sanções aplicadas pela União Europeia à Rússia. (Fonte: Conselho Europeu, 2023)

Já quanto à zona euro, as estimativas recentes do FMI apontam para que as economias tenham crescido no ano passado perto de 2% - tanto a média União Europeia como a zona euro. E os próprios Estados Unidos e a China também cresceram. Mas houve muito que mudou.

O preço da guerra na Europa

Se compararmos o impacto económico, este tem penalizado muito mais a Rússia do que a Europa - mas a Europa, naturalmente, também tem sofrido economicamente. A braços com uma crise energética - espoletada pelas sanções e cortes nos gasodutos - a Europa tem procurado novas formas de obtenção de energia que vinha da Rússia: além de acumular reservas suficientes de gás para não ter tanta necessidade de importar energia russa, também houve uma tentativa de recorrer a outros mercados.

E para a Europa, o preço da guerra no Ocidente é a subida dos preços dos bens e, consequentemente, a perda do poder de compra, logo, de bem-estar. "Portanto, os euros que eu tinha passaram a comprar menos bens", adverte o economista, indicando que a inflação na Zona Euro e na União Europeia chegou a ultrapassar os 10%, mas está a abrandar. O mesmo reflete-se em Portugal.

"A inflação é efetivamente um problema porque é sinónimo de empobrecimento. Portanto, em Portugal, todas as semanas, a Comunicação Social tem vindo a relatar que há várias instituições que têm denunciado, precisamente, um aumento dos pedidos de ajuda por parte das pessoas", relembra Ricardo Ferraz.

No início de 2023, a DECO calculou que um cabaz de alimentos essenciais custa atualmente cerca de 224 euros, mais de 20% do que há precisamente um ano atrás. "Isto para uma família com menores rendimentos é verdadeiramente dramático".

Para controlar a inflação, o Banco Central Europeu (BCE) fez "aquilo que vem nos manuais": aumentar as taxas de juros de referência. Foi a primeira vez em mais de dez anos. "O objetivo é que a taxa de inflação fique nos 2%, mas isso não significa que os preços voltem a ser aqueles que estavam antes da guerra", adverte o economista.

As projeções que existem, mesmo as mais otimistas, não indicam que haverá uma queda dos preços, portanto ficaremos com os preços mais elevados", alerta Ricardo Ferraz.

As medidas do BCE reduzem as pressões inflacionistas, mas por outro lado, têm efeitos recessivos na atividade económica e no desemprego. As taxas de juro, por exemplo, as Euribor já estão em níveis muito elevados “e as pessoas estão hoje a pagar imenso pelos seus créditos à habitação, quando comparado com há pouco tempo". E, portanto, por essa via, o rendimento disponível das pessoas acaba também por encurtar.

"Em suma, estamos a ficar muito pior e isso já está a ter consequências de alguma forma, como vemos, na subida da taxa de desemprego", aponta o economista.

Então, o que esperar para o futuro?

As mais recentes projeções da Comissão Europeia para os vários países da UE - e, portanto, para Portugal - anteveem um crescimento para 2023 de cerca de 1% e abaixo de 1% para a zona euro. Estima-se ainda que a taxa de inflação, tanto em Portugal como na média da zona euro, fique ligeiramente superior a 5%, ainda assim mais baixa do que em 2022.

Mas Ricardo Ferraz adverte que, se olharmos para as projeções de inverno da Comissão Europeia de há um ano - portanto, antes da guerra - esperava-se para Portugal um crescimento de 2,6%, "quase o triplo daquilo que espera agora", e para a zona euro de 2,7% e, ao mesmo tempo, que a taxa de inflação de Portugal ficaria ligeiramente superior a 1% e a da zona euro ficaria perto de 2%".

Na prática, a guerra veio penalizar toda a gente", conclui Ricardo Ferraz.

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro de 2022 pela Rússia na Ucrânia causou até agora a fuga de mais de 14 milhões de pessoas – 6,5 milhões de deslocados internos e mais de oito milhões para países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Neste momento, pelo menos 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento.

A invasão russa – justificada pelo presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de “desnazificar” e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia - foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com envio de armamento para a Ucrânia e imposição à Rússia de sanções políticas e económicas.

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