As autoridades russas afirmam que a Ucrânia lançou um "ataque sem precedentes" em São Petersburgo e arredores, enquanto a cidade acolhe o último dia do fórum económico anual da Rússia.
As defesas antiaéreas russas abateram durante a noite 376 drones ucranianos em 14 regiões russas. Mais de 140 drones foram abatidos sobre a região de Leningrado, disse o governador Aleksandr Drozdenko. Ao mesmo tempo, o autarca da cidade, Alexander Beglov, pedia aos residentes que permanecessem nas suas casas pela primeira vez desde o início da guerra, há mais de quatro anos.
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, confirmou que as suas forças atingiram arsenais russos e uma base naval no que chamou de resposta justa aos ataques russos. Isto acontece um dia depois de Vladimir Putin ter dito no fórum que não fazia sentido reunir-se com Volodymyr Zelensky, que tinha pedido negociações diretas para o fim da guerra.
O comandante de uma das unidades ucranianas envolvidas nos ataques com drones disse à BBC que era "muito fácil" atingir alvos dentro da Rússia. "Voamos na Rússia como se fosse o nosso próprio território. Quase nenhuma resistência, não é difícil atingir um alvo", disse Yevhen Karas, comandante do 413.º regimento de Ataque das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia.
Os habitantes de São Petersburgo relataram ter visto nuvens de fumo a subir da área em redor da Fábrica Naval de Kronstadt, um estaleiro naval russo localizado a aproximadamente 30 quilómetros de São Petersburgo. O governador Drozdenko afirmou que os ataques da Ucrânia provocaram um incêndio numa instalação militar não especificada e que os residentes foram evacuados. Disse ainda que os edifícios sofreram danos "insignificantes".
O exército ucraniano confirmou ter atingido um depósito e um terminal petrolífero na região Leningrado. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) reportou um incêndio e detonações secundárias no 15º Arsenal da Marinha Russa, na região de Leninegrado, onde estão armazenados mísseis e munições.
Zelensky disse que os drones do seu país percorreram uma distância de 1.000 km até à região de São Petersburgo, visando "arsenais da marinha inimiga e uma base em Kronstadt", onde está localizado principal posto avançado da Frota do Báltico da Marinha Russa. Segundo Zelensky, um depósito de petróleo a 500 km de distância, na região sul de Krasnodar, também foi atingido como parte das "sanções de longo alcance" da Ucrânia. O ataque provocou um incêndio no depósito de petróleo na cidade de Ust-Labinsk, na região de Krasnodar, no sul da Rússia, que foi entretanto extinto.
O presidente ucraniano disse ainda que é "tempo de acabar com esta guerra", mas acusou o líder russo de querer "continuar a lutar".
It is time to end this war. But Russia’s ruler wants to keep fighting. That is why Ukrainian sanctions against this aggression are working. Last night, our drones covered a distance of about 1,000 kilometers to the St. Petersburg region – to the enemy navy’s arsenals and a base… pic.twitter.com/IkdN8UE3QD
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) June 6, 2026
Após os ataques relatados, todas as entradas e saídas de Kronstadt foram brevemente proibida, anunciaram as autoridades de transporte locais. "Todas estas instalações militares apoiam as operações do grupo naval russo no Mar Báltico", afirmou o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU).
Na região de Luhansk, no leste da Ucrânia, ocupada pela Rússia, as autoridades instaladas por Moscovo afirmam ter suspendido o serviço de autocarros em duas autoestradas após uma campanha de ataques com drones ucranianos contra a logística russa. Pediram aos moradores locais que não as utilizassem "por motivos de segurança". A administração russa proibiu também o serviço de comboios suburbanos e o transporte de grupos de crianças dentro de Luhansk. Putin afirmou que a Rússia controla totalmente a chamada "República Popular de Luhansk".
Estes últimos ataques seguem-se aos ataques ucranianos nos arredores de São Petersburgo, poucos dias antes do início do principal fórum económico de Putin. O importante fórum, concebido para atrair investimento estrangeiro para o país, reuniu milhares de convidados de 130 países, incluindo uma discreta delegação dos EUA – a primeira em muitos anos.
Na sua carta aberta a Putin, na quinta-feira, Zelensky apelou a um cessar-fogo e a negociações diretas com o líder russo para pôr fim à guerra, que começou com a invasão em grande escala da Rússia em 2022. Escreveu que seria "errado simplesmente esperar" que o conflito voltasse a chamar a atenção dos EUA. O presidente Donald Trump tem estado envolvido nos esforços para mediar o fim do conflito, mas a guerra com o Irão ganhou recentemente prioridade.
No discurso no fórum económico, na sexta-feira, Putin recusou o pedido de reunião com Zelensky e reiterou a sua posição de que uma trégua apenas permitiria à Ucrânia reorganizar-se. Afirmou que só terminaria a guerra quando os objetivos da Rússia fossem alcançados.
A posição de longa data da Rússia é que a Ucrânia deve retirar-se das regiões de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, que ocupa em grande parte, e abandonar os esforços para aderir à NATO. Mas a Ucrânia recusa-se a ceder qualquer território, argumentando que as concessões a Moscovo a encorajariam a invadir novamente no futuro.