Em Portugal vai nascer, no próximo ano, um novo hotel a cada cinco dias. É estimada a abertura de 75 unidades, num total de 5964 novos quartos para a oferta nacional. São números que revelam um crescimento face ao período pré-pandemia. Os dados foram compilados pela consultora Cushman & Wakefield para a CNN Portugal/TVI.

“Seguramente que será um dos anos em que vamos observar mais hotéis a abrir em Portugal, de norte a sul do país. Não é normal crescer 75 hotéis todos os anos. De facto, é um número extraordinário”, traça Gonçalo Garcia, diretor da área de hotelaria da Cushman & Wakefield em Portugal.

Mas a análise dos números permite ir mais longe e perceber como o negócio continua a crescer em Portugal, apesar do contexto de pandemia que o perturbou. Em cinco anos, de 2019 a 2023, o país alcança praticamente 300 novos hotéis e 20 mil quartos. Números exatos: 292 unidades e 19.333 quartos.

Recuperação pós-pandemia

O setor do turismo olha para 2023 como o ano de recuperação plena após a pandemia. E os números das inaugurações confirmam-no. Em 2019, foram 63 aberturas. Em 2023, serão 75: um retrato que ultrapassa a média dos últimos anos.

O melhor desempenho imediatamente anterior tinha sido em 2021, com 70 inaugurações, um número que reflete o fato de muitas delas terem sido adiadas para esse ano devido à maior intensidade dos efeitos da pandemia em 2020. Neste ano, assim como em 2022, abriram cerca de 40 hotéis.

Segundo dados da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), cedidos à CNN Portugal/TVI, existem hoje em Portugal praticamente 1800 hotéis: 1572 unidades de uma a cinco estrelas, 43 pousadas e 153 hotéis-apartamentos.

Norte, a região recordista

Apesar de ser a principal porta de entrada em Portugal, Lisboa deixou de ser a região onde abrem mais hotéis. Segundo os dados da Cushman & Wakefield, nos últimos anos tem sido sucessivamente superada pela região Norte. Se na primeira, em 2023, vão inaugurar 17 unidades, na segunda serão 25.

Segundo Gonçalo Garcia, é uma questão de “ponto de partida”. “Estando a região norte a crescer a dois dígitos, e tendo uma base de oferta mais pequena, é normal que o interesse de novos projetos esteja mais focado aí”.

Mas as novas tendências na procura, ditadas também pela pandemia, vão-se fazendo sentindo também no panorama nacional, com a procura por unidades com mais espaço envolvente e em contacto próximo com a natureza. Desde 2019 é notória uma tendência de subida na região do Alentejo, que deverá ter 11 novas unidades no próximo ano, com 650 quartos. O mesmo se dá nos Açores, com seis inaugurações, que representam praticamente o dobro de anos anteriores.

Algarve (cinco inaugurações), Centro (nove inaugurações) e Lisboa têm mantido um nível de aberturas estável nestes cinco anos em análise. Já a Madeira tem-se confirmado como a região com o menor número de aberturas: em 2023, serão duas.

Lisboa saturada?

Há muito que a discussão tem lugar: há hotéis a mais em Lisboa? O turismo está a expulsar os residentes? Para quem vive do investimento em hotelaria, a resposta é clara: a capital ainda tem espaço para mais turistas (e, por consequência, para mais novos hotéis).

“Lisboa não está saturada demais", argumenta Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé, explicando que o que "é preciso fazer é criar, dentro da cidade, outros polos de atração".

"Em vez de concentrar tudo no centro histórico ou na zona de Belém, que são dois polos carregados, é desenvolver novos polos turísticos, museológicos, de compras e de comércio. Por exemplo, nas Avenidas Novas. Isso faz com que os turistas se dispersem melhor pelo território da cidade e se evite essa perceção de concentração”, explica Gonçalo Rebelo de Almeida, do grupo Vila Galé, que vai inaugurar quatro hotéis em 2023 – mas nenhum em Lisboa.

E, apesar do preço por metro quadrado também em hotelaria ser superior em Lisboa, face a outras regiões do país, o interesse internacional na região da capital mantém-se. Gonçalo Garcia realça que “há um interesse crescente dos turistas em conhecer mais e melhor desta região. E isso, diz, “cria oportunidade para novos produtos surgirem, de forma descentralizada, na grande Lisboa”.

Mas Lisboa, cidade, ainda aguenta um hotel de grandes dimensões? “Dois ou três…”, responde o especialista da área imobiliária.

As grandes inaugurações

Uma das aberturas mais esperadas em 2023 é, precisamente, a do hotel com o maior número de quartos. Em causa está uma unidade de cinco estrelas, do grupo Meliá, que dará a Lisboa mais 240 quartos e um centro de convenções, nas proximidades do Marquês de Pombal. A abertura, que foi sendo sucessivamente adiada, está agora prevista para a segunda metade do ano. Mas Lisboa tem outra presença no ‘top 5’ dos hotéis a abrir no próximo ano: o Moov Lisboa Oriente, de duas estrelas, com 180 quartos.

A segunda maior abertura terá lugar em Vila Nova de Gaia, com uma unidade de três estrelas do grupo B&B Hotels, com 210 quartos. Mas, da outra margem do Douro, está prevista outra inauguração de peso: o Renaissance Park Hotel, da cadeia Marriott, com quatro estrelas e 168 quartos.

É também com a marca Marriott que o Algarve verá nascer, em Lagos, uma unidade de cinco estrelas com 201 quartos, segundo a análise feita pela Cushman & Wakefield.

Cautela, sim. Mas os interesses de investimento não abrandam

Na hotelaria, há um antes e um depois da pandemia. A covid-19 deixou muitos negócios à beira da asfixia. Mas a retoma da atividade, em 2021 e 2022, tem dado esperança aos empresários. A recuperação é agora praticamente total. Plena, esperam, só em 2023.

Mas, na hora de decidir onde abrir agora um novo hotel, há diferenças face ao que acontecia antes da pandemia? “Não encontramos grandes diferenças, para além de que houve, neste período, algumas dificuldades logísticas, alguma fase de crescimento dos preços das matérias-primas e alguma dificuldade de contratação de recursos humanos”, aponta Gonçalo Rebelo de Almeida. Mas nada que coloque em causa os planos de expansão do segundo maior grupo hoteleiro português.

Porque o investimento em hotelaria é feito com tempo. De uma forma geral, a abertura de um hotel é reflexo de uma decisão tomada três ou quatro anos antes.

“O investidor é muito racional. E o critério de decisão de investimento, independentemente dos ciclos que vivamos, regem-se praticamente pelos mesmos requisitos”, atesta Gonçalo Garcia, da consultora Cushman & Wakefield. Nesta fase, dado o contexto de instabilidade económica, admite, os investidores estão mais cautelosos. Mas as demonstrações de interesse para investir na hotelaria portuguesa continuam a chegar em força: “sobretudo pelas regiões que estão mais consolidadas: Lisboa, Porto e Algarve. Não notamos um arrefecimento na vontade dos investidores de comprarem produtos turísticos".

Ainda somos um destino barato? E a inflação?

Na altura de decidir onde passar férias, o preço é sempre um fator determinante. E, para muitos, Portugal tem sido escolha precisamente por ser uma opção acessível, quando comparado com os principais rivais europeus. Mas há muito que o país se quer livrar desse selo de destino barato.

“Já não somos propriamente baratos, já não estamos a ser promovidos como o país das pechinchas. Mas continuamos a ser bastante competitivos no panorama europeu”, insiste Gonçalo Rebelo de Almeida. Foi o reconhecimento de Portugal como “um produto de qualidade e com um valor atrativo”, diz, que ajudou à rápida recuperação neste período pós-pandemia.

“Nós até somos, comparativamente com outros destinos, um destino caro. E ainda bem. É sinal que estamos a qualificar a procura. Por conseguinte, aumentamos a capacidade de despender não só no alojamento mas em todas as atividades do turismo. É algo benéfico para a nossa economia”, reforça Gonçalo Garcia.

O contexto de inflação crescente gera preocupações para quem está prestes a abrir hotéis mas também para quem já os tem a funcionar há largos anos. Com um menor poder de compra, o orçamento dirige-se ao essencial. Raramente as férias e as viagens entram nessa categoria de prioridades.

“É um otimismo com apreensão. A tendência será de recuperação. A maior dúvida pode estar na Alemanha, que se fala que está em recessão. Mas acredito que teremos uma recuperação total em 2023”, face aos níveis pré-pandemia, sintetiza Gonçalo Rebelo de Almeida.

Wilson Ledo