Os níveis de humidade, por estes dias, têm sido mais elevados. O fenómeno, em parte, explica-se pela maior quantidade de vapor de água na atmosfera, mas também pelo facto de as temperaturas terem estado acima do que é habitual para os meses de dezembro e janeiro.

O cenário já é conhecido em muitas habitações portuguesas. Segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), uma em cada cinco crianças portuguesas é exposta a humidade e bolor em casa

Nas habitações e garagens, a humidade pode espelhar-se com gotas nas paredes, tetos, azulejos e nas janelas ou com manchas escuras (cuja cor pode ir do verde ao preto), que já sugere um agravamento da mesma. 

Nestes casos em que há manchas, está-se perante o bolor - o mesmo que mofo, designação comum dada a várias espécies de fungos que se desenvolvem em ambientes com matéria orgânica húmida. O bolor é facilmente detetável, não apenas a olho nu, mas também pelo odor, pois acaba por ter um cheiro bastante característico, muitas vezes associado ao mofo. 

Entre os fungos que podem estar na origem do bolor está o Stachybotrys chartarum, conhecido também como bolor negro.

A arquiteta Tânia Martins diz que “há casas que têm mais tendência a ter humidade, não necessariamente pelo tipo de construção nem pela idade do edifício, mas porque não têm qualquer tipo de isolamento”, e isso faz com que “a casa seja mais húmida”. No fundo, diz, depende também “da localidade e da temperatura lá fora”.

Tipos de humidade

Humidade por condensação, comum nas casas de banho e na cozinha, seja após o banho ou quando se está a cozinhar, por exemplo. Mas pode acontecer em qualquer zona da casa. Segundo Francisco Pacheco, técnico de diagnóstico da Murprotec, quando está em causa este tipo de humidade “aparece bolor na casa, os vidros ficam embaciados e as roupas com um odor a mofo”.

A humidade por condensação dá-se quando há uma elevada humidade do ar interior, uma baixa temperatura das paredes/superfícies e uma má ventilação. 

Humidade por condensação (Cortesia: Murprotec)

Humidade por infiltração, aquela que surge quando a água entra diretamente em contacto com a parede ou teto. Tal acontece em várias situações: quando há uma fissura na parede; quando há alguma folga junto à janela; quando um cano está danificado e permite a fuga de água; quando as chuvas escorrem pelo telhado onde há uma telha ou ardósia em falta.

Humidade por infiltração (DR)

Humidade por capilaridade ascendente, a que, comummente, surge debaixo para cima na parede como resultado do mau isolamento e impermeabilidade durante a construção. O técnico de diagnóstico da Murprotec diz que é mais comum em moradias e apartamentos “ao nível do solo, é o chamado salitre, que aparece acima do rodapé e a tinta começa a estalar”.

Humidade por capilaridade ascendente (Cortesia: Murprotec)

Humidade por estanquicidade abaixo do nível dos solos, comum em caves e garagens “com infiltrações laterais da água”, diz o técnico. “A água a entra ou as tintas começam a descascar e a ganhar efervescências”, continua destacando que estas infiltrações laterais podem ocorrer também em casas.

Humidade por infiltração lateral (Cortesia: Murprotec)

Cuidados a ter em cada tipo de humidade

Cada tipo de humidade requer uma forma de tratamento, mas Francisco Pacheco destaca que tudo começa na construção, caso contrário, será sempre necessário andar a correr atrás do prejuízo.

No caso da humidade por condenação, “a ventilação mecânica” é a estratégia mais eficaz, diz o técnico de diagnóstico, embora defenda que evitar essa mesma condensação deva ser a prioridade: “tudo o que seja acima de 50-55% de humidade relativa no ar é um ambiente propenso para o mofo, por isso, temos de evitar o excesso de humidade ambiental dentro de casa”. 

O uso de desumidificadores é uma mais-valia (apesar de estarem a esgotar em Portugal), sobretudo em situações de humidade por condensação ou quando, por exemplo, se precisa de secar a roupa dentro de casa em dias de níveis de humidade mais elevada. Em zonas mais críticas, como a casa de banho, pode também ser uma ajuda recorrer a absorvedores de humidade, que facilmente se compram em híper e supermercados.

Embora o bolor causado pela humidade apareça sobretudo nas paredes e nos tetos, também os objetos podem ficar à mercê, sobretudo se forem feitos de determinados materiais ou se estiverem guardados em locais pouco ou nada ventilados. 

Materiais de celulose, telhas usadas em telhados, madeira e produtos de madeira, são, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, “especialmente favoráveis para o crescimento de alguns tipos de bolor”. Mas não são os únicos: “outros materiais como pó, tintas, papel de parede, materiais de isolamento, pladur, alcatifas, tecido e estofos” também “ajudam ao desenvolvimento do bolor” e, por isso, devem ser devidamente cuidados.

Na presença de bolores, comuns na humidade por condensação, alerta Francisco Pacheco, o uso de água com lixívia deve ser evitado - este ‘truque’ deve ser apenas usado em superfícies sem sinais de bolores, pois “é um fungo vivo que se alimente de água, alimenta-se de esporas, e ao limpar estou a disseminar o fungo vivo”.

Nos casos de humidade por capilaridade ascendente, a solução passa, por exemplo, pela aplicação de “injeções de resinas epóxicas para evitar a subida da água”. A eletro-osmose ajuda a diminuir a humidade neste tipo de casos, embora não a elimine totalmente.

Quando em causa está humidade por estanquicidade abaixo do nível dos solos, pode ser necessário fazer “barramentos, criar impermeabilidade”. No caso de infiltrações, o técnico de diagnóstico da Murprotec afirma que a solução passa sempre por detetar a origem da fuga, se um cano ou uma telha, por exemplo, e consertar.

Daniela Costa Teixeira