Iara Lobo é, aos 17 anos, uma das grandes promessas do futebol feminino. A prova disso é que já representa o Barcelona, que é quase unanimemente considerado o melhor clube do mundo no futebol feminino. Em dez anos, aliás, foi do Ferreiras, no Algarve, ao Sporting e do Sporting ao Barcelona.
Agora a viver em La Masia, a lateral direita olha para trás e, em conversa com o Maisfutebol, fala do muito que passou, dos cinco anos no Sporting, que diz terem sido fundamentais na evolução dela, e dos primeiros tempos em Barcelona, que foram difíceis e a aproximaram de Kika Nazareth.
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Que importância teve o Sporting na chegada ao Barcelona?
Posso dizer que os cinco anos no Sporting foram os melhores da minha vida. O Sporting foi a peça mais importante para eu ter vindo para o Barcelona, para eu começar na seleção, para tudo. Foi no Sporting que me ajudaram a crescer como jogadora e como pessoa. O ambiente sempre foi muito bom. As pessoas sempre tentaram ao máximo ajudar-me, para que eu conseguisse chegar onde quisesse. Apesar de, na altura, o futebol feminino não ter tantas condições como tem agora, o clube sempre me deu tudo o que podia.
Tem ideia de quando surgiram as primeiras conversas?
Acho que foi na seleção que eles começaram a reparar em mim, mas não tenho a certeza. Na altura, representava o Sporting e era isso que importava.
Na época falou-se de outros clubes interessados. O que a levou a escolher o Barcelona?
Houve vários interessados, mas o que importa é que escolhi o Barcelona. O clube é uma das grandes potências mundiais do futebol feminino, é atualmente o melhor do mundo. A sua formação de jogadoras é incrível e, quando cheguei, pude confirmar que as condições também. O meu objetivo era evoluir como jogadora e como pessoa e, tendo o Barcelona a melhor formação e a melhor equipa do mundo, senti que este era o sítio certo para o fazer.
Quais eram as suas expetativas?
Eu não sou muito uma pessoa de criar expetativas. Vim para aqui com um único e simples objetivo: evoluir. Sabia que ia ser muito difícil, mas vim com a mentalidade de trabalhar e dar o meu melhor para poder chegar onde quero chegar.
E que lugar é esse onde quer chegar?
Eu não tenho pressa no que possa vir, porque sei que vai ser tudo no seu tempo e que todo o meu trabalho vai ter um prémio. Mas claro, o meu objetivo é jogar nos mais altos patamares... para já, quero chegar à equipa A e jogar na Champions. Sinto que estou cada vez mais perto, mas tenho de continuar a trabalhar. Eu sei que vai chegar.
Sente que o nível que está a atingir, conseguiria atingir se tivesse continuado em Portugal?
Acho que seria diferente. Há hábitos que aprendi aqui que provavelmente não teria desenvolvido em Portugal. Lá eu tinha tudo, na medida em que jogava sempre, e eu cheguei cá e não tinha nada. Havia as condições, mas eu não jogava e as coisas não me saíam tão bem. Sinto que, se tivesse ficado, seria uma jogadora diferente da que sou hoje, não melhor nem pior, mas diferente.
O futebol feminino ainda está em desenvolvimento em Portugal. Ir para o estrangeiro era algo em que pensava?
Nunca fui muito de pensar no futuro, eu penso sempre no presente. Claro que o meu sonho era sair de Portugal e ter novas experiências, não por não gostar do futebol em Portugal, mas para me tornar mais experiente. Na altura, o que me importava era estar no clube que representava e o meu amor pelo Sporting era inigualável. Então nunca me passou pela cabeça mudar, até que chegou a hora.
Como foi deixar Portugal?
Foi difícil, passei por uma época complicada no ano passado. A forma de jogo, a forma de ser, a forma de estar, tudo é diferente de Portugal. O processo de adaptação foi difícil, mas é normal, tendo em conta que foi o meu primeiro ano fora do país. Ainda assim, foi o melhor que me podia ter acontecido, porque ajudou-me muito a evoluir.
E como é que foi o processo de integração?
A minha integração foi boa, em relação ao que podia ter sido. Dei-me bem com as minhas colegas e o facto de a língua ser parecida ao português também facilitou.
Já domina o catalão?
No início não entendia nada. Agora já entendo, mas não consigo falar.
Mas se a integração foi fácil, o que tornou este primeiro ano difícil?
O mais difícil foi dentro de campo, por não ter tantos minutos e pelo nível de exigência ser elevado. O tipo de jogo no geral é mais difícil e muito diferente do que estava habituada em Portugal.
Fez essa mudança sozinha ou alguém a acompanhou?
A minha mãe ficou comigo na primeira semana e depois foi-se embora. Eu estou a viver na academia [La Masia] sozinha, rodeada de muitas pessoas, mas na verdade, sem família ou ninguém por perto. No início foi difícil, mas como sou extrovertida, faço amigas facilmente e então esse não foi um dos meus maiores problemas.
Se no Sporting a sua mãe a ia visitar todas as semanas, com que frequência a sua família consegue vir a Barcelona?
A minha família tenta estar presente no máximo de jogos possível. Claro que também tenho irmãos mais novos e nem sempre é fácil virem, por causa da escola e de outras obrigações, mas sempre que podem tentam marcar presença. Ainda assim, a minha mãe vem cá pelo menos uma vez por mês. Sinto sempre a presença deles, mesmo que pela televisão, porque os jogos são transmitidos e sei que tentam sempre ver. E eu acho que isso é das coisas mais importantes que sinto da parte da minha família: o apoio constante e a forma como tentam sempre que eu os sinta perto.
Chega ao Barcelona na mesma época que a portuguesa Kika Nazareth. Ela foi, também, uma fonte de apoio?
Sim, ela quando pode vem sempre para ao pé de mim, porque nós almoçamos no mesmo sítio. No início, ela perguntava-me como estavam a correr as coisas e dizia-me para não baixar a cabeça, que era uma fase difícil e que ela estava a passar pelo mesmo. Senti muito apoio da parte dela e tentei fazer o mesmo, estando também lá para ela.