Às primeiras horas da manhã do dia 13 de novembro, a autoridades da pequena cidade de Moscow, no estado norte-americano do Idaho, eram alertadas para um cenário macabro: quatro estudantes universitários – três raparigas e um rapaz – tinham sido encontrados mortos, com múltiplos ferimentos de arma branca, na casa onde viviam, nos arredores do campus da Universidade de Idaho. Aparentemente, nenhum deles teria qualquer ligação ao alegado homicida, Bryan Kohberger, de 28 anos, que foi detido semanas depois, a 30 de dezembro, acusado de quatro homicídios qualificados.

A polícia parece não ter dúvidas da autoria dos crimes. Para estudante de criminologia, Bryan Kohberger terá mesmo cometido gafes de palmatória. Há gravações de câmaras de videovigilância que colocam o carro do jovem na cena do crime, bem como os registos do próprio telemóvel. Além disso, a polícia conseguiu estabelecer ligação ente vestígios de ADN e o suspeito.

De acordo com a investigação, apesar de anos a estudar procedimentos criminais, o jovem terá deixado um rasto de pistas que levaram a polícia a prendê-lo por perseguir e atacar as suas vítimas. Terá desligado o telemóvel, precisamente na hora e no local do crime, uma atitude que só levantou mais suspeitas. Através do rastreamento do telemóvel, a polícia conseguiu concluir que Kohberger regressou ao local do crime, horas depois dos homicídios.

A polícia está a analisar gravações de vídeo que mostram um carro igual ao de Bryan a passar em frente da casa três vezes naquela noite sem parar. Passou uma quarta vez, próximo das 04:00, parou e assim permaneceu cerca de 16 minutos. Pouco depois, o veículo foi filmado a abandonar o local a alta velocidade. 

Os sobreviventes

Kaylee Gonçalves e Madison Mogen, ambas com 21 anos, foram encontradas na mesma cama, no segundo andar da moradia de três pisos. Eram amigas desde o sexto ano. Xana Kernodle e o namorado, Ethan Chapin, ambos de 20 anos, estavam mortos no quarto, no andar de baixo.

Outros dois jovens terão permanecido na casa, durante e depois do crime. Bethany Funke e Dylan Mortensen sobreviveram ao ataque. Dylan Mortensen ter-se-á mesmo cruzado com o alegado homicida, que estaria de cara tapada, quando este abandonava a casa. Mortensen demorou várias horas a chamar as autoridades.

A família de Kaylee Gonçalves já veio a público defender a jovem sobrevivente. Shanon Gray, a advogada da família de Kaylee Gonçalves, sublinha que Dylan terá ficado petreficada pelo medo, depois de encontrar o assassino. A jurista sublinha que ela “continua a ser uma vítima neste caso”. 

Porquê estas quatro vítimas?

Kaylee Gonçalves ter-se-á queixado a familiares que estaria a ser perseguida por um homem. A polícia procura também esclarecer se seria verdade e se haveria alguma ligação entre o crime e essa alegada perseguição.

A detenção de Bryan Kohberger não veio, aliás, responder a todas as questões. Uma das principais, se não mesmo a mais importante, permanece sem resposta: porquê?

Aparentemente, Bryan Kohberger não teria qualquer ligação com qualquer uma das vítimas. Shanon Gray, a advogada da família de Kaylee Gonçalves, assegura à imprensa norte-americana que “ninguém conhecia este indivíduo”.

De acordo com a investigação, e baseado em dados do telemóvel, o suspeito rondou a casa das vítimas pelo menos 12 vezes entre junho e a noite do crime.

Porquê estas vítimas e porquê este crime, são questões que a polícia ainda não conseguiu responder ou preferiu não revelar as respostas. A detenção de Kohberger parece, aliás, levantar outras questões, que se espera sejam respondidas em tribunal esta semana: quem era o verdadeiro alvo? Bryan Kohberger seria o perseguidor de quem Kaylee Gonçalves se queixou? Porque é que a sobrevivente com quem o homicida se cruzou demorou oito horas a alertar as autoridades?

Mudanças de comportamento

Colegas de faculdade de Bryan Kohberger na Washington State University descrevem-no como sociável e muito falador. Mas há um ponto em que o seu comportamento terá mudado após a noite do crime: sempre que o assunto era os homicídios de Moscow, Bryan ficava subitamente sem assunto e permanecia “completamente silencioso”.

Além da polícia local, mais de 60 agentes do FBI estarão a trabalhar no caso.

Manuela Micael