Paulo Futre nunca escondeu a família: tem dois filhos, um dos quais chegou a jogar no At. Madrid até aos juniores. Gosta de futebol, quis ser jogador e acompanha-o muitas vezes em reportagens.
Já o outro filho, o mais velho, esteve sempre mais distante do espaço mediático.Tirando um ou outro artigo que escreveu na imprensa - e escreveu maravilhosamente bem - pouco se sabia sobre ele, para além de gostar de arte e de não gostar de futebol. Chegou até a ter uma banda de música.
Ora esse outro filho deu este domingo uma entrevista à Marca e contou tudo: é sobredotado. As capacidades intelectuais destacadas foram identificadas quando ainda era criança, aliás.
Hoje é membro da Mensa (a prestigiada associação internacional de sobredotados), fala fluentemente cinco línguas (espanhol, português, inglês, francês, italiano) e também entende finlandês e em esperanto (!), toca vários instrumentos, expõe em galerias de arte que participam na ARCO, é professor convidado em várias univesidades e recebeu o prémio de melhor académico. Para além disso, ainda é empresário e consultor de fundos de investimento.
Como se isso não fosse suficente, ainda apresenta um podcast através do qua entrevista professores de filosofia, de psicologia diferencial e especialistas em inteligência artificial
Filho de um dos maiores ídolos do Atlético de Madrid, Paulo Futre Jr. tem um currículo que não cabe num só campo, nem num só mundo. É como se tivesse nascido para driblar todos os estereótipos que costumam acompanhar as famílias dos futebolistas.
Crescer com um pai lenda… e como sócio de negócios
Desde muito cedo, Paulo Futre Jr. aborrecia-se de morte na escola. Afinal de contas, tudo aquilo era demasiado fácil para ele. Os responsáveis escolares tentavam convencer os pais a fazê-lo avançar de ano, mas a mãe sempre recusou. Dizia que já lhe bastava ser filho de um jogador famoso para ter mais atenção do que devia, não precisava também que se soubesse que era sobredotado.
Então, a partir dos 14 anos, o jovem começou a trocar as aulas ma escola por reuniões com presidentes de clubes e magnatas internacionais. Foi o próprio pai quem o empurrou para os bastidores da indústria do futebol.
«Ele sabia que eu ficava entediado na escola, então escrevia justificações para eu faltar às aulas e levava-me em reuniões pelo mundo. ‘O miúdo saiu esperto, é preciso colocá-lo a jogar’, dizia o meu pai. Inicialmente, era o tradutor dele, mas com o tempo aprendi sobre direito desportivo e passei a conduzir as negociações. Nunca tive férias em agosto, é o mês das contratações. Como curiosidade, o meu pai comentou para a Al-Jazeera durante algum tempo, comentou por exemplo o Euro 2008 e o Mundial 2010. E era eu quem negociava o seu contrato com um tal Nasser Al-Khelaïfi. Passei horas a negociar com ele. Tinha 19 anos. Não há MBA que ensine melhor do que essa experiência.»
Línguas, filosofia e... futebol
Fluente em cinco idiomas e conhecedor de outros dois, toca vários instrumentos, leciona em universidades como a IE Business School e, nas redes sociais, mistura Marco Aurélio [o imperador, não o antigo central do Sporting] com o At. Madrid, dados com Brian May e futebol com filosofia.
Diz que desde criança tem mil passatempos e chegou a aprender esperanto por mera curiosidade.
Questionado sobre de onde vem a inteligência, Paulo Futre Jr. diz que o pai «tem méritos de sobra para concorrer ao Prémio Nobel de Física», brincando que «a velocidade em dribles deveria ser medida em Futres por segundo!»
Mais a sério, diz que o pai também é extraordinariamente inteligente, mas «não é uma pessoa com quem se possa filosofar sobre niilismo mereológico».
«Sempre encarei a vida a partir do pensamento liminar, no qual as disciplinas se cruzam. É nessas interseções que surgem coisas interessantes. Para mim, Marco Aurélio e o Atlético de Madrid são uma união natural. Fico muito feliz que essas minhas publicações nas redes sociais estejam a agradar às pessoas. A ideia é agregar valor, arrancar um sorriso... e fazer pensar um pouco. E sim, não tenha a menor dúvida: Marco Aurélio foi o primeiro colchonero. Por exemplo, quando Simeone diz 'jogo a jogo', não está longe de uma das citações estóicas de Marco Aurélio: 'Não deixe que o futuro o perturbe. Você o enfrentará quando chegar, com a mesma razão que o guia hoje'. Em relação aos dados, sempre me chamou a atenção que, em 90 minutos, um jogador de futebol só toca na bola entre um e três minutos, em média. O resto do tempo é pressão, antecipação, compromisso, etc. O futebol decide-se sem bola. Relaciono isto com Brian May, lendário guitarrista dos Queen. Na sua mítica canção 'Don’t Stop Me Now', ele toca apenas durante 20 segundos... mas que 20 segundos! O compromisso não é protagonismo, cada papel é essencial.»
E a inteligência no futebol?
Questionado sobre se existe inteligência no futebol, Paulo Futre Jr. é perentório: há muito talento intelectual escondido nos relvados. «É importante não confundir cultura com inteligência. Muitos futebolistas vêm de meios humildes, com pouco acesso à educação formal», referiu.
«Mas durante um jogo, tomam decisões complexas em segundos, sob pressão e com coordenação motora precisa. É uma forma muito sofisticada de inteligência.»
O filho de Futre dá alguns exemplos de jogadores que publicamente já se sabe que são extremamente inteligentes.
«Não é por acaso que um jogador como Salah joga xadrez e tem um bom nível para ser amador. Especialmente a modalidade Blitz de partidas rápidas. Afinal, quão diferente é a tomada de decisões rápidas em campo em comparação com a de um tabuleiro? Também temos Akanji, jogador do City, cujo cálculo mental é muito impressionante. Convido-vos a vê-lo nas redes sociais. Além disso, temos grandes intelectuais que também foram grandes atletas. Desde o próprio Platão até o matemático Alan Turing, o escritor Yukio Mishima e o artista plástico Yves Klein, entre muitos outros.»
E há superdotados no futebol?
Paulo Futre Jr. diz que sim e que inclusivamente há algum que é membro da Mensa (a tal associação internacional de superdotados).
«Na verdade, alguns muito conhecidos. Como pista, posso dizer que jogaram - ou jogam - num dos três grandes da Liga Espanhola, mas preferem manter o anonimato por causa dos preconceitos.»
A propósito, o filho de Futre deixa até um conselho a esses jovens jogadores que desconfiam ser também sobredotados.
«Desvendam o mistério. Façam um teste oficial, como o WISC ou o da Mensa. A informação dá-lhe poder; a especulação, por outro lado, só gera ruído e dores de cabeça. Sei que pode ser assustador enfrentar isso, mas é a única forma real de avançar. Seja qual for o resultado, terás informações para te compreender melhor, decidir com mais clareza e encontrar um pouco de paz. A Mensa organiza convocatórias anuais gratuitas para estes testes. Fica atento ao seu site e redes sociais.»
Ele fez o teste e resolveu assumir a condição de sobredotado, que o mantém sempre ligado à corrente, a tentar criar algo, entender alguma coisa ou desafiar-se de alguma forma.
«Tenho pintado cenas em bolas de futebol. Gosto dessa ideia de fundir continente e conteúdo: um diálogo entre arte e futebol que, no fundo, reflete sobre quem eu sou. Estou a unir as minhas inquietações artísticas com as minhas origens.»