A indústria têxtil e do vestuário prepara-se para fechar 2022 com um volume de exportações recorde próximo dos 6.000 milhões de euros, bem acima do máximo alcançado no ano passado (5.419 milhões), mas os empresários do setor estão sem grande vontade de abrir o champanhe para festejar. É que parte desse acréscimo deve-se à subida de preços por efeito da inflação e as novas encomendas estão a travar desde o verão, com os clientes receosos de uma recessão.

Em declarações ao ECO, o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) salienta que um crescimento de dois dígitos nas vendas ao exterior “é sempre impactante”, mas, se até julho, o crescimento neste indicador estava próximo dos 18% face ao nível pré-pandemia (2019), a partir daí “houve uma forte desaceleração”. Mário Jorge Machado atesta que nesta segunda fase do ano – “normalmente são meses bons para a exportação”, recordou – as compras à indústria amainaram o ritmo “devido ao efeito da guerra e antecipação de alguma recessão que vai existir na Europa, nomeadamente na Alemanha”.

Nesta segunda metade do ano, que normalmente são meses bons para a exportação, tivemos um arrefecimento grande nas encomendas devido ao efeito da guerra e antecipação de alguma recessão que vai existir na Europa", Mário Jorge Machado, Presidente da ATP (têxtil e vestuário).

Este “arrefecimento grande”, com reflexo nas encomendas feitas na segunda metade do ano, já era sentido pelos empresários no último inquérito realizado pela ATP, no pós-férias, evidenciando “o índice de confiança a cair drasticamente”. A percentagem de empresas com a carteira de encomendas a encolher triplicou para 60%, face à auscultação realizada no início do ano. E no que toca às expectativas para os resultados, 80% antecipou uma redução das margens de lucro devido ao aumento dos custos de produção (sobretudo na energia, matérias-primas e salários) que não conseguiram passar aos clientes.

“Claramente, os empresários estão a antecipar uma diminuição da procura e um próximo ano difícil”, resume Mário Jorge Machado. “Já se começa a ver uma retração nas encomendas – e nós [indústria] estamos uma estação à frente. A Europa é o nosso maior cliente e o facto de a Alemanha travar a fundo tem implicações nas encomendas. Não conseguimos fazer stock porque trabalhamos moda, que muda de estação para estação. Não podemos trabalhar para acumular stock, senão depois não se vende”, corrobora César Araújo, presidente da ANIVEC.

Já se começa a ver uma retração nas encomendas – e nós [indústria] estamos uma estação à frente. Não conseguimos fazer stock porque trabalhamos moda, que muda de estação para estação. Não podemos trabalhar para acumular stock, senão depois não se vende", César Araújo, Presidente da ANIVEC (vestuário e confeção).

O empresário descreve como as fábricas de vestuário e confeção, que representa nesta associação, estão a “trabalhar na incerteza” e essa instabilidade leva os consumidores a “dar prioridade às necessidades do dia-a-dia e a serem mais comedidas a comprar roupa, a viajar ou a ir aos restaurantes”. A Rússia, que era um destino forte para muitas marcas internacionais, é um mercado que está praticamente fechado. Os países nórdicos e da Europa central já começaram a retrair o consumo destes artigos devido ao aumento dos gastos noutras categorias, além de temerem as nuvens da recessão.

O último inquérito realizado pela Federação Internacional dos Fabricantes Têxteis (ITMF na sigla inglesa), que a ATP integra, comprova que as perspetivas de negócio desta indústria, a nível global, continuaram a deteriorar-se em novembro, com uma quebra nos indicadores de encomendas e na taxa de utilização da capacidade instalada, em particular nas fiações. O encolhimento das encomendas, salientou a ITMF, “é, de longe, a maior preocupação da indústria têxtil, seguida pela permanência das suas causas: os altos preços de energia e matérias-primas, e as altas taxas de inflação”.

César Araújo, presidente da ANIVEC
Ricardo Castelo/ECO

Ora, a única boa notícia é que, por via dessa menor procura por parte dos consumidores, dos tecidos aos cabides, os custos dos materiais, que aumentaram a dois dígitos no último ano e meio, vão acabar por baixar, tal como está a acontecer com os fretes marítimos desde o verão. É que, desabafa César Araújo, que é também dono da Calvelex, “muitos clientes não estão muito para aí virados [pagar o aumento dos custos de produção] e vão fabricar para outras paragens”. No capítulo das exportações, a ANIVEC prevê fechar o ano com uma subida homóloga de 15%, para um valor próximo de 3.200 milhões de euros no ramo do vestuário e confeção.

Considerando toda a fileira do têxtil e vestuário, que emprega cerca de 130 mil trabalhadores de forma direta, as exportações portuguesas – mais suportadas no aumento dos preços que responde à evolução da inflação do que na subida das encomendas – estavam a crescer 17,7% até setembro. Impulsionadas tanto pelas vendas aos países da União Europeia (+18,1%) como fora do espaço comunitário (+16,5%). Com base na análise feita pelo CENIT aos dados do INE, nos primeiros nove meses do ano, as importações têxteis cresceram ao dobro do ritmo (33,9%), em termos homólogos, com as roupas em destaque.

Depois de dois anos em que a pandemia dominou as atenções da indústria têxtil e do vestuário, forçando-a a “reinventar os negócios de forma a sobreviver”, as empresas do setor enfrentam agora as “consequências trágicas” da guerra na Europa que têm um “impacto profundo” na indústria, ao nível das cadeias de abastecimento e distribuição, dos custos da energia, da inflação ou da subida das taxas de juro, além da queda no consumo que aí vem.

Mário Jorge Machado, presidente da ATP

O alerta foi lançado por Mário Jorge Machado, reeleito presidente da ATP até 2024, na abertura da convenção europeia do setor, que decorreu em outubro, no Porto. O dirigente associativo avisou que este “cenário de crise profunda (…) ainda vai piorar antes de melhorar”. E, invocando experiência passado do setor, sentenciou que “sabemos que vai causar uma enorme purga nos negócios, permitindo apenas aos mais capazes sobreviver”.

ECO - Parceiro CNN Portugal / António Larguesa