Que o próximo ano será de desaceleração económica já não há quem duvide, mas ainda é incerto o nível e os efeitos que vai ter. Os economistas, ouvidos pelo ECO, são unânimes em afirmar que o mercado de trabalho vai sofrer algum impacto depois de ter resistido durante 2022, ainda que amortecido pela escassez de mão-de-obra. Já a inflação deverá manter-se elevada, levando a uma perda de poder de compra, apesar de a sua dimensão depender da evolução de vários fatores, nomeadamente alguns fora do controlo do país, como é o caso da guerra na Ucrânia.

“Vamos ter um abrandamento do crescimento; vamos ter mais problemas no campo do emprego, quer quanto ao volume de emprego quer à no que diz respeito à qualidade desse emprego” assim como “um quadro ainda inflacionário de forma significativa, porque as medidas — que estão a ser tomadas designadamente pelo BCE — podem não ser suficientes”, aponta ao ECO o economista José Reis.

O também professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra sinaliza que será um quadro em que “o conjunto de problemas da economia se vai revelar mais significativo, designadamente, porque além do emprego, o que se avizinha em matéria salarial não vai ser interessante, pois está-se a trabalhar com tetos salariais que vêm trazer grande tensão ao lado do emprego e trabalho porque não repõem poder compra”. Logo, acrescenta o economista, “abranda o crescimento e está a fazer grande pressão no sentido da perda do poder de compra dos assalariados”.

Vânia Patrícia Duarte, analista financeira da Unidade de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, também antecipa que “a economia portuguesa desacelere de forma expressiva no próximo ano, considerando os fatores de pressão: inflação deverá desacelerar mas continuará em níveis elevados, o que obrigará o BCE a prosseguir com o aperto da política monetária e consequente agravamento das taxas de juro”. A analista acrescenta ainda, em declarações ao ECO, que “a isto, juntar-se-á a pressão vinda da crise energética, com impacto nas faturas energéticas das famílias e empresas, para além da incerteza em termos geopolíticos”.

Se a inflação sobe acima do previsto e os salários nem sequer seguirem a norma dos 5,1%, o cenário vai ser complicado", José Reis, Economista.

A analista aponta que deverá existir “um impacto da forte desaceleração da economia no mercado de trabalho, o que pode acontecer já no quarto trimestre de 2022, mas será um impacto muito contido”. Isto, já que a referida escassez de mão-de-obra, “visível no elevado número de vagas de emprego por preencher e nas dificuldades de contratação reportadas pelas empresas, será um fator de amortecimento, incentivando as empresas a reter os trabalhadores”.

Tensões no mercado de trabalho são também um dos alertas de José Reis. “Se a inflação sobe acima do previsto e os salários nem sequer seguirem a norma dos 5,1%” — meta traçada no acordo de rendimentos e competitividade que o economista considera ser “um teto” –, o cenário vai ser complicado. Ainda assim, existe falta de mão-de-obra, uma situação relacionada com facto de se “oferecer um posto de trabalho que não corresponde à qualificação e que tem salário baixo“.

O economista João Cerejeira, especialista em questões de trabalho, também já tinha alertado ao ECO para o facto de o indicador do emprego ainda não ter sofrido “todos os efeitos da inflação”. “A inflação tem um efeito que importa reter: faz diminuir o poder de compra das famílias, o que quer dizer uma quebra real para o próximo ano, e pode ter efeitos no consumo privado e nas empresas viradas para o mercado interno“, realçou. Este cenário “ainda não é atualmente visível”.

Já o Banco de Portugal tem expectativas de que o mercado laboral ainda resista à desaceleração económica no próximo ano, prevendo no mais recente boletim económico que a taxa de desemprego vai continuar estável entre 2023 e 2025. Bruxelas, por sua vez, estima que a taxa de desemprego em Portugal será de 5,9% tanto em 2022 como em 2023, acima da previsão de 5,6% do Governo português. Para 2024, a Comissão antecipa uma descida do desemprego para 5,7%.

Os preços deverão manter-se pressionados, mas há motivos para acreditar numa inversão próxima da trajetória, que deverá ser mais evidente na primavera de 2023",  Vânia Duarte, Analista do BPI.

Quanto ao BPI, as previsões são de uma taxa de desemprego nos 6,4%. Alargando para o resto dos indicadores, o banco estima um crescimento do PIB de 0,5% em 2023 e uma inflação de 5,7%. São os números mais pessimistas conhecidos até agora no que diz respeito ao PIB, mas estão em linha com as restantes instituições no que diz respeito à inflação.

Vânia Duarte sublinha, por seu lado, que a taxa de inflação “desceu duas décimas em novembro, para 9,9%, sobretudo devido à descida dos bens energéticos, enquanto o índice subjacente, que contém componentes com comportamentos mais persistentes, manteve tendência de aumento marginal (passando de 7,1% para 7,2% em novembro)”. “Os preços deverão manter-se pressionados, mas há motivos para acreditar numa inversão próxima da trajetória, que deverá ser mais evidente na primavera de 2023″, estima.

Olhando para as previsões dos vários organismos nacionais e internacionais, o consenso é no sentido de que o próximo ano será de abrandamento. Mas o nível varia, sendo as mais recentes aquelas mais otimistas: o Banco de Portugal estima que a economia portuguesa deverá crescer 6,8% este ano e 1,5% em 2023. Já o Governo estimava um crescimento de 6,5% em 2022 e 1,3% no próximo ano, no Orçamento do Estado para 2023.

Mesmo assim, os ministros das Finanças e da Economia já admitiram que a economia poderá crescer mais que o previsto no OE este ano e, como explicou Mário Centeno na apresentação do último boletim, o crescimento em 2022 também permite um efeito de “carry-over” para o próximo ano, ainda que mais diminuto.

Previsões para 2023

Do lado do Conselho das Finanças Públicas é antecipado um abrandamento para 1,2% em 2023, numa base de políticas invariantes, ou seja, que não tem em conta as medidas que o Governo vai tomar, nomeadamente no OE. Já a Comissão Europeia cortou a previsão para o crescimento do PIB português, em 2023, em mais de metade para 0,7%, segundo revelou o relatório macroeconómico de outono. Estimativa é igual à do Fundo Monetário Internacional, sendo as instituições mais pessimistas.

António Mendonça, bastonário da Ordem dos Economistas, salienta assim que “tudo parece apontar para uma forte e generalizada desaceleração da atividade económica, variando o grau em que é considerada pelas diferentes projeções”, no boletim de conjuntura deste mês. As estimativas vão então dos 0,7% aos 1,5%, sempre representando um quadro de desaceleração que, para José Reis, é praticamente “inquestionável”.

Já sobre o que poderia contrariar isto, o economista da Universidade de Coimbra salienta que se deveria ter “uma deliberação politica, que tinha de ser política macroeconómica de desenvolvimento que levasse a que a economia começasse a enfrentar alguns destes grandes dilemas, como é ter um padrão de especialização assente em baixos salários e uso extensivo do trabalho”.

“Há uma predominância da criação de emprego em setores de baixos salários, que vivem à custa da proteção de que baixos salários dão e criam pouco valor”, salienta, mas isto num contexto de “desindustrialização em Portugal e excesso de terciarização”, com “subespecialização no turismo”. Assim, o economista defende que é necessária uma “alteração significativa da política económica no sentido de passar a proteger setores de criação de valor e emprego de qualidade e desproteger setores” referidos, de “baixa qualificação do posto de trabalho e de baixos salários”.

Apesar de o turismo ajudar as exportações, o economista entende que se deveria apostar naquelas que têm maior “incorporação de valor nacional”. “A grande cegueira é entendermos que é preciso exportar sem sabermos ou cuidarmos da questão de incorporação de valor”, reitera.

ECO - Parceiro CNN Portugal / Mariana Espírito Santo