Atrasos no programa, demora nas votações eletrónicas, pausas constantes para a contagem dos votos, apupos e assobios. O segundo dia da VII Convenção Nacional da Iniciativa Liberal (IL), ficou marcado por atrasos acumulados na ordem de trabalhos, que fizeram cair a hora de encerramento para as 20:00, quando inicialmente estava previsto para as 14:00 horas.

A sala central do Centro de Congressos, em Lisboa, começou a receber os militantes liberais pelas 09:30, que ocuparam os lugares com o entusiasmo natural de quem vinha escolher o novo líder do partido. Mas o vencedor acabou por só ser anunciado apenas às 19:30, mais de cinco horas depois do previsto, depois de vários atrasos na ordem dos trabalhos. Antes das votações, que só começaram pelas 15:30, a Mesa da convenção deu ordem para fechar as portas da sala onde decorria a reunião magna para que se iniciasse o processo de votação - primeiro das 12 moções setoriais e depois dos órgãos nacionais.

“Todos imediatamente para a sala. Alguém me faça o favor de mandar um berro lá para fora. As portas do bar também serão fechadas, tudo o que está no bar tem de vir cá para dentro”, pediu o vice-presidente da Mesa, Nuno Fernandes, depois de várias insistências.

A votação decorreu por via eletrónica, até porque uma parte dos 2.300 membros inscritos participaram remotamente. Ao longo do processo de votação, os trabalhos foram suspensos por várias vezes, e os militantes, visivelmente cansados, começaram a mostrar o seu desagrado com apupos e assobios.

Perante a manifestação de desagrado da plateia, onde já se evidenciava lugares vazios, o vice-presidente da Mesa da Convenção justificou que houve um atraso para “permitir a quem tivesse dificuldade para perceber onde é que o seu e-mail efetivamente estava”. A demora foi de tal forma prolongada, que a delegação do PAN desistiu de marcar presença na reunião magna, juntamente com as delegações do PEV, PSD, CDS, CHEGA e PS.

Os cerca de 2.300 liberais inscritos na convenção elegeram o novo líder por voto eletrónico (António Pedro Santos/LUSA)

O vencedor foi finalmente anunciado pelas 19:00: Rui Rocha, o candidato que contou com o apoio imediato do líder cessante, João Cotrim Figueiredo, e da maioria do grupo parlamentar liberal, subiu ao púlpito acompanhado da sua comitiva e de fortes aplausos da plateia, que saltou das cadeiras com o impulso do anúncio.

No discurso de vitória, o novo líder da IL comprometeu-se a cumprir o seu objetivo de chegar aos 15% nas próximas legislativas para “transformar Portugal” e garantiu que o partido “vai liderar a oposição”. Tendo como objetivo declarado “romper com o bipartidarismo”, Rui Rocha dedicou parte do seu discurso a dirigir críticas ao PS, que considerou “politicamente morto”, e ao PSD, por não ter votado “favoravelmente” a moção de censura apresentada pela IL.

Uma convenção marcada por divergências internas - mas não "fraturas irreparáveis"

Durante dois dias, a ‘nave central’ do Centro de Congressos, em Lisboa, vestiu-se de azul e branco, as cores da IL, para receber as centenas de liberais que vieram discutir o rumo do partido e eleger o novo líder que tem agora nas mãos o desafio de corresponder às expectativas de crescimento do partido. Depois do salto que registou nas últimas legislativas, passando de partido de deputado único para um grupo parlamentar de oito deputados, os liberais ambicionam chegar mais longe e consolidar-se como um partido no Governo.

Apesar do tom festivo espelhado nos grandes ecrãs que adornam a reunião magna, com a frase “Portugal Mais Liberal” inscrita, o ambiente não foi de festa. É que, se na campanha eleitoral já tinham ficado evidentes algumas divergências internas, durante a convenção muitos foram os militantes que subiram ao púlpito para expressar as suas opiniões contrárias à estratégia da comissão executiva e do conselho nacional. Se no púlpito as intervenções foram, na sua maioria, efusivas, entre os candidatos e figuras do partido o tom foi, por vezes, agressivo, à semelhança do que aconteceu nos dois meses de campanha.

No final da noite do primeiro dia, e em entrevista ao Observador, João Cotrim Figueiredo acusou Carla Castro de falta de “hombridade” como resposta às críticas da deputada quanto à “gestão autocrática” do agora ex-líder liberal e respondeu ao ex-candidato Tiago Mayan Gonçalves, que durante a campanha o designou como “cabecilha de um Comité Central" semelhante ao do Partido Comunista Português (PCP).

Carla Castro subiu ao púlpito para lamentar “a agressividade” das intervenções: “Não podemos querer de manhã dizer que somos descentralizadores, mas à tarde decidirmos as coisas num gabinete. Não podemos vir com discursos de união e depois virmos de forma agressiva atacar-nos uns aos outros.”

Por sua vez, José Cardoso dirigiu duras críticas aos adversários, referindo-se a Rui Rocha e Carla Castro como “arroz, arroz e mais arroz”, por, na sua perspetiva, não apresentarem projetos diferentes dos dos restantes partidos portugueses.

Esta troca de acusações e de críticas não passou ao lado dos militantes que aguardavam sentados no centro da reunião magna para eleger o novo líder. “Foi uma campanha suja, houve ‘política da lama’, que não é, nunca foi, nem nunca será a nossa forma de estar na política”, lamentou Carlos Eduardo, jovem de 20 anos que, em declarações à CNN Portugal, admite ter ficado “preocupado com as práticas que se deram durante a campanha”.

O líder da bancada parlamentar dos liberais Rodrigo Saraiva reconheceu à CNN Portugal que “houve algumas coisas - ditas até num tom suave - que extravasaram o que é o normal num combate político”. “Esta campanha foi longa, teve momentos que não foram bonitos e que não deveriam ter acontecido”, argumentou.

Ainda assim, na chegada ao Centro de Congressos para o segundo dia da convenção eletiva, Rui Rocha rejeitou a existência de “fraturas irreparáveis" no partido, enquanto Carla Castro quis focar-se no processo eleitoral que viria a decorrer. José Cardoso, por sua vez, distanciou-se da "crispação interna" no partido: "Eu não dei contributo, de certeza."

O que pensam os jovens liberais?

Para Tiago Prazeres, um jovem liberal de 20 anos e estudante de Bioquímica, a eclosão de divergências internas "era algo inevitável devido ao crescimento muito rápido do partido", além de ser resultado da queda do CDS e do "descontentamento" em relação ao PSD:

"De forma natural, várias pessoas mais conservadoras vieram para a IL, mas também há pessoas que são mais liberais-sociais, mais centro/centro-esquerda que vieram para o partido e agora nota-se muito essa divergência entre ideias. Mas acho que o mais importante é o partido continuar unido para combater o PS, combater o socialismo em Portugal e só espero que estas divisões não enfraqueçam o partido."

Questionado sobre o futuro dos liberais agora que não têm o líder que os fez crescer no parlamento, Tiago salientou que a IL "é um partido ideológico, e não um partido de líder". "As pessoas não estão cá pelo Cotrim Figueiredo ou pela Carla [Castro] ou pelo Rui. Elas estão cá porque acreditam nas ideias, porque são liberais e porque sabem que este é o partido que defende abertamente o liberalismo sem vergonha ou sem a desculpa de ser abrangente, como, por exemplo o PSD, que abrange tantas ideologias que já não é nada, nem conservador, nem social-democrata - é só muitas pessoas que têm diferentes ideias", argumentou.

Tudo indica que o futuro liberal será de continuidade, a avaliar pelo discurso de Rui Rocha. Carlos Eduardo e João Alves conhecem bem o novo líder do partido. Carlos filiou-se na IL quando o partido ainda nem tinha representação parlamentar. "Entrei em fevereiro de 2019 e cheguei ao acaso", confessa, acrescentando que a escolha pelo partido "surgiu naturalmente" depois de ter estudado os programas dos partidos para as eleições europeias desse ano.

Hoje, é membro do grupo de coordenação da IL em Gondomar e responsável pela pasta da juventude, e orgulha-se de ter conseguido influenciar a mãe, que "já não votava há anos, descontente", a voltar a exercer o seu direito ao voto. "Ela era daquelas pessoas que quando a eleição calhava em outubro ou em final de setembro e o dia estava bom, ia para a praia. Depois passou a ler, a estar mais interessada, e hoje em dia à mesa discute-se política e ela vai votar com todo o gosto - não sou eu que a obrigo, juro", diz, entre risos.

Foi, aliás, Carlos Eduardo que deu a notícia a Rui Rocha de que tinha acabado de ser eleito pelo círculo eleitoral de Braga, nas legislativas de 2019, seguindo-se uma grande festa, recorda. Nas palavras do jovem liberal, o agora líder do partido tem "carisma" e "sabe estar", características que, diz, "nem todos os políticos têm".

João Alves, estudante de Ciência Política, votou na IL em 2019, e, tal como Eduardo, lembra que a escolha também foi "ao acaso". "Não votei muito pelas ideias, mas pela comunicação, achei engraçada. Eu não queria votar nos mesmos porque o país está há 40 anos estagnado, sem novas ideias, sem soluções, e eu senti que se é para continuar igual também não vale a pena votar. Mas acredito que nós, jovens, temos de ser incentivados a votar para que a nossa voz seja ouvida", conta.

Dois meses depois, em novembro, decidiu filiar-se ao partido. Hoje, é com orgulho que fala do percurso de Rui Rocha no partido, recordando a sua campanha para as legislativas de 2022, que acompanhou de perto. "O Rui já mostrou nas eleições legislativas de 2022 que é uma pessoa popular - não é populista, é popular". "Foi incansável na campanha, andou de manhã à noite pelo distrito todo de Braga e, num círculo que não dávamos por garantido, o Rui conseguiu ser eleito com relativa facilidade", lembra, em conversa com a CNN Portugal.

Rui Rocha foi eleito com 51,7% dos votos (António Pedro Santos/LUSA)

O jovem liberal salienta o facto de o novo líder "não ter problemas em defender aquilo que pretende", que é "cumprir o objetivo de 15% nas próximas legislativas, fazer da IL a terceira força política, ter um grupo parlamentar nos Açores e, se possível, um grupo parlamentar na Madeira".

"É esse o caminho a seguir. A IL tem de aprender com os maus exemplos dos nossos vizinhos, principalmente do Ciudadanos, que é da nossa linha, e que também cresceu rapidamente e agora está no estado que está", argumenta, referindo-se ao partido espanhol que enfrenta agora uma crise interna, depois de ter surgido à frente do Partido Popular (PP), partido que estava no poder, e os socialistas do PSOE, nas sondagens de 2018.

Beatriz Céu