Com as bandeiras azuis dispostas em cima da mesa à sua frente, João e Tiago ouvem atentamente os militantes que sobem ao púlpito da chamada 'nave central' do Centro de Congressos, em Lisboa, que hoje está vestida de azul e branco, não fosse este o palco da VII Convenção Nacional da Iniciativa Liberal (IL).

Não estão vestidos a rigor, como outros militantes que ocupam os lugares da chamada ‘nave central’ do edifício envergando t-shirts azuis e brancas, as cores do partido, mas o olhar atento não esconde o interesse em fazer parte de um futuro liberal. 

Milhares de pessoas assistiram este sábado à reunião magna da Iniciativa Liberal (António Pedro Santos/Lusa)

E é precisamente por não verem outro futuro que não o liberal que estes dois jovens de 20 anos decidiram passar o fim de semana numa convenção partidária. 

“Quando fiz 18 anos, decidi juntar-me à IL para ajudar o partido e ajudar principalmente o país. Porque este país não nos está a oferecer oportunidades, e, quando eu vejo a maior parte da minha geração a emigrar, quero tentar ajudar a mudar essa realidade”, conta à CNN Portugal João Carlos Gomes, estudante de Engenharia e Gestão Industrial.

João conheceu Tiago Prazeres na escola secundária e ambos integram o núcleo da Iniciativa Liberal em Santarém. “Fazemos parte da coordenação de Santarém, ajudamos a realizar eventos, a fazer publicações nas redes sociais e a tentar ajudar o partido a crescer e a espalhar as ideias liberais”, explica o estudante de Bioquímica.

Mas porquê a Iniciativa Liberal? “É um partido economicamente mais à direita, mais defensor do livre mercado e do setor privado, porém, a nível dos costumes e a nível social, é mais progressista, o que contrasta com os outros partidos de direita que existem neste momento”, responde Tiago.

Apesar da inclinação económica “mais à direita”, ambos rejeitam a ideia de se associarem aos partidos de direita, até porque, argumentam, “a IL não é conservadora - é a favor da legalização da canábis, da despenalização da eutanásia, da legalização do aborto”, exemplificam.

Queques? "Temos uma maneira diferente de pensar"

Os dois jovens liberais rejeitam também a ideia de que os liberais são “queques”, como assim os designou António Costa numa entrevista à revista Visão. “Nós, liberais, temos uma forma diferente de pensar. Nós não metemos pessoas em caixinhas e colocamos rótulos ou coisas assim. Se eles acham isso, eu não me identifico, e acho que nenhum liberal se identifica. Para nós, o que interessa é o individualismo, o quão diferentes as pessoas conseguem ser e a forma como conseguem contribuir para a sociedade”, respondeu Tiago.

Para João, “não há partido mais informal” do que a IL, “seja na vestimenta, seja na maneira de falar, seja nos eventos políticos”, e isso é outro fator que também distingue os liberais dos outros partidos.

Do outro lado da sala da reunião magna, Bruno Abreu está sentado à mesa, com o crachá que o identifica disposto em cima da mesa à sua frente. É a primeira vez que participa numa convenção partidária e o seu olhar divaga pela sala, como que à procura de respostas. E a verdade é que está mesmo à procura de respostas num dos três candidatos que se apresentam à sucessão de João Cotrim Figueiredo.

Esta é a primeira vez na sua história que a IL conta com mais do que uma lista à comissão executiva, o que se está a revelar um desafio para o partido, que está a viver um período de divergências internas. Na corrida à liderança dos liberais estão os deputados e membros da atual comissão executiva Rui Rocha e Carla Castro, e o conselheiro nacional, José Cardoso, que, embora não tenha o palco do Parlamento como os seus adversários, é um nome bem conhecido entre os liberais.

João Cotrim Figueiredo foi criticado internamente por ter manifestado o seu apoio imediato ao candidato Rui Rocha, que conta também com o apoio de grande parte do grupo parlamentar. Carla Castro, por sua vez, conta com o apoio declarado de figuras do partido, como o primeiro presidente dos liberais, Miguel Ferreira da Silva, e o ex-candidato a Belém, Tiago Mayan.

O desafio desta convenção começou logo no início, com os trabalhos a arrancarem cerca de uma hora e meia mais tarde do que o previsto, alegadamente por "falta de quórum", que teria de ser de 1.066 pessoas, independentemente de estarem a assistir presencialmente ou à distância. 

Já com 790 pessoas na sala e 281 a assistirem por via remota, os trabalhos começaram com o chumbo da proposta do candidato José Cardoso para incluir no regimento a possibilidade de uma segunda volta. A Mesa do Conselho Nacional considerou que tal implicaria "mudar as regras a meio jogo", e os militantes concordaram.

Os três candidatos acabaram por subir ao púlpito para apresentarem as respetivas moções de estratégia perante os cerca de 2.300 membros já durante a tarde.

Em conversa com a CNN Portugal, Bruno Abreu, consultor informático de 40 anos e membro do núcleo da IL de Cascais, admite ter "algumas inclinações" em relação ao candidato em que vai votar.

"Gostei bastante de qualquer uma das apresentações”, afirma. Mas as inclinações pendem mais para o lado de Carla Castro, admite o militante liberal, confessando que foram precisamente as apresentações desta tarde que lhe permitiram chegar a esta conclusão.

"Mudar Portugal", fazer frente ao PS ou "mais arroz"?

Isto porque o candidato Rui Rocha “falou mais de António Costa do que propriamente das suas ideias”, argumenta, acrescentando que vê este dia como uma oportunidade para “discutir as ideias do partido, e não para combater o PS”.

Rui Rocha foi o primeiro dos três candidatos a subir ao púlpito, impulsionado pelo lema que exclamou repetidas vezes, “Eu quero mudar Portugal”, seguido de fortes aplausos.

"Estou convencido de que é inevitável sermos a terceira força política", declarou. Mas, para Rui Rocha, não basta ser a terceira força política: "Queremos acabar com o bipartidarismo e precisamos de ser ambiciosos, não basta dizer que queremos ser a terceira força política, não chega e não permite transformar Portugal. Não quero fazer cócegas ao sistema, quero mudar Portugal.”

Rui Rocha discursa perante os cerca de 2.300 liberais que assistem à convenção eletiva da IL (António Pedro Santos/Lusa)

Seguiu-se o candidato José Cardoso, o último a juntar-se à corrida à liderança, quando já tudo parecia indicar que esta seria uma corrida a dois. Depois de ter visto a sua proposta para incluir no regimento a possibilidade de uma segunda volta nas eleições chumbada em plena convenção, José Cardoso foi duro nas críticas aos adversários, comparando-os - como, de resto, o vem a fazer ao longo da campanha eleitoral - a “arroz”, “mais do mesmo”.

"Tudo isto me faz lembrar o arroz que me venderam os outros [partidos e candidatos] e que me querem vender agora, e eu não quero. Faz-me lembrar tudo o que rejeitei: rejeitei ideias de que tem de ser desta forma, que me faz parecer um arroz queimado, aquele que alastra ao resto do arroz, aquele arroz malandrinho que copia as ideias dos outros, e como resolveram acabar a campanha com sangue entre eles, faz-me lembrar o arroz de cabidela.”

"No fundo isto é tudo arroz, arroz e mais arroz", acrescentou.

José Cardoso foi o último candidato a juntar-se à corrida à sucessão de João Cotrim Figueiredo (António Pedro Sousa/LUSA)

Foi então a vez de Carla Castro subir ao púlpito, tendo sido recebida por um forte aplauso e vozes de apoios que se fizeram ouvir em toda a sala. A deputada quis dirigir-se “a todos, liberais, pessoas livres, juntos num partido sem barões e sem caciques”, num discurso em que advertiu os defensores da “continuidade em toda a linha” de que "caminhar já não basta", que o governo socialista "está em decomposição" e que a IL tem de "dar corda aos sapatos".

“Os nossos órgãos internos têm de ser fortes e independentes, desde a comissão executiva, aos conselhos de jurisdição, fiscalização e nacional e depois apontamos à conquista do país. Desengane-se quem ache que é tarefa fácil mas nós também não viemos cá por ser fácil”, garantiu. 

Carla Castro quer "descentralizar" o poder dos liberais (António Pedro Santos)

É precisamente por esta lógica de “descentralização” do poder interno que Bruno Abreu deverá votar em Carla Castro. Ao contrário de João e Tiago, que admitiram que o seu voto será entregue a Rui Rocha.

Isto porque “não é preciso uma rutura, mas sim trabalhar nos pontos a melhorar”, justificam. “É a candidatura que tem a melhor equipa e tem uma mensagem interna de pontos a melhorar, mas também uma mensagem externa. E isso é importante, porque não podemos estar só virados para dentro. Esse foi o erro de alguns partidos que desapareceram - começaram a virar-se muito para dentro e as pessoas deixaram de se identificar com o partido”, acrescenta Tiago.

Esse é também o receio de Bruno Abreu, que diz ter “esperança de que as divisões no partido não criem rachas internas ao ponto de tornarem a IL no próximo CDS”.

Independentemente do vencedor deste domingo, os apoiantes liberais ecoam as palavras dos candidatos à liderança e salientam a importância de o partido se manter unido. "O nosso combate é lá fora e não cá dentro", afirma João.

Foram precisamente estas as palavras utilizadas por João Cotrim Figueiredo na reta final do seu último discurso enquanto líder da IL, apelando à união do partido: "Os nossos adversários estão lá fora, não estão cá dentro."

O líder cessante despediu-se assim daquela que foi "a maior honra" da sua vida, mas garantiu que vai estar "sempre disponível para servir a causa liberal", deixando uma promessa aos liberais: "Isto não é um adeus, é um até sempre."

João Cotrim Figueiredo abandona a liderança dos liberais e meio do mandato (António Pedro Santos/LUSA)
Beatriz Céu