Parece quase um superpoder e muitas pessoas temem que possa vir a acabar com centenas de milhares de postos de trabalho. O ChatGPT e os geradores de texto inteligente podem mesmo tornar certas funções redundantes, mas os especialistas ouvidos pela CNN Portugal acreditam que esta tecnologia vai abrir as portas para o ser humano “ganhar novas competências”, ainda que não excluam que algumas profissões possam ser mais afetadas.

Como modelo de linguagem avançado, o ChatGPT pode ter impacto em várias profissões que envolvem a geração ou análise de texto. Mas vem também oferecer oportunidades para que os trabalhadores percam menos tempo com tarefas “mais rotineiras” e possam focar-se noutras partes das suas tarefas. 

Os especialistas têm por isso uma visão mais otimista do impacto desta tecnologia nos empregos. Pedro Amorim, Managing Director da da Experis, refere-se ao ChatGPT não como “inteligência artificial”, mas sim como “inteligência assistida”, que vem “dar condições para que o ser humano ganhe novas competências” e foque o seu tempo na qualidade e não na quantidade.

“Desemprego? Eu acho que pelo contrário, vai ser um excelente auxiliador daquilo que são as nossas atividades, facilitando muito daquilo que é o nosso trabalho do dia a dia. Em consequência, provavelmente, irão surgir novas funções. Isto é como se quando se descobriu a máquina a vapor há mais de 100 anos, diziam-se que muitos dos trabalhadores iam perder o emprego”, lembra Pedro Amorim.

Mas engana-se quem acredita que o impacto no mundo do emprego vai ficar restrito a quem trabalha com a escrita. Pessoas que trabalham com níveis mais básicos da programação poderão ter de aprofundar os seus conhecimentos, porque os ChatGPT e os seus rivais são capazes de produzir, em segundos, linhas de código mais depressa que a maior parte dos programadores.

Ainda assim, os peritos defendem que essa mudança será positiva. Gustavo Rodrigues, Business Manager da área de IT Contracting da Hays, em Portugal, explica que milhares de programadores já utilizam a aplicação para corrigir linhas de código, tornando todo o processo mais eficaz. A própria criação de websites poderá, mais em breve do que se pensa, ser feita através de uma conversa com um destes bots.

Outras áreas que poderão ter um impacto significativo estão ligadas à criação de conteúdos e ao marketing. Os profissionais destas áreas têm como função escrever textos persuasivos nas redes sociais, em newsletters, sites, anúncios e cartas de vendas. “Acredito que haja algum impacto nesta área”, admite Gustavo Rodrigues.

Quem também pode ver as suas funções mudarem radicalmente são as pessoas que trabalham na área do Direito, particularmente em início de carreira. Funções que passem por encontrar e analisar legislação e desenvolver acórdão e texto jurídico poderão tornar-se redundantes com as versões mais sofisticadas desta tecnologia.

Elsa Veloso, advogada especialista em proteção de dados, aponta mesmo que, de facto, este sistema já consegue “produzir conteúdos com sentido” acerca de alguns aspectos da sua área de especialidade, mas que, de facto, demonstra ter algumas limitações quando os assuntos são mais específicos. 

É também uma questão de tempo até que estes geradores de texto inteligentes passem a ter incorporado um sistema de voz. Nesse momento, muitos dos empregos ligados ao atendimento ao cliente poderão ter de ser reenquadrados.

Mas as empresas também têm muito a aprender para estar preparadas para esta automatização. A tecnologia pode mesmo ser utilizada por algumas companhias na área das entrevistas de emprego e nos processos iniciais de triagem das mesmas, mas os especialistas alertam para o risco do mecanismo poder dar recomendações discriminatórias.

“Já começamos a olhar para estes modelos para nos ajudarem no próprio processo de entrevistas e de triagem. E aqui é preciso ter particular atenção para uma potencial discriminação. Os bots são programados por humanos e podem ter preconceitos relativamente a raça, religião, sexo”, sublinha Pedro Amorim.

Gustavo Rodrigues acredita que cada vez mais vamos ter um ecossistema em que no nosso local de trabalho todos terão acesso a criar conteúdo ou a trabalhar para o conteúdo digital e contribuir para “o desenvolvimento digital das organizações”, seja através de plataformas de inteligência artificial como o ChatGPT, seja pela adoção de “plataformas no-code”, em que pessoas que não sabem programar conseguem criar software.

O mais importante, destaca o especialista, é que cada um procure estar “constantemente a adquirir novo conhecimento” e novas perspectivas, procurando uma “formação ao longo da vida” de forma a conseguir tirar o melhor proveito das tecnologias que temos à nossa disposição e das que ainda estão para vir. “O verdadeiro perigo é a pessoa achar que, a partir de agora, não precisa de aprender”, insiste o professor João Paulo Costeira

“Não o vejo o aparecimento da inteligência artificial só como evolução, o que vejo é mesmo uma revolução. Acima de tudo porque nos vai dar a capacidade de comunicar com a máquina e colocá-la a trabalhar a nosso favor”, frisa Gustavo Rodrigues.

João Guerreiro Rodrigues