Girona: de onde vem e até onde pode ir a sensação da Liga espanhola? - TVI

Girona: de onde vem e até onde pode ir a sensação da Liga espanhola?

Girona (Foto Andreu Dalmau/EPA)

De volta à liderança depois de uma grande vitória em casa do Barcelona, clube catalão que faz parte do City Group e joga um futebol sedutor continua a fazer história

«Estamos salvos, chegámos aos 41 pontos muito antes do que pensámos.» Depois da vitória em casa do Barcelona, Míchel enquadrou assim o que tem sido a época do Girona. Líder da Liga espanhola ao fim de 16 jornadas, depois de um enorme jogo em Montjuic. «Estou muito feliz, porque entrar noutra dimensão era isto. Estamos preparados para lutar por estar no topo», acrescentou o treinador.

Falar em equipa sensação já é pouco. O Girona está a surpreender desde que começou o campeonato, tinha perdido a liderança e agora recuperou-a, com mais um enorme jogo. «É a melhor equipa que vi até agora», disse Xavi no final do jogo, também ele seduzido pelo jogo dinâmico e positivo do Girona, assente na qualidade e na enorme confiança da equipa. Como se viu no segundo golo, quando já depois de o Barça ter empatado o Girona respondeu com um fantástica jogada coletiva e uma grande finalização de Miguel Gutiérrez. Ou na tranquilidade com que reagiu ao 2-3 apontado por Gundogan, já nos descontos, com o veterano Stuani a fixar o 2-4 final.

Não é acaso, como o Girona tem mostrado ao longo de todo um campeonato em que só perdeu pontos na derrota com o Real Madrid, e dois empates. É, sim, uma enorme proeza para o clube catalão que está a fazer apenas a quarta época da sua história na Liga espanhola, a segunda consecutiva. Um clube que tem o mais pequeno estádio da primeira divisão – o Municipal de Montilivi leva pouco mais de 14 mil espectadores – e também um dos tetos salariais mais baixos, cerca de 50 milhões de euros, valor definido em função das receitas e das dívidas dos clubes.

O Girona subiu pela primeira vez à Liga em 2017. Foi também nesse ano que foi adquirido pelo City Group. Essa ligação a um dos grandes potentados do futebol mundial não deu frutos imediatos. O Girona passou duas épocas no primeiro escalão, mas voltou a descer em 2019. Seguiram-se três temporadas na II Divisão e foi na última dessas épocas que as peças começaram a encaixar. Com a equipa liderada a partir do banco por Míchel, o antigo médio que é uma referência histórica do Rayo Vallecano. Foi em Vallecas que começou o percurso como treinador e levou o clube à I Divisão, o que repetiria depois no banco do Huesca. Em ambos os casos, saiu a meio das temporadas no escalão principal. No Girona, os primeiros tempos não foram fáceis para Míchel e o clube chegou a estar em zona de descida à terceira divisão. Mas acabou por chegar ao play-off de promoção e conseguiu mesmo subir à Liga.

Lições sobre montar um plantel

Na época passada, o Girona terminou a Liga na 10ª posição. Viu sair alguns jogadores importantes, como o goleador Taty Castellanos, o avançado que correu mundo com o póquer que marcou ao Barcelona na época passada e se transferiu para a Lazio, ou Oriol Romeu, que saiu para o Barça. Mas montou uma equipa com maior profundidade ainda para a nova época, assente nas ligações privilegiadas com o City Group e no acesso a uma extensa rede de prospeção, aliada a uma seleção criteriosa.

Por via direta da ligação ao universo City, estão no Girona a promessa Savinho, que chegou do Troyes, outro clube do grupo, e Yan Couto, o lateral que já jogou no Sp. Braga. Depois há vários outros jogadores oriundos dessa extensa rede, que vai da Europa aos Estados Unidos, como o médio Aleix Garcia, que aliás acabou de se tornar o primeiro jogador do Girona a representar a seleção espanhola, ou o venezuelano Yangel Herrera.

Depois, o Girona garantiu a experiência de Daley Blind, o veterano central que chegou do Bayern Munique a custo zero, a que se juntou Eric Garcia, cedido pelo Barcelona, tal como o médio Pablo Torre. Na frente o avançado ucraniano Artem Dovbyk, ex-Dnipro, passou a fazer companhia ao compatriota Viktor Tsygankov, chegado em janeiro. Juntaram-se a veteranos como o guarda-redes Gazzaniga e o avançado Stuani, aos 37 anos a fazer a diferença muitas vezes saindo do banco, já com cinco golos no campeonato, ou a jogadores já com experiência de Liga que chegaram a baixo custo, como o médio Ivan Martín, o central David López ou Miguel Gutiérrez, o lateral-esquerdo de 22 anos formado no Real Madrid que chegou na época passada e foi o melhor em campo neste domingo em Montjuic.

A ligação ao City Group e... ao irmão de Guardiola

O Girona está de volta à liderança, quando faltam três jornadas para terminar a primeira volta. Há mais de 20 anos que não se via nada assim, um líder por esta altura que não fosse um dos candidatos do costume – Barcelona, Real Madrid, eventualmente Atlético Madrid. O último clube que fugiu a essa hegemonia foi o Valencia, em 2003/04, que por sinal não liderava por esta altura. Nesses tempos, houve vários clubes a intrometer-se na luta – em 2002/03 a Real Sociedad liderava por esta altura e acabou por terminar a dois pontos do campeão Real Madrid e na época anterior, que terminou também com o Valencia campeão, foi o Alavés a causar sensação até esta fase, antes de cair e acabar no sétimo lugar.

A época do Girona está a correr como um conto de fadas e a questão que se coloca já é se o clube poderá mesmo ir até ao fim e imitar uma proeza como a do Leicester, campeão inglês em 2015/16. Até já se fazem cenários para perceber o que acontece se chegar à Liga dos Campeões, tendo em conta que tem os mesmos proprietários do Manchester City. A atual estrutura acionista do Girona está dispersa, o que pode facilitar esse cenário. Nesta altura, o City Group detém 47 por cento do capital. Pere Guardiola, o irmão de Pep Guardiola, também já teve uma quota idêntica, mas nesta altura detém apenas 16 por cento, estando outros 35 por cento nas mãos do empresário de origem boliviana Marcelo Claure.

Independentemente do que acontecer, o Girona já fez história. E deu um belo enredo ao campeonato espanhol. «Fizemos um grande favor à Liga», como disse Míchel: «Estes jogadores estão a fazer história de verdade e isso é o que me faz mais feliz. Hoje, qualquer adepto deste desporto é um bocadinho do Girona.»

A venda de camisolas a disparar

O clube já está a tirar proveito dessa onda de popularidade. A venda de camisolas, por exemplo, disparou. Um clube que há oito anos não passava das 800 camisolas vendidas por época e de uma receita de 40 mil euros, espera agora receitas de um milhão de euros, com pedidos a chegar de todo o mundo, segundo contou à Associated Press o CEO do Girona, Ignasi Mas-Bagà. «Estamos a vender no Japão, na América do Sul, nos EUA, em todo o mundo», afirma, acrescentando que se abriu todo um novo potencial comercial: «Temos marcas a bater-nos à porta, mas também estamos a bater a muitas portas, porque a oportunidade é agora.

Mas o clube não se deixa deslumbrar com os resultados, garante o dirigente. «O objetivo era a permanência», diz: «Liderar o Campeonato é como um sonho para nós. Mas não é uma obsessão. O foco é a estabilidade a longo prazo.»

Míchel também mantém um discurso realista. «Estou feliz pelo rendimento da equipa, mas não sei se seremos capazes de aguentar o nível do Barça e do Real Madrid durante uma época inteira», diz o treinador. Embora assuma a ambição, reconhecendo que o Girona pode jogar também com a vantagem de ter menos pressão do que os rivais: «Não sei se é possível, mas não é o objetivo. Disse ao Xavi que nós não temos a pressão que ele tem para ganhar todos os jogos. Vamos aproveitar o momento. Temos mentalidade positiva e vamos aproveitando. Não sei se estamos em posição de ganhar a Liga, mas estamos em posição de ganhar a qualquer adversário.»

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