Estreito de Ormuz está fechado? Só para alguns. Petroleiros e cargueiros do Irão continuam a circular e "a China esfrega as mãos" - TVI

Estreito de Ormuz está fechado? Só para alguns. Petroleiros e cargueiros do Irão continuam a circular e "a China esfrega as mãos"

Petroleiro iraniano (Getty)

Como a Guarda Revolucionária do Irão não iria atacar navios do próprio país, as embarcações iranianas continuam a fazer a travessia

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Pouco depois das 20:00 desta segunda-feira, chegou a notícia que nenhum economista, investidor ou cidadão ocidental com contas para pagar queria ouvir: o Estreito de Ormuz foi "fechado". O anúncio foi feito pela Guarda Revolucionária do Irão, que garantia que dessa hora em diante iria passar a atacar todo e qualquer navio que tentasse a travessia. No entanto, "todos" parece ser um termo de interpretação aberta neste momento, porque há navios a atravessar o estreito. E o que têm em comum essas embarcações? A bandeira do Irão.

O Marine Traffic, site especializado no mapeamento do tráfego marítimo, disponibilizou um timelapse das travessias de cargueiros e petroleiros nos últimos dias. O ataque dos EUA e de Israel fez com que quase imediatamente o tráfego na região diminuísse e o anúncio de encerramento da Guarda Revolucionária do Irão parece ter feito estagnar quase por completo o vaivém de embarcações, mas, esporadicamente, há marcadores verdes (cargueiros) e vermelhos (petroleiros) que se podem ver a cruzar o estreito.

O presidente-executivo da Associação dos Transitários de Portugal (APAT), António Nabo Martins, entende que o Estreito de Ormuz está agora sob um modo de funcionamento de passagem seletiva, em que os navios de bandeira iraniana têm "prioridade" na passagem e estão livres de qualquer ataque.

Rastreamento do tráfego de cargueiros e petroleiros no Estreito de Ormuz às 11:00 desta terça-feira (Fonte: Marine Traffic)

"O estreito está fechado seletivamente", concorda o major-general Agostinho Costa. O especialista em Defesa da CNN Portugal assegura que "os navios de pavilhão iraniano passam" no Estreito de Ormuz e o "petróleo continua a passar para a China".

Para Agostinho Costa, este é o outro lado do ataque norte-americano e israelita contra Teerão, e que está a impactar mais o Ocidente e a economia ocidental do que o resto do mundo: apesar do que dizem publicamente, "a China esfrega as mãos e sr. Putin, então, está satisfeitíssimo".

"Com o encerramento do estreito, quem é que vai vender petróleo? A Rússia, como é óbvio", diz o major-general de modo a justificar a afirmação anterior. 

A importância de Ormuz

O Estreito de Ormuz é tão importante para o comércio marítimo de petróleo que tem vindo a ser rotulado como o "principal gargalo do mundo". Os dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos mostram que cerca 27% de todo o comércio marítimo mundial de petróleo passa por aquela rota do Mar Arábico que separa Omã e os Emirados Árabes Unidos do Irão, bem como o Golfo Pérsico do Golfo de Omã.

Dos dez maiores exportadores mundiais de petróleo e derivados, cinco deles são Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e o próprio Irão. Todos situados no Golfo Pérsico. Todos dependentes do Estreito de Ormuz. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), em 2022 só esta mão cheia de países do Médio Oriente exportou cerca de mil milhões de toneladas de crude e derivados. E, em termos financeiros, o Observatory of Economic Complexity (OEC) mostra que estes mesmos países - com exceção do Irão, por falta de dados - tiveram um volume de vendas de 352 mil milhões de euros só em 2023.

Um quinto de todo o comércio marítimo de petróleo do mundo passa pelo Estreito de Ormuz (Getty)

O cenário pode ser complicado para a economia global mas é possível encontrar-se no passado algum conforto histórico: "O Estreito de Ormuz nunca foi fechado". Exemplo disso mesmo foi o que aconteceu na década de 80 durante guerra entre o Irão e o Iraque, em que a ameaça iraniana foi a mesma e nunca chegou a ser cumprida. Isso mesmo foi recordado por Robert Yawger, diretor de futuros sobre energia da Mizuho Securities, à CNN Internacional após o choque entre petroleiros naquela mesma região provocado por interferências dos mísseis disparados contra Israel na semana passada.

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