Pouco depois das 20:00 desta segunda-feira, chegou a notícia que nenhum economista, investidor ou cidadão ocidental com contas para pagar queria ouvir: o Estreito de Ormuz foi "fechado". O anúncio foi feito pela Guarda Revolucionária do Irão, que garantia que dessa hora em diante iria passar a atacar todo e qualquer navio que tentasse a travessia. No entanto, "todos" parece ser um termo de interpretação aberta neste momento, porque há navios a atravessar o estreito. E o que têm em comum essas embarcações? A bandeira do Irão.
Minimal vessel traffic seen in Strait of Hormuz amid reported closure
— MarineTraffic (@MarineTraffic) March 3, 2026
The latest #MarineTraffic playback shows visibly reduced transit density, alongside holding patterns, slower speeds, and vessels remaining outside the strait as operators reassess risk. pic.twitter.com/pfqk5rcbg8
O Marine Traffic, site especializado no mapeamento do tráfego marítimo, disponibilizou um timelapse das travessias de cargueiros e petroleiros nos últimos dias. O ataque dos EUA e de Israel fez com que quase imediatamente o tráfego na região diminuísse e o anúncio de encerramento da Guarda Revolucionária do Irão parece ter feito estagnar quase por completo o vaivém de embarcações, mas, esporadicamente, há marcadores verdes (cargueiros) e vermelhos (petroleiros) que se podem ver a cruzar o estreito.
O presidente-executivo da Associação dos Transitários de Portugal (APAT), António Nabo Martins, entende que o Estreito de Ormuz está agora sob um modo de funcionamento de passagem seletiva, em que os navios de bandeira iraniana têm "prioridade" na passagem e estão livres de qualquer ataque.
"O estreito está fechado seletivamente", concorda o major-general Agostinho Costa. O especialista em Defesa da CNN Portugal assegura que "os navios de pavilhão iraniano passam" no Estreito de Ormuz e o "petróleo continua a passar para a China".
Para Agostinho Costa, este é o outro lado do ataque norte-americano e israelita contra Teerão, e que está a impactar mais o Ocidente e a economia ocidental do que o resto do mundo: apesar do que dizem publicamente, "a China esfrega as mãos e sr. Putin, então, está satisfeitíssimo".
"Com o encerramento do estreito, quem é que vai vender petróleo? A Rússia, como é óbvio", diz o major-general de modo a justificar a afirmação anterior.
A importância de Ormuz
O Estreito de Ormuz é tão importante para o comércio marítimo de petróleo que tem vindo a ser rotulado como o "principal gargalo do mundo". Os dados do Departamento de Energia dos Estados Unidos mostram que cerca 27% de todo o comércio marítimo mundial de petróleo passa por aquela rota do Mar Arábico que separa Omã e os Emirados Árabes Unidos do Irão, bem como o Golfo Pérsico do Golfo de Omã.
Dos dez maiores exportadores mundiais de petróleo e derivados, cinco deles são Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e o próprio Irão. Todos situados no Golfo Pérsico. Todos dependentes do Estreito de Ormuz. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), em 2022 só esta mão cheia de países do Médio Oriente exportou cerca de mil milhões de toneladas de crude e derivados. E, em termos financeiros, o Observatory of Economic Complexity (OEC) mostra que estes mesmos países - com exceção do Irão, por falta de dados - tiveram um volume de vendas de 352 mil milhões de euros só em 2023.
O cenário pode ser complicado para a economia global mas é possível encontrar-se no passado algum conforto histórico: "O Estreito de Ormuz nunca foi fechado". Exemplo disso mesmo foi o que aconteceu na década de 80 durante guerra entre o Irão e o Iraque, em que a ameaça iraniana foi a mesma e nunca chegou a ser cumprida. Isso mesmo foi recordado por Robert Yawger, diretor de futuros sobre energia da Mizuho Securities, à CNN Internacional após o choque entre petroleiros naquela mesma região provocado por interferências dos mísseis disparados contra Israel na semana passada.