O Irão tem "dois motivos principais" para atacar os países vizinhos e há uma escalada que pode mudar tudo - TVI

O Irão tem "dois motivos principais" para atacar os países vizinhos e há uma escalada que pode mudar tudo

Ataques iranianos aos EAU (AP)

Teerão tem colocado em causa o estatuto de "oásis de estabilidade" que granjeia a maioria dos Estados da Península Arábica

Durante uma semana, de forma quase incessante, o Irão atacou os interesses americanos em países como os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait, e fez tombar a barreira invisível que tornava a maioria dos Estados da Península Arábica em refúgios numa região atormentada.

Este sábado, contudo, o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, comprometeu-se a não visar mais estes Estados a não ser que de lá partam ataques contra a república islâmica. "Considero necessário pedir desculpas aos países vizinhos que foram atacados. Não temos intenção de invadir países vizinhos", disse o chefe de Estado iraniano.

Esta é uma mudança relevante numa estratégia que, segundo Manuel Serrano, comentador da CNN Portugal, tem dois objetivos principais. “Desde o princípio que o objetivo era pressionar os EUA e Israel e colocar em causa o estatuto de oásis de estabilidade que estes países têm”, diz o especialista em Relações Internacionais. “Estes países conseguiram vender a ideia de que ali, numa zona volátil por natureza, é um sítio onde as pessoas podiam estar e onde tudo o que é investimento, turismo e certos tipos de trabalho pode acontecer”.

No Dubai, por exemplo, um civil morreu depois de destroços de uma interceção terem caído em cima do carro em que viajava. Já antes tinha morrido um passageiro que estava no aeroporto de Abu Dhabi, o que causou alguma apreensão num destino altamente turístico.

“Um dos objetivos do Irão foi colocar em causa isso mesmo, mostrar que a proteção dos Estados Unidos não é assim tão relevante”, acrescenta. O segundo objetivo, explica Manuel Serrano, tem que ver com o preço de certas matérias-primas, como o petróleo e o gás natural, cuja subida é prejudicial para o Ocidente, principalmente os EUA, numa altura sensível para a administração Trump, com eleições intercalares à vista.

Para o especialista, contudo, é "pouco provável" e não é de esperar uma resposta dos Estados do Golfo a não ser que haja uma grande escalada no conflito e sejam colocados “interesses vitais” em risco.

“Estes Estados não querem escalar a situação e continuarem a ser alvos do Irão. Não sabemos a capacidade de mísseis do Irão, mas sabemos que continua a ter drones. Para qualquer destes países do Golfo, ter de continuar a intercetar mísseis ou drones tem custos enormes. Depois, têm de ter intercetores disponíveis e podem não tê-los em quantidades suficientes”, diz Manuel Serrano.

“O segundo ponto é que não me parece que queiram escalar uma situação, sobretudo a partir do momento em que o presidente do Irão disse que não vão atacar mais os Estados do Golfo”, prossegue, mencionando que um ataque a uma central de dessalinização de água, por exemplo, mudaria o panorama uma vez que teria uns “custos incalculáveis e perigosíssimos para a região”, muito dependente destas infraestruturas.

Não por acaso o Irão afirmou este sábado, uma semana depois de a guerra iniciar, que a sua infraestrutura de dessalinização na ilha de Qeshm tinha sido atacada a partir de uma base aérea de um país do Golfo Pérsico. Teerão não esclareceu de onde veio esse ataque.

“Acho que nesse caso, em que são atacados interesses vitais, não só económicos, mas mesmo de sobrevivência de cidades e da população, obviamente, isso [ataques contra o Irão] podia estar em cima da mesa”, considera.

Apesar das palavras de Pezeshkian, Manuel Serrano manifesta dúvidas quanto ao cumprimento da paragem dos ataques, apontando como motivo as “lideranças descentralizadas” da Guarda Revolucionária Iraniana.

Um artigo do Financial Times publicado na terça-feira explica, citando uma fonte próxima da cúpula do regime iraniano, que a estratégia do Irão para este conflito foi delineada por Ali Khamenei e assenta em grande parte na descentralização das tomadas de decisão. A opção foi tomada após a Guerra dos Doze Dias, em junho do ano passado, durante a qual foram assassinados vários comandantes de topo da Guarda Revolucionária nas primeiras horas de hostilidades.

"As nossas unidades militares são agora, de facto, independentes e um pouco isoladas, e estão a agir com base em instruções gerais que lhes foram dadas antecipadamente", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, à Al Jazeera na segunda-feira.

Para Manuel Serrano, este facto dificulta a capacidade de atuação do Conselho Provisório, formado por três altas figuras da sociedade iraniana, incluindo Pezeshkian, pouco depois da morte de Ali Khamenei.

Os três membros do Conselho Provisório do Irão (da esquerda para a direita): o presidente do Supremo Tribunal, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei; o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian; e o membro do Conselho dos Guardiães, o aiatola Alireza Arafi (NurPhoto via Getty Images, AP, Creative Commons)

Outro fator que condiciona a atuação deste conselho é Ali Larijani, secretário do Conselho de Segurança Nacional do Irão, que o comentador da CNN Portugal descreve como “pragmático e intransigente, com uma visão do mundo muito particular relativamente ao regime, que nunca na vida aceitaria muitas das coisas que os Estados Unidos querem impor”. É Larijani que tem assumido grande parte da responsabilidade pela resposta militar do Irão aos ataques americanos e israelitas, diz Serrano, e as declarações de Pezeshkian deste sábado colocam os dois responsáveis em rota de colisão.

“Se isto [interrupção dos ataques aos países do Golfo] vai acontecer ou não, vai ser uma boa forma de medir que real influência que tem ou não este Conselho Provisório”, afirma o especialista.

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