A polícia iraniana recomeçou a fiscalizar o uso do véu islâmico, reporta a AFP esta segunda-feira, quase quatro meses após a morte da jovem Mahsa Amini.

De acordo com um alto funcionário da polícia à agência noticiosa Fars, as autoridades “iniciaram a nova etapa do programa Nazer-1 [vigilância em persa] em todo o país”, nova fase essa que corresponde à fiscalização do uso do hijab dentro dos veículos.

Se for detetada a ausência de hijab poderá ser enviada uma mensagem com uma advertência para a infratora. "A remoção do hijab foi observada no seu veículo: é necessário respeitar as normas da sociedade e garantir que esta acção não se repita", pode ler-se na mensagem, alegadamente enviada pelas autoridades.

Quando este sistema foi lançado, em 2020, a mensagem avisava o seu leitor de potenciais “consequências legais”, referência que aparenta ter desaparecido.

No dia 4 de dezembro, o procurador-geral do Irão, Mohamad Jafar Montazeri, deu a entender que o país avançaria para a extinção da polícia da moralidade do Estado teocrático.

"O hijab (véu islâmico) no país, especialmente na cidade sagrada de Qom, é uma das principais preocupações do poder judicial, bem como da nossa sociedade revolucionária, mas deve-se notar que a ação legal é o último recurso e medidas culturais precedem qualquer outro", justificou Montazeri no discurso num encontro com clérigos em Qom. A cidade de Qom é o centro teológico do Irão, onde estão localizadas as principais escolas religiosas do país e onde milhares de peregrinos e estudantes de todo o mundo visitam e estudam.

No entanto, a informação foi recebida com desconfiança, e foi prontamente desmentida pelo canal estatal Al- Alam, que acusou a "imprensa estrangeira" de "tentar interpretar estas palavras como se a República Islâmica estivesse a recuar na questão do hijab e da modéstia, alegando que isto se devia aos recentes protestos".

"Nenhuma fonte da República Islâmica do Irão disse que a Patrulha de Orientação tinha sido encerrada" e os comentários de Montazeri referem-se apenas a uma separação do poder judicial e da polícia da moralidade - que continuará sob supervisão do Ministério do Interior. 

O Irão vive protestos generalizados desde 16 de setembro, após a morte sob custódia policial da jovem curda Mahsa Amini, de 22 anos, que havia sido detida justamente pela polícia da moralidade por supostamente usar o véu islâmico de forma inadequada.

Os protestos incluem a exigência do fim da República Islâmica. “Isto não é um protesto, isto é uma revolução”, “não queremos a República Islâmica”, “morte ao ditador”, são algumas das frases que os manifestantes gritam nas manifestações de rua ou à noite das janelas das suas casas e escrevem nas paredes do prédio desde setembro passado.

CNN Portugal / com Lusa