"Mulher, Vida, Liberdade": Marjane Satrapi homenageia a luta das bravas mulheres do Irão, livres e sem véu - TVI

"Mulher, Vida, Liberdade": Marjane Satrapi homenageia a luta das bravas mulheres do Irão, livres e sem véu

A artista iraniana reuniu três especialistas e 17 ilustradores para contar ao mundo as histórias por trás dos protestos que, no último ano, têm assolado o país: "Este regime há de cair. A próxima revolta será fatal. Há coisas que não podemos parar. Como uma avalancha"

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Em 16 de Setembro de 2022, Mahsa Amini, uma jovem estudante iraniana, de 22 anos, foi detida e espancada até à morte pela polícia religiosa em Teerão por não usar o lenço imposto às mulheres pela República Islâmica. Após a sua morte, uma onda de protestos invadiu o país, usando o slogan “Mulher, Vida, Liberdade”. As manifestações foram reprimidas pelas autoridades com enorme violência e as notícias que desde então nos chegam do Irão não são animadoras. Ainda no final de outubro, Armita Garawand, uma jovem de 16 anos, morreu depois de ter estado um mês em coma. Segundo as ONG, Amita tinha ficado gravemente ferida durante um ataque por parte de membros da polícia moral, responsável por fazer cumprir a obrigação das mulheres iranianas de usarem o véu islâmico em público.

Mas, apesar de tudo, Marjane Satrapi está otimista. Para assinalar o aniversário da morte de Mahsa, a artista iraniana organizou o livro “Mulher, Vida, Liberdade” (publicado em Portugal pela Iguana, chancela da Penguin Random House) no qual homenageia a luta das mulheres ao logo da história do Irão, lembrando as tradições mais ancestrais, a Revolução de 1979, o papel da Guarda Revolucionária, o medo que domina a sociedade e, finalmente, os muitos protestos que têm acontecido e o modo como têm sido violentamente travados. Para contar estas histórias, Satrapi convidou 17 ilustradores de diferentes origens e três especialistas sobre o Irão. O resultado é impressionante. As ilustrações, com estilos muito diferentes, mostram aquilo que é impossível fotografar ou filmar: os sonhos dos jovens iranianos, a determinação das mulheres que se recusam a colocar o véu e a baixar os braços, a vida dentro das prisões, a esperança no mundo melhor.

Nas palavras de Satrapi, o livro tem duas intenções: a primeira é “explicar o que se passa no Irão” e a segunda é “lançar um sinal aos iranianos para os lembrar de que não estão sozinhos”. Artista, realizadora e escritora iraniana, Marjane Satrapi Satrapi, atualmente com 53 anos, cresceu em Teerão numa família ocidentalizada - o seu pai era engenheiro e a sua mãe estilista. Após a Revolução Iraniana de 1979, a vida da família complicou-se e, em 1984, os pais decidiram mandá-la estudar para a Áustria. Em 1993, instalou-se em França. Satrapi tornou-se conhecida quando publicou os livros “Persépolis” (2000) e “Persépolis 2” (2001) em França; que foram traduzidos para inglês, em 2003, num único volume, “Persépolis: a história de uma infância”. Trata-se de um livro de memórias gráfico, em que recorda a sua juventude no Irão. O livro foi adaptado para cinema pela própria Satrapi, em 2007, e foi nomeado para o Óscar de melhor filme de animação. Depois disso, continuou a publicar outros livros, incluindo a continuação de “Persépolis”, e tem sido uma das vozes mais constantes na defesa das mulheres iranianas.

Página do capítulo "Revoltar-se aos vinte anos", de Paco Roca & Farid Vahid

“Quando era mais nova tínhamos esperança que iríamos viver num mundo melhor e num Irão melhor, e, afinal, a situação não mudou”, confessou numa entrevista recente a Christiane Amanpour, na CNN Internacional. Mas, ao mesmo tempo, admite que tem muita esperança nesta nova geração que tem saído para a rua em protesto: “Estas demonstrações são muito diferentes de tudo o que tínhamos visto no Irão. Desta vez, as mulheres não estão sozinhas. Esta nova geração de rapazes está com elas. Eles não querem este sistema, querem uma democracia. Não acreditam na reforma do sistema porque o sistema é uma ditadura. Pedem uma mudança de regime”, explica. “Isso dá-me muita esperança. Sempre achei que um dos grandes inimigos da democracia era a sociedade patriarcal.” Satrapi lembra que “quando a revolução iraniana aconteceu, apenas 40% da população sabia ler e escrever. Agora são 80%. Estes jovens nasceram já com internet, têm acesso a informação de todo o mundo”, por isso estão muito mais bem preparados para lutar.

“Não se trata de uma erupção inesperada, mas sim de uma convulsão assinalável na longa história das mulheres a afirmarem os seus direitos, e é certo que prosseguirá”, afirma Marjane Satrapi na abertura do volume “Mulher, Vida, Liberdade”. “No Irão, como em todo o lado, as mulheres lutam não só para se libertarem a elas próprias, mas também para ajudarem os homens a escapar da casa-prisão engendrada pelo seu chauvinismo.” A artista acredita que, apesar de ter tido a sua origem na luta das mulheres, o movimento atual é muito vasto e, por isso, tem muito mais hipóteses de sair vencedor.

Em “Mulher, Vida, Liberdade”, conta-se a origem deste slogan, assim como da canção “Barâyeh”, que se tornou o hino da revolta, lembram-se as e os ativistas mais antigos e aqueles que, por se recusarem a ficarem calados, foram feitos prisioneiros ou foram mortos. Duas das páginas do livro são dedicadas a Narges Mohammadi, que, pouco depois da edição seria laureada com o Prémio Nobel da Paz. Em 2022, ela publicou o livro “Tortura Branca: Entrevistas com Prisioneiras Iranianas”, com testemunhos das suas companheiras, mulheres que, como ela, cometeram o crime de lutar pela sua liberdade e autodeterminação, quer recusando-se a usar o hijab, quer defendendo mulheres que o tenham feito.  A explicação sobre o que é a “tortura branca” encontra-se neste livro: “a presa é isolada numa sala completamente branca, sem qualquer noção do tempo, do dia e da noite… e o branco começa a apoderar-se do corpo, do cérebro, da alma… e a personalidade da presa dissolve-se totalmente”, explica-se, numa página que é progressivamente invadida de branco e onde as letras e os desenhos vão ficando cada vez menos nítidos.

Narges Mohammadi, no capítulo "Elas dizem não", de Nicolas Wild e Jean-Pierre Perrin

Narges Mohammadi, de 51 anos, não estará presente na cerimónia de entrega do Nobel que se realiza no próximo dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, na Câmara Municipal de Oslo, na Noruega. Será representada pelos seus filhos, Ali e Kiana Rahman, de 17 anos. Eles receberão o diploma e a medalha de ouro e farão o discurso em nome da sua mãe, que se encontra presa no Irão. Na verdade, há já oito anos que os filhos não a veem

Mohammadi recebe o Nobel pela "sua luta contra a opressão das mulheres no Irão e para promover os direitos humanos e a liberdade para todos". A ativista tem estado presa durante a maior parte das últimas duas décadas. Foi condenada repetidamente pela sua campanha implacável contra a pena de morte e em defesa das liberdades individuais, nomeadamente a liberdade de expressão. Neste momento está na prisão de Evin a cumprir uma pena de 10 anos e 9 meses, acusada de ações contra a segurança nacional e de propaganda contra o Estado. Mesmo na prisão, Narges Mohammadi continua a lutar, tem mobilizado as reclusas e tem conseguido enviar as suas mensagens para exterior. Depois da detenção da mãe, em 2015, os filhos mudaram-se com o pai, Taghi Rahmani, para França. E, nos últimos 18 meses, como castigo por se recusar a ser silenciada atrás das grades, Mohammadi foi proibida de falar diretamente com o marido e com os filhos.

Após a entrega do Nobel, no dia 11 de dezembro, também em Oslo, realiza-se o Fórum do Prémio Nobel da Paz, este ano com o tema: “Iran: Burning for Democracy”. O evento centrar-se-á na luta pelos direitos humanos e pela democracia no Irão, com ênfase na situação das mulheres, e contará com a participação de diversos ativistas e especialistas em questões humanitárias, entre os quais Marjane Satrapi. Provavelmente, nessa ocasião, irá falar do "novo amanhã" em que tanto acredita. Como diz Marjane, transformada em personagem no último capítulo do livro: "Este regime há de cair. A próxima revolta será fatal. Fizeram quarenta e cinco anos, não chegarão aos cinquenta. Há coisas que não podemos parar. Como uma avalancha."

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