"Cientistas, bibliotecas, arquivos, laboratórios, pessoas que trabalham nesses locais": são todos alvos de assassínios ordenados por Israel / EUA - TVI

"Cientistas, bibliotecas, arquivos, laboratórios, pessoas que trabalham nesses locais": são todos alvos de assassínios ordenados por Israel / EUA

  • CNN
  • Mostafa Salem e Tal Shalev
  • 7 abr, 12:09
IMAGEM DE ARQUIVO - Esta imagem de satélite fornecida pela Vantor mostra o complexo nuclear de Natanz, no Irão, a 7 de março de 2026, sem novos danos visíveis na instalação ou nos túneis. (Imagem de satélite ©2026 Vantor via AP, arquivo)
Vantor/AP

OGIVAS NUCELARES | Os assassínios de Mohammad Reza Kia, Ali Fouladvand, Jabal Amelian mostram até onde Israel e EUA estão dispostos a ir. "Cada elo da cadeia de produção nuclear é um alvo – desde a base de conhecimento até à produção. O objetivo é cortar todas as raízes"

EUA e Israel querem eliminar conhecimento nuclear do Irão antes de a guerra terminar

por Mostafa Salem e Tal Shalev, CNN

 

Enquanto a chuva caía sobre as províncias do norte do Irão no final de março, uma multidão em luto serpenteava pelas montanhas de Asara, transportando o caixão de Mohammad Reza Kia. A cidade, com apenas alguns milhares de habitantes, estava coberta de faixas que agora exaltavam o jovem cientista nuclear como “mártir da guerra imposta”.

Reconstituir informações sobre Kia e as circunstâncias da sua morte obscura é difícil, mas há duas semanas a sua mãe disse, num breve vídeo, que ele foi morto num ataque.

Além de alguns artigos científicos atribuídos a Mohammad Reza Kia e de uma página de redes sociais inativa com o seu nome, a única informação disponível é que foi doutorando no Departamento de Engenharia Nuclear da Universidade de Tecnologia Amirkabir, entre 2010 e 2017.

A morte de Kia e de inúmeros cientistas iranianos em todo o país demonstra até onde Israel e os Estados Unidos estão dispostos a ir para garantir que a capacidade de Teerão de militarizar o seu programa nuclear seja significativamente reduzida após o fim da guerra.

Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que os Estados Unidos estão no caminho certo para atingir os seus objetivos na guerra com o Irão – incluindo impedir Teerão de desenvolver uma arma nuclear – e sugeriu que o conflito poderia durar mais duas a três semanas. No entanto, o Irão ainda mantém centenas de quilos do componente essencial para construir uma bomba, bem como décadas de conhecimento acumulado. À medida que EUA e Israel procuram encerrar a guerra, estão determinados a atingir esse conhecimento para enfraquecer o programa nuclear.

Lista de alvos

Ao longo das últimas décadas, o Irão construiu um vasto ecossistema de conhecimento em torno do seu programa nuclear — departamentos universitários, maquinaria especializada e um sistema robusto que inclui mineração doméstica de urânio, processamento, enriquecimento com centrifugadoras avançadas e armazenamento em reservas. Especialistas dizem que, mesmo que o programa iraniano seja pacífico, Teerão tem a estrutura necessária para transformá-lo em militar, se assim o decidir.

Uma fonte de segurança israelita afirmou que tudo isso está na lista de alvos.

Poucos dias após o funeral de Kia, outro ataque atingiu um edifício a cerca de 480 quilómetros de distância, matando nove pessoas — incluindo Ali Fouladvand, um cientista responsável pela investigação numa organização de referência há muito acusada por potências ocidentais e por Israel de servir de fachada para adquirir conhecimento necessário à militarização do programa nuclear iraniano.

O fundador da organização, conhecida pelo acrónimo persa SPND, foi Mohsen Fakhrizadeh, um importante cientista nuclear que se acredita amplamente ter sido assassinado por Israel há seis anos. O atual presidente da organização, Jabal Amelian, foi morto na vaga inicial de ataques israelitas e norte-americanos no final de fevereiro, enquanto outras figuras de topo têm sido sistematicamente visadas por Israel desde o ano passado.

“Cada elo da cadeia de produção nuclear é um alvo – desde a base de conhecimento até à produção. O objetivo é cortar todas as raízes”, disse uma fonte de segurança israelita à CNN. “Desde as pessoas que trabalham nos laboratórios até às fábricas que produzem componentes para esses laboratórios.”

Quando os Estados Unidos e Israel lançaram a guerra contra o Irão no mês passado, o líder supremo da República Islâmica, aiatola Ali Khamenei, e os seus principais responsáveis militares e de inteligência foram mortos numa operação direcionada destinada a eliminar as principais figuras do regime.

Israel parece ter assumido a liderança no assassínio até de figuras de nível mais baixo ligadas ao programa nuclear iraniano, ao mesmo tempo que degrada sistematicamente centros de conhecimento que poderão ser úteis no futuro.

Duas mulheres iranianas ao lado de um cartaz com o retrato do cientista nuclear iraniano Mohammad Mehdi Tehranchi, morto em ataques israelitas foto Morteza Nikoubazl/NurPhoto/Getty Images

A estratégia de Israel expandiu-se em junho de 2025. Eliminou os principais responsáveis pela força aeroespacial dos Guardas Revolucionários — os comandantes responsáveis pelas capacidades de mísseis do Irão, que podiam ajudar no desenvolvimento de uma ogiva nuclear — ao mesmo tempo que visou mais de uma dezena dos principais professores e académicos nucleares do país, incluindo Mohammad Mehdi Tehranchi, um dos físicos mais notáveis do Irão.

“Israel está a atingir todas as fases do processo de produção – incluindo fábricas de ferro e aço que não fazem diretamente parte da indústria militar, mas que podem vir a contribuir para reconstruir o processo de produção”, revelou a fonte.

Está também a atingir departamentos específicos nas universidades, ao mesmo tempo que tenta degradar significativamente a complexa cadeia de abastecimento necessária para manter o programa nuclear do Irão.

“Em termos de conhecimento – cientistas, bibliotecas, arquivos, laboratórios químicos, as pessoas que trabalham em todos estes locais – e também os quadros que os poderiam substituir” são todos alvos, acrescentou a fonte à CNN.

Potencial militarização

Mesmo com o Irão a insistir que o seu programa nuclear é inteiramente pacífico, as nações ocidentais suspeitam há muito que Teerão utiliza empresas de fachada para contornar a monitorização internacional e desenvolver tecnologias de dupla utilização que podiam ser rapidamente adaptadas para fins militares, caso essa decisão fosse tomada.

Nicole Grajewski, professora assistente no Centro de Estudos Internacionais da Sciences Po, em Paris, observa que especialistas em matéria nuclear acreditam que o Irão realizou testes de diagnóstico, modelação de efeitos nucleares e simulações de detonação, todos sinais de que Teerão estava a adquirir o conhecimento necessário para militarizar o seu programa quando assim o desejasse.

Avaliações dos serviços de informações dos Estados Unidos indicam que não há provas de que o Irão estivesse a tentar militarizar o seu programa nuclear, mas especialistas dizem que o país utilizou o seu estatuto de Estado limiar nuclear — capaz de construir uma bomba — como forma de pressão nas negociações com o Ocidente.

Esta fotografia de arquivo de 15 de janeiro de 2011 mostra a instalação nuclear de água pesada perto de Arak, a 250 quilómetros a sudoeste da capital Teerão, Irão foto Hamid Foroutan/ISNA/AP

Responsáveis iranianos na altamente sancionada SPND criaram uma rede de organizações subordinadas destinada a desenvolver competências e adquirir tecnologias de dupla utilização que, segundo os Estados Unidos, visam obter o conhecimento necessário para a militarização nuclear.

“O Irão é o único país no mundo sem armas nucleares que está a produzir urânio enriquecido a 60% e continua a usar empresas de fachada e intermediários para ocultar os seus esforços de aquisição de itens de dupla utilização junto de fornecedores estrangeiros”, afirmou o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, num comunicado ao anunciar sanções contra a SPND no ano passado.

Um componente-chave para uma bomba nuclear

Depois de Donald Trump ter retirado os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão, alcançado pela administração Obama em 2015, Teerão começou a instalar centrifugadoras avançadas para acelerar o enriquecimento de urânio. Conseguiu acumular uma reserva significativa de urânio altamente enriquecido — suficiente para construir uma arma nuclear.

Mais de 400 quilos de urânio altamente enriquecido foram acumulados no Irão, levantando sérias preocupações entre agências internacionais, que questionaram por que razão a República Islâmica necessitaria de tal quantidade se o seu programa fosse verdadeiramente pacífico. O nível de enriquecimento necessário para produção de energia nuclear é inferior a 4%, mas o Irão passou a enriquecer urânio até 60% após a retirada dos EUA do acordo em 2018.

Quando Israel e os Estados Unidos atacaram as fortemente protegidas instalações nucleares iranianas no ano passado, o destino desse urânio altamente enriquecido tornou-se cada vez mais incerto. O diretor da agência nuclear das Nações Unidas, Rafael Grossi, disse numa entrevista à PBS, publicada na sexta-feira, que se acredita que o material esteja em Isfahan e que poderá eventualmente ser deslocado.

“Os locais nucleares que destruímos… foram atingidos com tal intensidade que levaria meses até sequer se aproximarem do pó nuclear”, afirmou Trump num discurso na semana passada. Numa entrevista à Reuters a 1 de abril, acrescentou que o material enriquecido está “tão profundamente enterrado que não me preocupa”.

Antes dessas declarações, o Wall Street Journal citou responsáveis norte-americanos que indicavam que Trump estava a ponderar uma operação militar para extrair o urânio, embora nenhuma decisão tivesse sido tomada.

ISFAHAN, IRÃO — 14 DE JUNHO DE 2025: Imagem de satélite da Maxar mostra danos generalizados na instalação de enriquecimento de Isfahan após alegados ataques aéreos foto Maxar/Getty Images

O Irão tem sido deliberadamente vago quanto ao acesso a esse material, mas ofereceu-se para o diluir durante negociações com os Estados Unidos antes do início da guerra, em fevereiro.

“Essa foi uma grande oferta, uma grande concessão para provar que o Irão nunca quis armas nucleares e nunca as quererá”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, à CBS no mês passado.

Apesar de Israel ter visado infraestruturas-chave para degradar o programa nuclear iraniano, Grajewski afirmou que as reservas de urânio e os anos de conhecimento técnico acumulado seriam suficientes para construir uma bomba simplificada do tipo “canhão”, caso o país decidisse mudar de postura.

“O Irão ainda pode criar uma arma nuclear, é apenas uma questão de vontade política”, assegurou Grajewski. “Se a guerra terminar, o Irão poderia teoricamente avançar rapidamente para a militarização num prazo de um a dois anos.”

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