Esta história começa assim: casas à venda a 11.000€ prontas a habitar - TVI

Esta história começa assim: casas à venda a 11.000€ prontas a habitar

  • CNN
  • Silvia Marchetti, CNN
  • 21 ago 2023, 20:19
Itália

Esta família vai mudar-se para Itália. Cansaram-se dos Estados Unidos

por Silvia Marchetti, CNN

Enquanto dezenas de cidades italianas vendem casas antigas a baixo preço, os estrangeiros que se apressam a comprar uma estão muitas vezes à procura de um local cheio de sol para passar uma temporada ou de um retiro de férias ou apenas para viver o sonho italiano.

Mas esta família americana comprou uma casa para começar uma vida nova longe dos Estados Unidos.

Em 2019, a família Dawkins - Nadine, 59 anos, o marido, Kim, 61 anos, e os filhos Lorenzo, 29 anos, e DeNae, 27 anos - comprou uma casa encantadora na cidade de Latronico. Na região sul de Basilicata, a cidade de 4.000 habitantes está situada no Parque Nacional de Pollino e rodeada de fontes termais.

Ficaram entusiasmados depois de lerem o artigo da CNN (intitulado "Agora pode mudar-se para uma casa italiana por apenas 12.000 dólares" - cerca de 11.000€) sobre a iniciativa de Latronico de vender casas baratas que já estão habitáveis. A cidade anuncia num site específico os imóveis disponíveis.

Ao ler o artigo, sentada na sua casa em El Paso, Texas, Nadine Dawkins, oficial reformada do exército norte-americano e agora empresária, sentiu que os seus antepassados a chamavam às origens.

O seu trisavô era italiano e foi para a América no século XIX. "Depois de ouvir as histórias da minha nonna, sempre senti uma ligação a Itália", conta à CNN Travel.

"Como militar destacada na região muitos anos mais tarde, prometi regressar. Anos mais tarde, o meu marido e eu trouxemos os nossos filhos para eles saberem de onde vêm.”

O seu bisavô adotou um nome americano quando chegou aos Estados Unidos: Clint Jeffrey. Nadine não sabe muito sobre a sua trisavó, Lucinda, que era uma mulher escravizada numa plantação do Arkansas quando Jeffrey a comprou, e "viveu o resto dos seus dias com ela", diz Nadine.

"Infelizmente, não tenho mais informações sobre Lucinda. Tudo o que sei é que ela era uma escrava e que ele a comprou. A minha avó e a minha bisavó nunca me disseram mais nada sobre ela. Creio que foi por causa das atrocidades que a escravatura e as memórias dela lhes causaram porque, claro, o século XIX e o início do século XX foi um período difícil para todos os negros na América."

Nadine e Kim Dawkins planeiam mudar-se para Itália (créditos Nadine Dawkins)

A família decidiu que queria deixar os EUA em 2020, após o assassinato de George Floyd.

"O assassinato de George Floyd mostrou ao mundo como nós, os negros americanos, temos sido tratados durante séculos", diz Nadine. "Todo o racismo, toda a polarização, todo o ódio que a última administração [Trump] fez vir ao de cima provocou um êxodo de pessoas negras que têm os meios para o fazer.”

"Basicamente, a brutalidade policial contra os negros, os tiroteios em massa perpetrados por terroristas domésticos e o ódio generalizado neste país são a razão pela qual estamos a deixar os EUA."

O interior da aldeia italiana que está a ser repovoada por americanos

A mudança segue-se a uma carreira de 30 anos de Nadine no exército, enquanto Kim Dawkins trabalha para o governo dos EUA.

A família mudar-se-á em breve para o Panamá antes de dar o salto final para o outro lado do Atlântico, para Latronico.

Nadine não sabe exatamente de onde vieram os seus antepassados, mas comprar uma das casas baratas de Latronico pareceu-me uma boa maneira de se reconectar com as suas raízes. "Estava acordada a meio da noite durante a covid, com muito tempo para ler, quando me deparei com a história da CNN. Enviámos imediatamente um e-mail ao vice-presidente da Câmara, Vincenzo Castellano, e procurámos propriedades na Internet. Não estávamos à espera - ele contactou-nos logo no dia seguinte. Marcámos uma videochamada e ele enviou-nos um vídeo da casa que tínhamos escolhido. Isso selou o nosso destino: comprámos a casa sem a ver, sem ir a Itália."

“Quando algo está certo, está certo e pronto”

A sua casa em Latronico estava pronta a habitar (créditos https://casalatronico.eu/)

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Os Dawkins estão gratos por terem encontrado em Latronico uma equipa de sonho - Castellano e a sua assistente Mariangela Tortorell - para os ajudar a navegar pelo processo de venda e a encontrar empresas locais para remodelar e mobilar a nova casa.

De facto, confiavam tanto em Castellano - que lançou o projeto de habitação - que lhe passaram uma procuração para todas as questões técnicas, bem como para a tradução da escritura de compra para inglês.

A casa no bairro histórico de Latronico precisou de poucas obras para se adaptar às necessidades da família, embora o exterior tenha sido pintado de fresco.

A casa de três andares pertencia a uma mulher de "classe alta", é assim que Nadine descreve a a antiga proprietária, mulher, que tinha decorado o espaço com muito bom gosto, com peças de mobiliário antigo.

A casa foi comprada com duas camas, um roupeiro e vários objetos pequenos, incluindo chávenas de porcelana.

A família acrescentou duas casas de banho, uma vez que todas as casas antigas de Latronico têm apenas uma. Há dois quartos, uma cozinha que se transformou numa enorme sala de jantar e uma adega subterrânea.

Todas as janelas foram protegidas com redes mosquiteiras e as varandas panorâmicas com vista para a igreja principal foram alargadas, para que a família possa desfrutar do café expresso da manhã e do aperitivo da noite ainda com mais conforto.

"Escolhemo-la imediatamente e começámos a tratar da papelada - quando algo está certo, está certo. Sem soluços", diz Nadine.

As escrituras de propriedade foram assinadas em 2021 e o custo final total da casa foi de 42.000 euros (46.700 dólares).

O casal quase não precisou de fazer grandes obras (créditos https://casalatronico.eu/)

 
"A equipa de Vincenzo tornou todo o processo muito fácil. Confio-lhes a minha vida e chamo-lhes 'os meus sobrinhos'. Se houver algum problema, posso contar com eles." A família contratou Castellano como gestor da propriedade.

Teria sido difícil fazer tudo sozinha.

"Sozinha, apercebi-me dos problemas com que me teria deparado - por exemplo, a barreira linguística. Eles atuaram como meus intermediários."

Nadine quer impulsionar o intercâmbio linguístico, ensinando inglês aos jovens locais quando se mudar para Latronico e pretende ajudar a colocar a aldeia um pouco mais no mapa turístico da zona.

"Adoramos as pessoas. Nunca encontrámos uma única pessoa má, toda a gente oferece café. Um dia conhecemos um senhor numa loja e basicamente tornámo-nos amigos próximos. Levou-nos a tomar um café em casa dele, apesar de eu nem sequer beber café."

Construir uma nova vida

Kim e a sua mulher Nadine tencionam pedir um visto de residência eletivo (créditos Nadine Dawkins)

Durante as visitas, os Dawkins aproveitaram o ritmo de vida mais lento, sentaram-se na porta da frente a observar as pessoas e escutaram as lutas dos gatos nos becos silenciosos.

Para já, tencionam passar seis meses por ano em Itália (utilizando a regra dos "90 dias em cada 180 dias" que os cidadãos que não são europeus têm de respeitar) e depois requerer um visto de "residência eletiva" permanente, que exige um determinado montante anual de rendimentos passivos. O resto do seu tempo será passado no Panamá.

A prazo, pretendem adquirir a cidadania italiana.

Clint Jeffrey era o antepassado italiano de Dawkins  (créditos Nadine Dawkins)

Uma vez em Itália, Nadine espera poder começar a descobrir a verdadeira identidade e as origens do seu antepassado italiano. Não sabe exatamente de que parte de Itália ele veio, mas guarda uma fotografia antiga dele numa grossa moldura de madeira.

Sobre Lucinda - cujo apelido deve ter sido o nome da plantação onde foi escravizada, acredita Nadine - diz que "a história dos negros americanos se perdeu" ou foi erradicada da cultura americana.

"Precisamos de sair da América, por isso vamos embora. Os Estados Unidos são um país dividido e divisivo, os direitos de voto estão a ser reduzidos e a história dos negros está a ser desfeita. Estou cansada", diz Nadine.

Kim, por seu lado, diz que o único desafio em Latronico foi ultrapassar as barreiras linguísticas e habituar-se ao isolamento.

"As pessoas têm paciência para esperar que eu use o tradutor do telefone e a aldeia é remota, por isso é preciso um veículo para nos deslocarmos além dos locais que ficam a uma curta distância", conta.

"Mas o melhor de tudo é que, mesmo à noite, podemos deixar as chaves na porta. É um sítio calmo e seguro que nos dá paz de espírito."

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