Duas menores de 10 e 12 anos foram violadas repetidamente ao longo de meses numa zona degradada da cidade italiana de Caivano - TVI

Duas menores de 10 e 12 anos foram violadas repetidamente ao longo de meses numa zona degradada da cidade italiana de Caivano

  • CNN Portugal
  • MJC
  • 6 set 2023, 08:00

Não é o único caso que está a chocar o país: há duas semanas um grupo de sete jovens foi acusado de violar uma rapariga de 19 anos - levaram-na para um armazém isolado onde a violaram e espancaram, filmaram tudo. Quando foi revelada a identidade da rapariga, a página de Instagram dela ficou repleta de insultos (nota do editor: este texto contém descrições e linguagem explícitas que podem ferir a suscetibilidade dos leitores)

Duas raparigas de 10 e 12 anos foram violadas repetidamente ao longo de meses numa zona degradada da cidade italiana de Caivano, nos arredores de Nápoles. As duas menores, primas, cresceram em famílias problemáticas em habitações públicas no bairro de Rione I.A.C.P.. Após se ter sabido o que aconteceu, um tribunal de menores decidiu transferi-las para uma família de acolhimento. O caso está sob investigação e nenhuma acusação foi feita ainda, embora se suspeite que o crime foi cometido por um grupo de seis adolescentes, entre os quais dois filhos de membros da Máfia.

O crime só se tornou notícia na semana passada, tendo já chegado ao New York Times, e relançou o debate sobre a violência contra mulheres e menores em Itália. Estas agressões estão entre uma série de crimes que foram notícia neste verão. Há duas semanas, um grupo de sete jovens, entre os quais um de apenas 17 anos, foi acusado de violar uma rapariga de 19 anos em Palermo. Conheceram-na num clube no centro da cidade e, segundo a polícia, persuadiram o barman a servir-lhe várias bebidas, incentivaram-na a fumar marijuana e depois levaram-na para um armazém isolado, onde a violaram e espancaram e filmaram os abusos. Uma imagem de um vídeo de segurança mostrava-os a carregá-la pelas ruas, já que a rapariga mal conseguia andar. 

Os jornais italianos publicaram excertos de alegadas conversas de WhatsApp dos rapazes, onde eles referiam o caso, vangloriando-se. A noite foi descrita como "100 gatos em cima de uma cadela" - e, numa conversa gravada, um dos violadores é citado a dizer que o que estava a acontecer era nojento porque eram "demasiados" em cima dela mas justificou o seu ato dizendo que "carne é carne".

Por fim, os nomes e endereços dos acusados no caso tornaram-se públicos e as suas contas nas redes sociais ficaram repletas de insultos. Mas o mesmo aconteceu com a conta de Instagram da rapariga. Em entrevista a um jornal italiano, a jovem admitiu ter pensamentos suicidas. As autoridades acabaram por levá-la para um abrigo. Centenas de pessoas, incluindo algumas celebridades, expressaram o seu apoio à jovem com a hashtag “Eu não sou carne”. 

Antes destes casos houve outros de mulheres esfaqueadas, baleadas ou envenenadas pelos seus parceiros. Todos estes casos provocaram debate em Itália sobre o facto de a violência contra as mulheres ser tantas vezes negligenciada, sobre o enorme machismo da sociedade e sobre o papel amplificador desempenhado pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais. Na quinta-feira, a primeira-ministra, Giorgia Meloni, visitou o bairro de Parco Verde, em Caivano, cidade operária de 37.800 habitantes onde a violência e a toxicodependência fazem parte do dia-a-dia. Primeira mulher italiana a ocupar o cargo e a primeira líder da extrema direita no pós-guerra, Meloni passou por cima das muitas questões relativas às mulheres, concentrando-se em vez disso na lei e ordem, designando os crimes como “bárbaros”.

A primeira-ministra durante a visita a Caivano, em Nápoles, após o caso de violação de duas menores de 10 e 12 anos (GettyImages)

“Este território será limpo e em breve vão ver os resultados da nossa presença aqui”, disse a primeira-ministra, referindo-se aos problemas da “criminalidade e das drogas”. Prometeu reabrir o centro desportivo, construir uma nova biblioteca multimédia e enviar mais professores para as escolas de Caivano, além de reforçar o policiamento. “Não pode haver regiões sem Estado em Itália”, disse Meloni. Após a violência, as autoridades locais já tinham garantido a presença de mais polícias a patrulhar as ruas. Mais de 400 polícias participaram entretanto em diversas ações integradas na operação "Alto Impatto" (Alto Impacto): foram revistados esconderijos de droga, identificados suspeitos e encontrado um saco com 30 mil euros em dinheiro.

“O governo Meloni está determinado em repor a segurança, a lei e a ordem em todo o território nacional, começando pelas áreas que estão em dificuldades há muito tempo”, disse o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, citado pela agência ANSA. "Começámos com as grandes estações ferroviárias nas grandes cidades, depois em Ostia e hoje em Caivano. Nos próximos dias iremos intervir noutros locais problemáticos. O Estado está a trabalhar para trazer de volta a segurança a todos os subúrbios do país.”

As potenciais novas medidas que estão a ser consideradas pelo governo vão desde a possibilidade de ordenar a expulsão de determinadas zonas urbanas de menores entre os 14 e os 18 anos, até advertências verbais do comissário de polícia para a mesma faixa etária, passando pelo reforço da luta contra a disseminação de armas de fogo. Também está a ser preparado um pacote de sanções para as famílias que permitam o abandono escolar de adolescentes antes dos 16 anos.

Mas nem todos concordam com esta abordagem. “Não precisamos de mais polícias”, comentou um morador ao New York Times. “Precisamos de mais tempo na escola, de mais assistentes sociais e de mais psicólogos para ajudar as crianças de famílias que não podem cuidar delas.” Bruno Mazza, presidente da organização Uma Infância para Vive (Un’infanzia da vivere) - que realiza as únicas atividades para crianças naquele bairro - sublinha, citado pelo New York Times, que "agora que estas meninas estão seguras temos de pensar em todas as outras crianças que vivem aqui".

Existe uma visão generalizada em Itália de que as mulheres vítimas de abuso são de alguma forma culpadas, seduzindo os agressores

Alguns especialistas dizem que os casos de violência contra mulheres e raparigas não estão necessariamente a crescer mas recebem mais atenção sensacionalista nos meses de verão, quando há menos notícias. Em Itália, 27% das mulheres afirmam ter sofrido violência, um número que está aproximadamente em linha com os de outros países europeus. “Estes são casos muitos falados mas infelizmente não são novidade”, diz ao New York Times Antonella Veltri, presidente da Rede de Mulheres Contra a Violência, que tem abrigos em todo o país. “Este é um fenómeno cultural, profundamente enraizado numa sociedade machista. Agora torna-se ainda mais horrível com as redes sociais, que funcionam como um megafone.”

De acordo com um relatório recente da agência nacional de estatísticas ISTAT, ainda existe uma visão generalizada em Itália de que as mulheres vítimas de abuso são de alguma forma culpadas, seduzindo os agressores. Essa atitude foi reiterada esta semana por Andrea Giambruno, apresentador de um canal de televisão nacional, que também é companheiro de Meloni e pai da sua filha. Todos têm direito a divertir-se e até a ficarem bêbedos, disse ele, mas se as mulheres não se embriagassem podiam evitar “serem apanhadas pelo lobo”. A afirmação causou polémica, sobretudo entre políticos e ativistas de esquerda. A primeira-ministra não fez qualquer comentário.

A ideia de que as ações ou o vestuário das mulheres podem desencadear violência existe até nos tribunais em Itália. Este ano, por exemplo, um tribunal de Florença absolveu dois jovens de 19 anos acusados de violar uma rapariga de 18 anos numa festa concluindo que houve uma “perceção equivocada de consenso”, uma vez que ela tinha dormido com um deles no passado. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e as autoridades da ONU já condenaram várias vezes os tribunais italianos por decisões em casos de violação que utilizaram linguagem ofensiva: um absolveu o acusado e disse que ele tinha sido “apaixonado” e outra vítima foi definida como “desinibida”.

Este tratamento desencoraja as mulheres a denunciarem os abusos, diz ao New York Times Ilaria Boiano, advogada da associação Differenza Donna, que gere o número de emergência nacional para mulheres vítimas de violência. “Os últimos casos são apenas a ponta do iceberg, infelizmente. Muitas mulheres nem sequer fazem a denúncia.”

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