O Japão está a ficar sem herdeiros. Porque continua a impedir mulheres de serem imperatrizes? - TVI

O Japão está a ficar sem herdeiros. Porque continua a impedir mulheres de serem imperatrizes?

  • CNN
  • Hanako Montgomery, Junko Ogura e Chris Lau
  • 8 ago, 16:00
O imperador Naruhito do Japão (terceiro a contar da esquerda) acena às pessoas presentes, ao lado de membros importantes da família imperial, no Palácio Imperial, a 23 de fevereiro de 2026, em Tóquio, Japão. The Asahi Shimbun/Getty Images

O Japão enfrenta uma crise de sucessão imperial, com apenas três homens elegíveis para o trono e dois deles com 60 anos ou mais. O Governo pretende recuperar antigos ramos da família imperial para aumentar o número de sucessores masculinos, mas continua a excluir as mulheres, apesar do apoio popular à possibilidade de uma imperatriz

O Japão pode ter a sua primeira mulher como primeira-ministra, mas as tentativas do seu Governo para evitar uma crise de sucessão imperial estão a tornar cada vez mais remotas as hipóteses de uma mulher subir ao trono.

Com apenas três herdeiros elegíveis para o trono do Crisântemo — e dois deles com 60 anos ou mais —, a família imperial enfrenta uma crise de sucessão.

Durante séculos, a monarquia japonesa manteve uma sucessão exclusivamente masculina, algo em linha com uma sociedade profundamente patriarcal, na qual os homens dominam outras esferas da vida, como os negócios e a política.

Agora, essa regra ameaça a própria sobrevivência da monarquia mais antiga do mundo, que, nas últimas décadas, teve mais filhas do que filhos.

Para resolver a escassez de herdeiros, ministros do Governo propuseram reintegrar antigos ramos da família imperial, aumentando assim o número de possíveis sucessores masculinos. As alterações aguardam aprovação parlamentar.

Mas a proposta levou académicos, políticos da oposição e alguns cidadãos a questionarem: porque não permitir simplesmente que as mulheres subam ao trono?

“Nenhuma base racional”

“É difícil encontrar qualquer base racional para recusar permitir que uma mulher se torne imperatriz”, afirmou o professor Makoto Okawa, que estuda a linhagem imperial na Universidade Chuo, em Tóquio.

O Japão teve anteriormente oito imperatrizes, sobretudo em períodos em que os herdeiros masculinos eram demasiado jovens para governar, até que a Lei da Casa Imperial foi promulgada em 1889, durante a era Meiji, proibindo oficialmente as imperatrizes.

Apesar da lei, a Constituição do país não impede as mulheres de subirem ao trono, afirmou Okawa, nem a exclusão destas pode ser considerada uma “tradição japonesa”.

“A ideia de excluir antecipadamente as mulheres, considerando-as pessoas incapazes de se tornarem imperatrizes, deve ser entendida claramente como misoginia”, afirmou Okawa.

Várias sondagens mostraram que a maioria das pessoas está aberta à possibilidade de haver uma imperatriz.

(Da direita) O príncipe herdeiro Fumihito e a princesa herdeira Kiko do Japão acenam ao lado da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, enquanto um avião do Governo que transportava o imperador Naruhito e a imperatriz Masako chega ao aeroporto de Haneda, em Tóquio, a 26 de junho. Kyodo News/Getty Images

Outra residente, Kana Sakakura, observou que países europeus, como o Reino Unido, têm longas histórias de monarcas mulheres.

“Suponho que, quando comparamos realmente com outros países, sentimos que ainda existe no Japão um ambiente em que se evita que as mulheres assumam posições de liderança na sociedade”, afirmou.

Mas a causa da sucessão feminina tem conseguido pouco apoio. E a primeira-ministra Sanae Takaichi e o seu Partido Liberal Democrata, no poder, estão entre as vozes que mais firmemente se opõem a essa mudança.

Durante um debate parlamentar realizado no início deste ano, Takaichi afirmou que continuava a ser “apropriado limitar a elegibilidade aos descendentes masculinos da linhagem imperial”.

As alterações propostas pelo seu Governo, que deverão ser aprovadas como lei este mês, não incluem um único cenário em que uma princesa possa subir ao trono. Os seus filhos também não poderão fazê-lo caso estas se casem com um cidadão comum — uma ocorrência quase certa, tendo em conta a redução da família imperial.

Embora o seu papel seja, em grande medida, cerimonial, a família imperial — que, segundo a mitologia japonesa, descende da Deusa do Sol — é um poderoso símbolo de unidade no país de 123 milhões de habitantes.

A centralidade da família para a nação é tal que o general do Exército norte-americano Douglas MacArthur, que supervisionou o desenvolvimento do Japão imediatamente após a II Guerra Mundial, descreveu o imperador num telegrama como “um símbolo que une todos os japoneses”, segundo o Gabinete do Historiador do Departamento de Estado dos Estados Unidos. “Destruam-no e a nação desintegrar-se-á.”

Redução da família imperial

No Japão anterior à guerra, identificar um sucessor era um problema menos complexo.

Nessa altura, a família imperial era maior e incluía outros ramos colaterais, conhecidos como Oke, que ofereciam um conjunto de candidatos caso a linhagem principal não produzisse um herdeiro.

Mas tudo isso mudou em 1947. Enquanto o Japão enfrentava uma economia devastada pela guerra, a Lei da Casa Imperial foi alterada para reduzir a dimensão da família imperial e diminuir as despesas da realeza.

Na prática, isso restringiu a pertença à família imperial aos familiares diretos do então imperador Hirohito, eliminando 11 ramos colaterais e criando as condições para a atual escassez.

Numa cerimónia de despedida condigna, que incluiu um chá, 51 membros da família imperial tornaram-se cidadãos comuns ao abrigo da nova Constituição. Alguns deles encontram-se nos degraus do Palácio de Akasaka, em Tóquio, prontos para iniciarem a vida de cidadãos comuns, a 28 de outubro de 1947. Bettmann Archive/Getty Images

A Casa Imperial, que originalmente contava com 67 membros, ficou reduzida a 16, uma contração agravada pela exigência de que as mulheres abandonem a família imperial depois de se casarem com um cidadão comum.

A mais recente proposta do Governo procura permitir que a família imperial “adote” membros desses antigos ramos colaterais que tenham 15 anos ou mais, sejam solteiros e não tenham filhos. Os seus filhos seriam elegíveis para o trono.

Atualmente, o imperador Naruhito, de 66 anos, tem uma filha, a muito popular princesa Aiko, que está legalmente impedida de herdar o trono devido ao seu género. Aos 24 anos, não tem filhos e, mesmo que tivesse um filho, este não seria elegível para subir ao trono.

Dois dos sucessores elegíveis do imperador são Hitachi, tio de Naruhito, de 90 anos, e o seu irmão mais novo, Akishino, de 60.

O terceiro herdeiro elegível — e o mais provável — é Hisahito, filho de Akishino, de 19 anos, o primeiro homem da família imperial a atingir a idade adulta em 40 anos.

O príncipe Hisahito do Japão, filho do príncipe herdeiro Akishino e da princesa herdeira Kiko, acena às pessoas presentes durante uma aparição pública nas celebrações do Ano Novo, no Palácio Imperial, em Tóquio, no início deste ano. Issei Kato/Reuters

Ao longo dos anos, a família imperial encolheu e envelheceu de tal forma que o cumprimento das funções oficiais se tornou difícil. O novo projeto de lei também permitirá que as princesas permaneçam na família imperial e partilhem a carga de trabalho depois de se casarem com um cidadão comum, embora os seus filhos continuem inelegíveis para o trono.

Okawa, da Universidade Chuo, afirmou que estas são apenas soluções de curto prazo, uma vez que dependem fortemente de um número limitado de herdeiros masculinos e dos seus filhos.

“Enquanto as mulheres continuarem excluídas da sucessão imperial, será difícil garantir a estabilidade fundamental da sucessão imperial”, afirmou.

Reverência à tradição

Mas, para alguns, a questão da sucessão feminina atinge o coração de uma tradição que, segundo defendem, proporcionou ao país a estabilidade em que este prospera.

“As pessoas que são favoráveis a essa solução podem não a considerar um problema, mas, para alguém como eu, que acredita que devemos preservar a linha patrilinear tradicional, isto é visto como um risco claro”, afirmou à CNN Tsuneyasu Takeda, descendente de um antigo ramo colateral da família imperial.

Takeda não será elegível para ser “adotado” ao abrigo do projeto de lei proposto porque já é casado. O seu filho poderá ser elegível quando completar 15 anos, embora Takeda queira que este assuma o controlo da sua empresa.

Tsuneyasu Takeda, membro de uma das 11 antigas casas principescas abolidas após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, fala durante uma entrevista em Tóquio, a 16 de fevereiro de 2006. Toru Hanai/Reuters

O seu pai nasceu apenas alguns meses depois de as alterações de 1947 terem entrado em vigor e, por isso, ficou por pouco sem um título hereditário. Takeda tem defendido publicamente a proteção da linhagem exclusivamente masculina e a restauração dos antigos ramos imperiais, escrevendo livros, gerindo um canal nas redes sociais e dando palestras em universidades.

Takeda afirmou que a tradição não deve ser anulada por “um concurso de popularidade”.

“Mesmo que uma decisão seja tomada por uma maioria reduzida numa votação democrática, se uma parte da população se recusar a reconhecer o imperador, o monarca não será respeitado”, afirmou.

“Isto abalaria profundamente os alicerces do Japão.”

Mas o residente Akio Kubota discordou, recordando que existiram imperatrizes no passado.

“No mundo atual, temos igualdade de género e coisas desse género”, lembrou.

“Parece-me simplesmente um pouco estranho que apenas o papel de imperador tenha de ser transmitido rigorosamente através dos homens.”

Mirai Katagiri, da CNN, contribuiu para esta reportagem.
 

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