De Fellini a Kurosawa. Cinco filmes para conhecer melhor o Papa Francisco - TVI

De Fellini a Kurosawa. Cinco filmes para conhecer melhor o Papa Francisco

"La Strada", filme de Fellini (DR)

O ciclo "O Cinema Segundo Francisco" é apresentado na Cinemateca Portuguesa

"'La strada' de Fellini é talvez o filme de que mais gostei. Identifico-me com aquele filme, no qual está implícita uma referência a São Francisco", disse o Papa Francisco numa entrevista a L’Osservatore Romano, em 2013. Faz, por isso, todo o sentido que seja com "A Estrada", o filme de 1954, que se inicie o ciclo "O Cinema Segundo Francisco", que a Cinemateca Portuguesa apresenta nestes últimos dias de julho, a propósito da Jornada Mundial da Juventude.

O filme conta a história de Gelsomina, uma pobre jovem (intepretada por Giulietta Masina) vendida pela mãe a Zampanò (Anthony Quinn), um homem forte e brutal que a leva para trabalhar no seu pequeno espetáculo itinerante. A relação entre eles é violenta, mas ao mesmo tempo carinhosa. Mas Gelsonima acaba por se apaixonar por um palhaço do circo, o Bobo (Richard Basehart). "A Estrada", com música de Nino Rota, ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Nessa entrevista a L'Osservatore, o Papa manifestava-se como grande fã do neorrealismo italiano, que definiu como detentor do "poder, próprio da grande arte, de saber captar no inverno aquilo que já era primavera", e admitia ter visto todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi quando tinha entre 10 e 12 anos, na Argentina onde cresceu nos anos de 1940. "Um outro filme de que muito gostei é 'Roma città aperta' [de Rossellini]. Devo a minha cultura cinematográfica sobretudo aos meus pais, que nos levavam frequentemente ao cinema", contou. "Em todo o caso, em geral gosto muito dos artistas trágicos, especialmente os mais clássicos."

A paixão de Francisco pelo cinema é visível nas inúmeras referências e citações de filmes a que recorre nos seus textos. E não se trata de filmes que tenham necessariamente a ver com a religião, mas apenas filmes onde o Papa encontra sinais que lhe parecem relevantes.

Por exemplo, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, sobre o amor e a família (2016), refere o filme dinamarquês "A Festa de Babette", de Gabriel Axel (1984): "As alegrias mais intensas da vida surgem quando somos capazes de provocar alegria nos outros, como uma amostra do céu. Podemos pensar na bela cena do filme 'A Festa de Babette', quando a generosa cozinheira recebe um abraço agradecido e um elogio: “Ah, como vais deliciar os anjos!” É uma alegria e um grande consolo alegrar os outros, vê-los a divertir-se. Esta alegria, fruto do amor fraterno, não é a dos vaidosos e egocêntricos, mas dos amantes que se deleitam no bem daqueles que amam, que se dão livremente e assim dão bons frutos".

Em 2018, numa conversa com estudantes japoneses, o Papa dizia que a sua grande preocupação em relação aos jovens de hoje é que "com a pressa, eles percam a memória e as raízes". E aproveitava para recordar um dos seus filmes preferidos: "A mensagem do filme 'Rapsódia em Agosto', de Akira Kurosawa, é a necessidade de diálogo entre jovens e idosos, e mostra como os netos finalmente encontram suas raízes. Peço-vos que encontrem as vossas raízes conversando com os idosos. Diante do desafio do presente, essas raízes darão frutos e amanhã florescerão".

E, em 2021, confirmava a sua relação com o cinema italiano: "O cinema neorrealista é um olhar que provoca a consciência. 'I bambini ci guardano' ('As crianças Olham Para Nós') é um filme de 1943 de Vittorio De Sica que gosto de citar com frequência porque é tão bonito e rico em significado. Em muitos filmes, o olhar neorrealista tem sido o olhar das crianças sobre o mundo: um olhar puro, capaz de captar tudo, um olhar claro através do qual podemos identificar imediata e claramente o bem e o mal.

A programação deste ciclo é inspirada nestas e noutras palavras do Papa. Ao todo, serão cinco filmes que nos darão a conhecer o gosto cinéfilo do Papa Francisco e que serão exibidos na sala da rua Barata Salgueiro, em Lisboa:

  • "A Estrada"
    De Federico Fellini, com Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart
    Itália, 1954
    Sexta-feira, 15:30
  • "Esposos perante Deus"
    De Mario Camerini, com Gino Cervi, Dina Sassoli, Ruggero Ruggeri
    Itália, 1941 
    Sexta-feira, 18:30 e segunda-feira, 15:30
    A sessão de 28 julho (sexta-feira) é seguida de debate
  • "Rapsódia em Agosto"
    De Akira Kurosawa, com Sachiko Murase, Hidetaka Yoshioka, Tomoo Otakara
    Japão, 1991
    Sábado, 21:45 (na esplanada)
  • "A Festa de Babette"
    De Gabriel Axel, com Stéphane Audran, Jean-Philippe Lafont, Gudmar Wivesson, Jarl Kulle, Hanna Steensgard
    Dinamarca, 1987
    Segunda-feira, 19:30 
  • "As crianças Olham Para Nós"
    De Vittorio De Sica, com Luciano de Ambrosis, Isa Pola, Adriano Rimoldi
    Itália, 1952 
    Segunda-feira, 21:45 (na esplanada)
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