Joana Marques quer desmotivar e ensinar pessoas a terem pouco sucesso. Entrevista para ver e ler na íntegra. “Enquanto partido que produz figuras ótimas, o Chega é espetacular” - TVI

Joana Marques quer desmotivar e ensinar pessoas a terem pouco sucesso. Entrevista para ver e ler na íntegra. “Enquanto partido que produz figuras ótimas, o Chega é espetacular”

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  • 10 dez 2023, 19:20

“Pretendo desmotivar as pessoas que estejam motivadas de mais”, diz Joana Marques a Manuel Luís Goucha, no "Conta-me" transmitido esta semana na TVI – e que aqui pode ver ou ler na íntegra. A conversa decorreu no Altice Arena, onde a humorista fará dois espetáculos de "coaching ao contrário": ensinar pessoas a serem pouco proactivas, pouco produtivas, a terem pouco sucesso. “Todos os dias somos ridículos em alguma coisa”, diz, e o ridículo “torna-nos muito iguais.” As pessoas que sempre a fizeram rir mais “são os convencidos”. E até o crescimento do Chega a diverte antecipadamente… Em termos simplistas, “quando pior estiver o país, melhor está o humor que se faz a propósito da política, não é?” Mas é preciso um equilíbrio: “De repente, não vamos dar cabo disto tudo só para ter um programa muito giro ao domingo”…

Manuel Luís Goucha: Ó Joana, como deves calcular, quando pensamos em nomes para este programa, nós temos que os propor à direção. E quando o teu nome foi proposto à Cristina Ferreira, imediatamente ela disse: “Claro que sim!” Que leitura é que fazes disto?
Joana Marques - Eu - olá Manel, antes de mais -, eu acho que a Cristina, e isso ninguém pode contestar, é uma pessoa que percebe televisão. Então ela achou: "Juntar estes dois, em princípio, vai dar alguma coisa. Nem que seja um desastre para nós ficarmos a ver".

Mas não é uma atitude inteligente também, e de fair play?
Ah, sem dúvida. Eu acho que a Cristina é das pessoas que mais fair play tem. Acaba por ser das pessoas de quem eu mais falo. Também por ser ela e por ter a dimensão que tem e por fazer muita coisa. A mim dá-me muito jeito. E é também daquelas que nunca se queixaram. Eu acho isso admirável, num mundo em que as pessoas se levam tão a sério e não aceitam esse outro lado, não é?, que às vezes pode ser: "Olha, eu esta parte aqui não achei tão engraçada. Ou esta parte achei muitíssimo engraçada". E de não levar tudo tão a sério.

Das figuras conhecidas que tu parodias, celebras com muita inteligência e humor...
[Risos] Celebrar é um bom eufemismo, sim.

As pessoas que sempre me deram mais vontade de rir são os convencidos, as pessoas que têm um ego muito insuflado. Joana Marques 

... é uma boa escapatória. Nesse mundo dessas figuras, o que mais te irrita são as pessoas que estão cheias de si próprias?
Eu nem diria que me irrita, eu acho mesmo engraçado. Ou seja, eu tento ver isto sempre da perspectiva cómica e à procura de alguma coisa que possa fazer rir os outros e que me faça rir a mim em primeiro lugar. E, se calhar, as pessoas que sempre me deram mais vontade de rir - pensando assim nisso em retrospectiva - são assim os convencidos, as pessoas que têm um ego muito insuflado. Talvez por contraste, porque eu de facto não sou assim e não é que isso seja uma virtude. Se calhar, para eles até é bom serem assim, deve ser ótimo acordares, olhares ao espelho e pensares: sou o maior.

E então eu acho isso muito engraçado, porque as pessoas de repente falam delas próprias sem nenhuma vergonha de gabarem os seus atributos, as suas qualidades. E eu acho que isso, para fora, resulta num discurso muito engraçado. Às vezes fico: "Esta pessoa está mesmo a dizer isto sobre ela". Acho incrível.

E não achas que muitas vezes é uma defesa dessas pessoas?
Acredito que sim. A psicologia estuda tudo isso, não é? A mim interessa-me só o lado risível da coisa, mas acredito que sim, que as pessoas muitas vezes digam coisas nas quais nem acreditam assim tanto. É uma forma delas próprias acreditarem e de tentarem que os outros acreditem também. Se eu disser muitas vezes que sou muito bom, as pessoas vão acreditar que eu sou muito bom.

[A Cristina Ferreira] tem um bocadinho o espírito do sonho americano, que trouxe para cá. E a mim fascina-me, estamos pouco habituados a isso, a pessoas como ela. Joana Marques 

E porquê é que uma Cristina é tão apetecível para ti?
Eu acho que a Cristina é uma figura única em Portugal.

Tu já viverias sem Cristina Ferreira... [risos]
Vivia, mas era muito mais triste. E acho que a maioria de nós também, porque acho que fazem falta figuras destas... A América está cheia de pessoas assim e, aliás, a Cristina, nota-se, tem muitas vezes esse fascínio pela América.

Sim. E, particularmente, tinha pela ópera.
Exatamente. Eu acho que ela tem um bocadinho esse espírito do sonho americano que trouxe para cá, à nossa escala. E a mim fascina-me, acho que nós estamos pouco habituados a isso, a pessoas como ela, que digam "eu faço e eu aconteço e é para ir para ali falar inglês, eu vou". E pronto, é esse lado destemido. Para mim é apetecível também, do lado de quem está só de braços cruzados a ver e a mandar umas bocas.

Não corro nunca o risco de me achar o máximo. Joana Marques

Tu não corres riscos também de ter um ego muito insuflado? Por é assim: tu és admirada por milhares e milhares de portugueses, tu recebes Globos de Ouro - eu não... [Risos]
... que grande injustiça. Mas eu cedo-te o meu de bom grado.

Não quero. [risos]. Já tens para a troca, não é?
Tenho, tenho. [risos]

Tu não corres o risco de insuflares o ego?
Não, isso para acaso... Hei de correr muitos riscos, mas esse acho que estou a salvo disso, porque eu de facto não tenho isso.

Mas estás muito atenta a isso?
Nem sequer tenho, não preciso de policiar isso, porque eu estou mesmo muito longe disso. Eu acho que antes de ver o ridículo nos outros - no fundo é o meu trabalho aqui, é andar à procura de ridículo, que todos temos -, eu ando há muitos anos a ver o ridículo em mim, não desde que nasci, mas desde que sou gente e que penso, vejo sempre primeiro o meu ridículo. E por isso acho que não corro nunca o risco de me achar o máximo. Não acho, estou muito longe de achar. E as pessoas às vezes têm um bocadinho essa ideia: "então mas quem é que ela julga que é para estar a apontar as falhas dos outros, ou a rir-se disto ou daquilo?" Eu sou uma pessoa que faz isso em primeiro lugar comigo, e percebo que não é tão grave assim sermos ridículos. Acho que é...

Aliás, todos seremos, não é?
É inevitável, é bom sinal, é sinal de que estamos vivos. Nós todos os dias estamos a ser ridículos em alguma coisa, ou para alguém. Porque nós aqui os dois estarmos a falar, para nós pode estar a ser interessantíssimo, [mas] uma pessoa que veja de fora e que não ache, pode perfeitamente discordar de nós. Eu acho que esse jogo é que tem a ver com sermos um país democrático e livre, em que todos podemos dizer o que achamos, e eu sou super a favor da liberdade de expressão, mesmo que seja para a usarem contra mim. Acho isso super saudável.

E que fascínio é que tu encontras no ridículo dos outros?
O ridículo por si diverte-me muito. E às vezes é preciso é ter o... se calhar tem é que ter o cuidado oposto, que é que o ridículo não me tolha, não é?, aquele medo do ridículo que às vezes todos temos. E eu acho que temos que largar isso um bocadinho, quando trabalhamos - como tu - na televisão, na rádio: vais falar muitas horas por dia, vais dizer coisas erradas, vais cair em erro muitas vezes, e não ficar muito preocupado com isso e com o que os outros vão achar. Portanto, o meu exercício tem sido mais esse. Porque estou tão atenta ao ridículo que, obviamente, isso depois também uso para a minha auto-análise. Eu acho o ridículo muito divertido porque nos torna a todos muito iguais. Olha, hoje foi esta pessoa, amanhã será outra, de certeza. E há pessoas, às vezes, que eu sinto que não têm muita noção do ridículo, pelo menos da forma como eu o avalio. E isso obviamente torna-se divertido.

Mas são felizes.
São felizes! São felizes, eu acho que até são mais felizes, se calhar, do que nós, que às vezes pensamos mais nessas questões.

Tu policias-te?
Já policiei mais. Eu acho também - sei que vai achar ridículo dizer que já tenho alguma idade,  porque já tenho 37, 37 já são mais que 20 - e acho que estou a melhorar, talvez desde que fui mãe, fui melhorando isso. Perceber que as coisas não têm muita importância. E o que é ridículo hoje, daqui a 5 minutos já ninguém se lembra.

Vais aligeirando, é isso?
Sim, começas a perceber que há coisas muito mais graves, e que se calhar aos 20 te preocupavas com coisas que agora percebes que não tinham importância nenhuma e que não vale a pena perder tempo com elas. E depois, também, quando começas a trabalhar muito, tens cada vez menos tempo para ocupar com coisas que de facto não interessam.

Enquanto partido que produz figuras ótimas, o Chega é espetacular. Até o crescimento do Chega me deixa de alguma forma ansiosa para ver que deputados irão arranjar agora para a próxima legislatura. Joana Marques

Agora, curiosamente, e pode ser ignorância da minha parte, mas tu não te dedicas muito no Extremamente Desagradável às figuras da política.
É verdade, acabei por fazer essa opção.

Também as há ridículas.
Muitas. Só como também trabalho ao mesmo tempo num outro programa, que é o Isto é Gozar Com Quem Trabalha.

Com o Ricardo Araújo Pereira.
Exatamente.

E aí sim, análise política.
Todo focado na política. Eu tento que as duas coisas não se atropelem. Não quero à terça-feira fazer uma piada que depois poderíamos utilizar ao domingo. Então, portanto, fiz essa divisão e que a mim não me custa nada, porque eu tenho grande fascínio por este mundo da televisão, hoje em dia das redes sociais, dos TikToks, etc. E, portanto, não me custa fazer esta separação e as coisas que vou vendo ao longo da semana, e que têm muito mais a ver com a política, ir guardando ali para pôr noutra pasta.

Mas há muitos políticos que se põem a jeito.
Muitos, muitos. Cada vez mais. Também acho que agora há esta dimensão de espectáculo na política. Os políticos agora têm que ter as suas próprias redes sociais, têm que falar ainda mais e noutros meios do que falavam antes. Eu acho que isso abre aqui um leque fantástico para quem está interessado em ver a política também desse prisma. Às vezes podia ser preocupante, e é. Eu acho que o lado engraçado nisto é que nós estamos sempre à procura, mais uma vez, da coisa que dá para rir na política. E, portanto, quando vemos o crescimento de certos fenómenos, como o Chega, se estivermos a pensar em quantos cidadãos têm um lado assustador e preocupante, enquanto partido que produz figuras ótimas, o Chega é espetacular. Portanto, até o crescimento do Chega me deixa de alguma forma ansiosa para ver que deputados irão arranjar agora para a próxima legislatura.

Portanto, ali pode ser muito material para o teu trabalho enquanto humorista, mas, por outro lado, a cidadã preocupa-se com o crescimento daquela força.
Claro, eu acho que todos nós temos esta divisão. Às vezes há coisas que são ótimas...

... não nos devemos esquecer, é do discurso daqueles políticos, não é?
Exatamente, eu acho que há coisas que são ótimas em termos cómicos para o programa. Às tantas, quanto pior estiver o país, se quiseres pôr assim em termos simplistas, melhor está o humor que se faz a propósito da política, não é? Agora, é tentar aqui um equilíbrio, é que de repente não vamos dar cabo disto tudo só para ter um programa muito giro ao domingo. [Risos]

Até onde é que te leva o humor?
Ai, que pergunta tão profunda, Manuel. [Risos] ]Traz-me a sítios completamente inesperados para o que seria a vida que eu esperava. Nunca pensei muito no que havia de ser, mas sempre me imaginei como guionista, a partir do momento em que soube que essa profissão existia. E, portanto, sempre me imaginei sossegadinha em casa a escrever, de preferência de pijama, sem ninguém me chatear. E, portanto...

... bicho do mato.
O humor trazer-me a sítios como este, ou a estar aqui a conversar contigo, é muito inesperado. Engraçado ao mesmo tempo e divertido, mas completamente inesperado.

Também terá sido um Cristina Talks que foi fonte de inspiração para agora ires fazer coaching nesta sala [Altice Arena, onde se realiza a conversa]? Coaching virado do avesso.
É o que tu dizes, a Cristina faz sempre parte da minha vida, de uma maneira ou da outra. [Risos]

E da minha!
Da tua ainda mais, não é? Mas de maneiras diferentes na vida dos dois.

Aliás, estávamos aqui, os dois.
Exatamente. Viemos aqui ver no início, em janeiro.

Exatamente. Já lá vai um ano.
E virei ao próximo. 

Também eu.
Virei ao próximo, não perco. Porque acho um fenómeno muito interessante de ver ao vivo. E as pessoas às vezes acham que eu estou a dizer isto a gozar, mas não estou.

Não, não, eu achei maravilhoso assistir ao vivo.
Acho mesmo fascinante.

E ver o empolgamento que avassala esta sala.
Exatamente, exatamente. E também comecei a estudar mais esse assunto dos "coaches", etc. E a especializar-me, entre aspas, agora ao longo dos últimos meses.

Eles aparecem que nem cogumelos.
Sim, há imensos. É difícil, não param. Acho que a cada minuto que passa, nasce um novo coach. E o que eu tento fazer é estudar um bocadinho obsessivamente o tema de que vou falar, porque acho que só podemos satirizar uma coisa que conheçamos bem. E, portanto, antes da Cristina Talks, já tinha visto algumas outras coisas que tinham a ver com o coaching. Já era um assunto que me fascinava muito por esta ideia desta mentalização de se eu disser que tu consegues e tu acreditares muito, tu consegues tudo. E o meu lado cético faz-me pensar absolutamente o contrário. Muito dificilmente vais conseguir alguma coisa. Se por acaso correr bem, ótimo, não é? E há muito esta ideia no coaching de usar um bom exemplo: "Olha, se eu consegui, tu também consegues". E eu não vejo o nexo, não é?

Eu também não vejo. Eu acho que no dia seguinte vai tudo acordar na mesma para a maior parte das pessoas.
E se calhar há algumas pessoas mais desiludidas: "Ah, eu achei que ia conseguir e afinal não". Mas este é o meu lado cético em tudo. Eu analiso um mundo todo assim.

Agora, as pessoas saíram naquela manhã daqui certamente de alma cheia...
Galvanizadas, sim.

... e com vontade de fazer qualquer coisa pela vida delas, não é?
E, se calhar, para meia dúzia delas a coisa funciona mesmo. Mas pronto, eu tenho de facto este lado um bocadinho... até tenho pena, não é? Porque eu de maneira geral acredito em pouca coisa. E portanto vejo isto sempre do lado irónico da coisa e ponho-me muito fora. Não consigo entrar naquele transe coletivo. E portanto, era o que eu estava a dizer: eu comecei a pesquisar muito sobre o assunto porque me diverte muito esta ideia de "vamos dizer aqui umas frases que vão mudar a vida dos outros", não é? Às tantas é uma responsabilidade enorme até para os próprios "coaches". E eu gosto de estar sempre do lado da irresponsabilidade, que é o humor, é só rir com aquilo.

Portanto vais virar o conceito do avesso.
Ao contrário, sim. A minha ideia é usar a forma, igual. Porque a forma, como tu viste, é espetacular, não é? Há toda uma espetacularidade. Há luz, há som.

E há aquecimento. [Risos]
É muito emocionante. Há saltos. É muito entusiasmante. E a minha ideia...

Há um coach que faz aquecimento à sala.
Exatamente. A minha ideia é que alguém que viesse aqui sem nenhum contexto - um estrangeiro, imagina, que chegava aqui e não falava português, olhando de fora parecia mesmo um evento de coaching. Depois as coisas que são ditas é que são todas ao contrário.

E tu alguma vez imaginaste que irias encher dois Altices [Arena]?
Não, não. E aliás acho que o segredo é este. Se eu fosse coach diria assim às pessoas: "não sonhem com nada, nem programem nada e depois logo se vê. Porque se sonharem é mais provável que se desiludam, porque não conseguem. Se não tiverem nenhuma expectativa sobre vocês e a vossa vida e acharem que vai tudo correr mal, tudo o que vier é bónus".

Esgotar isto, para ti, quer dizer o quê? Dois Altices.
Quer dizer que...

Tens o público contigo.
Algum. Terei outro contra mim e isso faz parte, não é? [Risos] Para mim quer dizer, e é a coisa que me deixa contente, que há pessoas a pensar mais ou menos como eu. Ou seja, a ver isto no mesmo prisma que eu, mais coisa menos coisa, e a achar graça às mesmas coisas. E é isso que também faz com que todos os dias quando faço o Extremamente Desagradável, haja muita gente a ouvir. Eu acho que tem a ver com um ponto de observação do mundo que é comum. E isso dá-me assim um certo quentinho: "Olha, há mais pessoas que acham o mesmo que eu." Acho que todos sentimos isso quando encontramos alguém que pensa como nós. E aqui não é encontrar alguém, é encontrar muita gente que se ri das mesmas coisas. Eu acho que isso é uma sintonia engraçada e que me faz muito cúmplice dessas pessoas, mesmo sem as conhecer. "Olha, nós olhamos para isto e pensamos mais ou menos o mesmo". E, portanto, acho que vai ser muito divertido. Tem um lado assustador, porque é muito grande, mas tem esse lado muito divertido.

Estava a pensar nisso: eu gosto muito de salas vazias. [Mas] uma coisa é estarmos aqui no meio, com o Altice completamente às moscas, não é?, outra coisa é imaginares-te aqui com milhares e milhares de pessoas. É assustador?
Eu não me imagino muito, não é? Faço questão de não visualizar. Os coachs dizem muito para visualizar e manifestar o que queremos que aconteça. Eu não. Evito pensar e depois no dia logo se vê. 

Já estás a trabalhar.
Já estou a trabalhar. Para mim é que é a parte mesmo difícil.

O guião.
O guião. É chegar às ideias e esperar que aquelas... Só vamos saber aqui no momento. A comédia é muito assim, por tentativa e erro. Só no momento é que percebes se aquela piada que na tua cabeça parecia gira, aqui funciona ou não.

E há base para um improviso ou não?
Há sempre, acho que sim. E sobretudo em sítios assim, com muita gente.

O Capricórnio não é de improviso.
Eu não sou.

Eu também não.
Eu sou de ter tudo preparado. Depois, se em cima disso surgir um improviso ou outro, como há de te acontecer, claro que é bem-vindo.

Mas um improviso estudado.
Sim. É verdade. Eu, aliás, admiro colegas meus humoristas que são da escola do improviso. Nunca faria isso, nunca conseguiria fazer, estaria demasiado preocupada com tudo o que pode correr mal. E, portanto, eu sou pela ultra-preparação. E é o que eu digo, preparo de mais. Não uso, se calhar, 10% das coisas que investiguei. Agora, é como se eu tivesse a fazer uma tese de mestrado em coaching, só para tirar dali as partes que podem ser engraçadas.

Pretendo desmotivar pessoas que estejam eventualmente motivadas demais. Joana Marques

Eu ouvi dizer que há convidados.
Há convidados. Olha, posso-te dizer que temos a Madalena Abecasis como oradora... desmotivacional, neste caso. Ela diz que vai ensinar toda a gente a ser rica como ela. E temos também, já confirmado por esta altura, o Ricardo Araújo Pereira, que é uma pessoa que eu gosto de sempre trazer para estas coisas, porque também tem este olhar sobre o mundo bastante parecido com o meu. Ou, no meu caso, se calhar, eu é que tenho parecido com ele, já que durante muitos anos o via e admirava, ainda antes de pensar que ia trabalhar com ele. Portanto, ele também tem um bocadinho este ceticismo acerca do discurso do "sim, vamos conseguir e vai correr tudo bem".

Para já, dois convidados, mas há mais.
Há mais. Temos também a Sónia Tavares.

Sónia Tavares... Momento musical.
Não vai ser musical. Ela vai contar quais são os seus truques na vida para ser pouco ambiciosa. Porque muitas vezes há truques para ser muito ambicioso, muito produtivo e realizar muita coisa. E a Sónia vai ensinar as pessoas a serem o contrário disso. Pouco proactivos, pouco produtivos, a realizarem pouca coisa, a terem pouco sucesso.

Então o que é que tu pretendes com este espetáculo?
Olha, eu pretendo desmotivar pessoas que estejam eventualmente motivadas demais. Porque, como dizíamos há pouco, já há muitos coaches, já há muita oferta para pessoas que se querem motivar, pessoas que querem acreditar mais nelas, etc. [Para] isso encontram imensa gente capaz de fazer esse serviço. Quem está, de repente, motivado demais, com a vida a correr muito bem e precisa de pensar "calma, que isto pode tudo descambar", precisa do serviço oposto. E é isso que eu proponho aqui.

Tu alguma vez pensaste - há pouco dizias que, quando muito, quererias ser guionista -, alguma vez pensaste que serias a Joana, famosa, com pessoas a adorar-te, quase religiosamente a acompanharem o teu Extremamente Desagradável, com outras tantas a odiarem-te?
Não, não. Nunca pensei isso. Nunca fiz plano para nada. E muito menos esse plano, que para mim, pareceria completamente afastado do que seria a minha perspectiva de vida. Eu gosto mesmo é de escrever e para mim são os momentos mais divertidos, é quando estou em casa...

Trabalho solitário.
... sem ninguém, a escrever. E mesmo na rádio, claro que depois diverto-me muito estar com a Ana e com a Inês, mas quando eu estou a apresentar o Extremamente Desagradável, para mim, o momento surpreendente e engraçado já foi. Ali, depois, o que eu tiro o prazer daquilo é ver a reação delas, se elas vão achar tão engraçado como eu achei certas coisas, e depois diverte-me obviamente muito estar com as duas e fazermos aquele programa.

No teu entender, a que é que se deve este sucesso do Extremamente Desagradável?
Lá está, nunca pensei muito nisso. Acho que tem a ver com aquilo que estávamos a falar há bocadinho, das pessoas se identificarem, se reverem naquele estilo de humor e gostarem de rir, sobretudo numa altura do dia. É às oito e um quarto - claro que depois as pessoas podem ouvir em podcast, etc, mas o momento em que é em direto é às oito e um quarto, que é o momento do dia em que as pessoas, muitas estão solitárias também, nos seus carros, transportes públicos, a caminho do trabalho.

Chateadas por irem para um emprego que não gostam.
Exato. Muitas vezes, infelizmente, antes de aderirem ao coaching e depois então mudarem de vida e passarem a ser coaches também, que geralmente é a saída profissional... E eu acho que isso faz com que nos liguemos bastante com essas pessoas. É um momento do dia assim, como dizias, quase sagrado. E eu noto isso quando não vou, se estou de férias, se estou doente, se acontece alguma coisa, as pessoas cobram-me logo: "hoje, às oito e um quarto não houve". E eu acho que isso cria assim uma espécie de comunidade muito fiel, que eu acho que a rádio cria mais do que qualquer outro meio de comunicação.

Tu fazes isso todos os dias, depois vais para casa, vais ter que ver coisas, vais ter que escrever para o dia seguinte. O que é que sobra?
Durante a semana sobra muito pouco de mim. Durante a semana estou mesmo entregue a trabalhar e aos domingos também no Isto É Gozado Com Quem Trabalha. Sobra-me um sábado. 

E és feliz a fazê-lo, claro.
Eu sou muito feliz a trabalhar. E percebo que isso é uma sorte, porque de facto todos conhecemos muita gente...

É um privilégio.
... que trabalha porque tem que trabalhar. São trabalhos muitas vezes aborrecidos e que não é aquilo que gostariam mesmo de fazer. Portanto, essa é a maior sorte de todas, estar a fazer uma coisa de que gosto e de que outras pessoas podem gostar também.

Mas ao domingo, por exemplo, tens que preparar o [programa] de segunda. Só tens um sábado.
É verdade. Eu tento gozar muito bem o sábado e tento também, nas poucas horas que me restam de cada dia da semana, estar com os meus filhos, não é? Porque não quero que depois eles pensem assim "ah, realmente a minha mãe tinha uma coisa muito engraçada na rádio, mas isso não vale nada porque ela nunca estava em casa".

Mas, Joana, todos os dias tem que sair um texto.
É verdade.

E no tempo com os filhos, o que é que fazes com os filhos?
Ora, fazem de mim gato e sapato. Eu faço o que eles quiserem, basicamente. Mas muitas vezes dou por mim a pensar: não tenho jeito nenhum para brincar. É uma coisa em que nós não pensamos muito, porque antes de sermos pais, nós brincamos quando temos idade para brincar. E de repente, aos trinta e tal anos, é-te proposto brincar outra vez.

Mas tu andas a brincar todos os dias. À conta dos outros, à conta das pessoas [risos].
É verdade, eu já tenho a minha brincadeira. Mas depois chego a casa e tem que ser as brincadeiras que eles querem e da maneira que eles querem, porque eles são os pequenos ditadores: "Vamos brincar às aventuras, vamos fazer uma história". Eu não tenho nenhum voto na matéria.

Portanto, eles já são pequenos guionistas, é isso?
O mais novo, não diria, tem três anos e ainda não dá para ver. Tem só assim um talento, uma aptidão para destruir coisas, destrói tudo à sua volta. O mais velho, eu diria que sim. Aliás, a semana passada ele disse-me, "quero que me inscrevas na escrita criativa", que é uma coisa que eles têm na escola. E eu, "Ó Xavier, mas tu ainda não sabes escrever. Vais fazer só a parte criativa. Porque a parte da escrita, ainda estás na primeira classe, só sabes escrever três ou quatro palavras." Mas ele já tem essa coisa, gosta muito de inventar histórias, gosta muito também, de um lado que não sei de quem herdou, de criar vestidos e coisas, veste bonecas com as suas criações, que sempre vou aos Globos de Ouro, proponho ser ele a vestir-me. Felizmente ainda não aconteceu. [Risos] ]Mas tem um fascínio por esse lado, sendo que lá em casa ninguém liga à moda, como parece bastante óbvio. E ele tem...

Não sei, tu estás aí impecável [Risos].
Impecável, com este padrão. E eu acho que é muito engraçado também ver isso, como pessoas saídas dos mesmos pais, são para já, os dois estão diferentes entre eles, e depois como podes ter um gosto, um talento, uma aptidão, qualquer coisa que ninguém na família tem. Eu acho isso muito giro.

E tu, preparaste-te para ser mãe?
Não, acho que ninguém se prepara.

E era um sonho ser mãe?
Também não. Como vês, tanto no plano pessoal como profissional, não planeio nada. É o que for acontecendo, logo se vê.

A vida tem planos para ti. Isto é uma frase...
Esta frase é boa! Ainda vais fazer um Manuel Luís Talk.

Já me propuseram isso. [Risos]
Eu ia ver, claro. Mas, portanto, não me preparei, não. E acho que depois é daquelas coisas que só aprendes fazendo. Tu és mãe ou pai e depois logo se vê, vais aprendendo com eles e vais errando muito, não é? Então no primeiro filho, coitado.

E que desafio é esse, ser mãe de dois putos?
Olha, é complicado porque eles têm muita energia sempre. E eles não são nada sensíveis aos teus estados de alma. Não querem saber, como é óbvio, ser criança é ser super egoísta. É a coisa mais linda do mundo, sim senhora. Maravilhosas, as crianças. Mas muito egoístas. Não querem saber. Tu podes estar doente, podes estar a arrastar-te, e eles "Sim senhora, mas eu quero fazer estes legos e tem de ser agora". E isso também te treina, não é? Para estares sempre disponível. Eu acho que tendo filhos de agora, até parece que o meu dia dura mais e consigo fazê-lo render e ser mais organizada do que antes. Ou seja, parece que agora tenho mais tempo para as coisas, apesar de ter menos. Eles fazem-te criar essa organização mental, não é? Se eu sei que às quatro da tarde é para os ir buscar, eu vou ter que conseguir fazer tudo até lá. E é muito divertido porque eles têm uma visão completamente fresca do mundo. Estão a ver tudo pela primeira vez. Por um lado, faz-me lembrar quando eu era igual. E às vezes têm observações e fazem perguntas que eu penso, de onde é que isto vem? Numa conversa entre adultos, isto nunca surgiria. E sempre é muito giro.

Eles ligam ao facto de terem uma mãe famosa?
Ah, não, não. Felizmente, não. O mais novo então acho que nem se apercebe disso. O mais velho às vezes faz umas perguntas, por ver uns cartazes e umas coisas, e acha assim meio estranho porque é que eu estou ao lado dele e estou ali num cartaz. Mas não liga a nada e eu espero que nunca ligue, porque acho isso muito pouco importante, na verdade.

E quais são os teus receios face aos teus filhos?
Todos. Tenho a meu respeito e agora transfiro para eles e tento é que não seja de uma forma que os sufoque, porque eu sou hipocondríaca, sou ultra-preocupada. Esse lado tu não tens, tu não és um hipocondríaco.

Sou. Só que sou um falso hipocondríaco, porque sou daqueles que vou ao médico...
Eu também vou, também sou dessas.

... e depois o médico diz-me "não tem nada" e eu acredito nele, não vou a outro.
Pois, nós não somos...

Tu vais o outro?
Não vou, não vou. Eu não sou...

Então sou igual a ti também.
Somos um tipo de hipocondríaco. Ainda está controlado, a qualquer momento pode-se descontrolar, mas sempre a pensar e pesquiso sintomas na Internet. E então agora transfiro um bocadinho as minhas preocupações para eles, mas tento controlar-me nisso. Porque, por exemplo, o meu pai era muito assim, não é?, super vigilante e hipocondríaco também, lá está. E eu acho que isso às vezes, depois mais adiante, é pior para ti, porque tornas-te ansioso também. E então, como o Daniel, por exemplo, não é nada assim, eu tento fazer ali um equilíbrio e não ser ultraprotetora para eles também aprenderem a safar-se.

O Daniel é o equilíbrio. Como é que vocês se conheceram?
Olha, conhecemos precisamente nas Produções Fictícias, na altura. Eu estava a trabalhar lá, no início, assim, talvez a estagiar ainda, e ele foi fazer um curso de escrita criativa, precisamente. E conhecemos aí, é verdade.

Os homens não se medem aos palmos?
Não. As mulheres, não. Os homens não se medem aos palmos, porque nem tenho palmos que cheguem para chegar a 1,98.

O que é que ele trouxe para a tua vida?
Eu acho que é isso que te estava a dizer: é uma pessoa super ponderada, muito calma, nada o enerva. Raramente é possível tirá-lo do sério, e eu tento muito, porque eu sou uma pessoa que gosta de discutir, e tento. Há dias que eu estou para implicar, e eu, "é hoje, vou agora lançar aqui uma discussão", e não consigo. E ele não me dá grande troco nisso, porque ele é super pacífico, e é assim uma espécie de bom gigante.

Mas há aqui um ponto em comum, que é a criatividade e o humor.
Sim, eu acho que isso foi...

As pessoas que mais me intrigam são as pessoas sem sentido de humor. Já todos convivemos com pessoas assim, e é como se lhes faltasse uma peça, não é? Esta pessoa não veio bem acabada. Joana Marques

Tu não viverias com uma pessoa sem sentido de humor?
Não. Nem viver, nem dar-me assim, relacionar-me. Claro que se tiver que ser, num contexto qualquer de trabalho, mas também no tipo de trabalho que eu tenho, não acontece haver pessoas sem sentido de humor. Uma coisa é terem um sentido de humor diferente, isso até acho engraçado poder juntar. Agora, por acaso, são as pessoas que mais me intrigam, as pessoas sem sentido de humor. Já todos convivemos com pessoas assim, e é como se lhes faltasse uma peça, não é? Esta pessoa não veio bem acabada. E repara, quando eu digo isto, não é ter que me achar graça a mim, é ter que achar graça a qualquer coisa. Há pessoas que não têm... Nota-se, tu vais a uma loja e fazes assim uma piadinha qualquer, por parva que seja, e quando há zero reação do outro lado, é isto nem sequer chegou lá a esta pessoa, é como se fosse uma língua diferente, que esta pessoa não domina. E acho triste, sobretudo para essas pessoas, porque imagina, viveres a vida sem rires de nada. Acho mesmo super triste. É assim um cenário de horror. E claro que no Daniel me interessou muito isso, porque nós rimos muito das mesmas coisas e divertimos-nos muito. Às vezes nem precisamos de falar, não é? Como já sabemos em que é que estamos a reparar, basta assim uma troca de olhares para pensarmos: "Estamos a reparar os dois na mesma coisa." E isso eu diria que é o passatempo maior que nós temos juntos, sobretudo agora, que nem conseguimos passar... Eu trabalho de manhã, ele trabalha à tarde, andamos sempre assim numa correria, meio de logística, não é?, leva crianças para a escola, o outro vai buscar. E no meio dessa correria toda, eu acho que ainda o que nos vai safando é que temos já esta maneira de comunicar.

Qual é o dia em que vocês estão os quatro? A família.
É ao sábado. Quer dizer, todos os dias estamos um bocadinho os quatro, não é? Mas não é com aquele tempo, é com aquele stress de amanhã há escola outra vez, vamos para a cama. O dia sem horários é o sábado, e depois as férias em que nós implicamos bastante tempo, programamos muito bem as férias, para ser assim uma espécie de vingança do resto do ano, não é?

O que é que tu acrescentaste à vida do Daniel?
Ah, eu acho que nada. Só chatices, de certeza. Ele estava tão bem... Ele às vezes diz, "eu estava tão bem sossegado, para que é que eu me meti nisto?" E ele tem outra, ele diz que um dia ainda vai levar...

Ah, ele tenho outra? [Risos]
Isso pode ter também, deixa que não me chateiem, está bem. Fica aqui dito, não é?

Mas já estás assim. [Risos]
Não, não. Ele tem a teoria de que ainda vai levar, apanhar pancada à minha conta, e eu não sei se não pode acontecer. Ele diz que as pessoas enervam-se muito comigo, e depois vão olhar para mim e pensar, "tem só um metro e meio, não dá para bater, é uma senhora, não é?" e então vão bater nelo.

E se forem como eu que só olho sempre em frente, nem vão dar por ti, porque estás aqui um bocadinho em baixo.
Exatamente [Risos]. Então ele está sempre com medo que sobre para ele, logo ele que é tão pacífico e não quer confusões... Portanto, eu acho que não trouxe nada de bom para a vida dele.

Tu nunca foste ameaçada ou foste?
Ameaçada na internet sim, mas isso acho que somos todos. Quer dizer, quem tem um trabalho mais público, mais do que uma pessoa que se calhar trabalha nas Finanças, mas até esses se calhar são. E a internet é um...

Ai, nas Finanças devem ter belas ameaças. [Risos]
Mas eu acho que é uma coisa muito específica da Internet, e a que eu não dou valor. As pessoas na Internet são outras, não são depois as mesmas que estão na rua, e ainda bem. Eu costumo dizer que se fosse ao contrário é que era grave. Imagina, eras adorado na Internet e era só mensagens de amor, depois saías à rua e era só ódio. Não, é muito bom os "haters" estarem na Internet e depois cá fora comportarem-se como todos nós nos comportamos.

Mas é tranquilo para ti lidar com essas expressões de ódio que por vezes se encontra na Internet?
Sim, eu acho que faz parte, eu não podia agora dizer o contrário.

Faz parte do nosso jogo, não é?
Sim, sim, sim, acho que faz. E de facto não me perco muito tempo ali a vasculhar, "deixa ver o que é que esta senhora que eu não conheço de lado nenhum disse sobre mim", porque na verdade nem é sobre mim, é sobre uma ideia que as pessoas fazem daquilo que tu estás a fazer, e sempre que há alguma polémica, depois também basta tirares uma coisa de contexto para ela parecer imediatamente outra. E no meu caso..,

É o que mais se faz.
Exatamente. E no meu caso muitas vezes se tiram de contexto frases que foram ditas numa rubrica humorística e que obviamente lidas de forma literal e sem esse contexto de "isto é humor", parecem só ofensivas, porque é só a frase sem nada do que foi dita antes ou depois e sem nenhum contexto. E portanto muitas vezes as pessoas estão a comentar isso, estão a comentar uma coisa que é super distante de mim, não foi nada daquilo que eu disse, portanto aquilo é outra coisa, é uma espécie de realidade paralela e eu deixo aquilo seguir com a naturalidade.

O que é que achas que as pessoas acham de ti?
Ai, não faço ideia. As que vêm aqui, por exemplo, acho que gostam e é a tal ideia de haver uma sintonia comigo, "olha, identifico-me, pensamos da mesma maneira, rimos das mesmas coisas". Outras, hão de me odiar, mas por motivos que eu considero os errados. Deve haver motivos verdadeiros para me odiarem, mas teriam que me conhecer, não é? E acho que odeiam por uma ideia errada e por esta ideia de "só diz mal, devia dizer bem", quando o exercício do humor é precisamente o contrário, o humor procura a falha, o que correu mal. Eu desafio qualquer humorista a fazer textos só sobre coisas que correm bem. Em princípio vai sair poesia, não é? Como são lindas as flores, a primavera... Mas eu percebo que haja pessoas que não gostam desse exercício e que acham mesmo que o humor não faz falta e que devia ser quase proibido.

Acho que não há pessoas intocáveis. Para quê ser intocável? Estarmos a considerá-los intocáveis era considerar que o humor é uma coisa má e que agride. Não, acho que, fazendo parte do jogo e sendo pessoas que estão no espaço público, todas podem ser ou alvo de crítica séria, ou alvo de humor, ou alvo de grandes elogios. Joana Marques

E porquê que o humor faz falta?
No meu caso faz-me muita, na maneira de ver as coisas e dar uma leveza às coisas que elas às vezes não têm. E eu acho que vemos isso em todas as desgraças do mundo. Mais tarde ou mais cedo vamos conseguir fazer humor acerca delas. Às vezes é preciso deixar passar tempo e afastar-nos um bocado e podemos pensar nisso mesmo na nossa vida. Uma coisa terrível que te aconteceu, imagina: tiveste um divórcio terrível, um desgosto, qualquer coisa. Naquela altura não te dá nenhuma vontade de rir, mas depois quando vês à distância e já superaste aquilo, consegues ver tudo o que houve de ridículo ali.

Até me acho ridículo nessas situações.
Consegues ver o ridículo daquela situação.

E rir com o ridículo.
Exatamente.

Não há pessoas intocáveis?
Eu acho que não. Para quê ser intocável? Estarmos a considerá-los intocáveis era considerar que o humor é uma coisa má e que agride. Não, acho que, fazendo parte do jogo e sendo pessoas que estão no espaço público, todas podem ser ou alvo de crítica séria, ou alvo de humor, ou alvo de grandes elogios. Acho que tudo isso faz parte. E às vezes espanta-me que algumas pessoas tenham a expectativa de participar aqui neste jogo só com a parte boa. "Olha, eu quero, quero ter fãs, quero ir a restaurantes e arranjarem a melhor mesa, quero ser muito elogiado, mas depois não quero que alguém possa vir e dizer uma gracinha qualquer sobre mim."

Agora, uma coisa muito curiosa, porque nós estamos aqui a falar de humor - criativo, inteligente, sarcástico, irónico -, e o português rapidamente, em segundos, acontece uma desgraça, acontece qualquer coisa e faz uma piada. Isto não é ter sentido o humor? É ser piadista apenas?
Não, eu não o classifico assim, diferente, como se um humor fosse mais nobre que o outro. Acho que os portugueses são, de facto, um povo com muito sentido de humor.

São um pouco de piada rápida, não é? E da anedota, também.
Sim, e cada vez mais somos muito produtores de humor. Depois, há diversos estilos, não é? Se calhar há quem goste mais das anedotas e dessa quase tradição oral que vai passando. Mas, por exemplo, hoje nas redes sociais, se fores ao Twitter, é um sítio onde se produzem piadas muito rápidas sobre todos os assuntos. Agora, quando houve a questão da queda do governo, tu abrias o Twitter e no espaço de uma hora estavam lá centenas de piadas e muitas delas muito boas, feitas por pessoas que não são humoristas profissionais, são médicos, são advogados, têm os seus trabalhos, mas têm esse espírito muito mordaz. Eu acho que os portugueses têm muito isso. Haverá povos que provavelmente têm menos. E eu acho que também é isso que faz com que os espectáculos de humor, os humoristas, encontrem, assim, grande acolhimento e consigam fazer espectáculos em salas grandes, etc. Porque eu acho que os portugueses gostam muito de se rir. Por acaso, não nos vejo como um povo que se leve muito a sério.

Como é que em ti vivem, conciliados, a hipocondria, o infortúnio e a tragédia, com o humor?
É, eu acho que o humor salva essas coisas todas, não é? Porque se eu ficasse ali presa à minha hipocondria, às minhas preocupações, ao "vamos todos morrer, meu Deus".

E vamos.
Vejo notícias sobre tremores de terra e já nem durmo a pensar: é hoje, é hoje! No outro dia, repara, vi notícias antes de ir para a cama...

Eu penso o mesmo.
... e a meio da noite, o meu filho mais novo, o Nicolau, veio para a nossa cama - agora tem esta mania de trepar e tal, e põe-se ali como se não fosse nada com ele - e eu acordei com ele a chegar e pensei...Se há um tremor de terra, o outro está no outro quarto, se calhar é melhor ir buscá-lo. Depois continuei a dormir e percebi que não era assim tão provável que acontecesse naquela noite um tremor de terra.

Tu vives em que zona? Não sei se queres dizer.
É perigosa, é uma zona ribeirinha. Quando vier o tsunami, sou a primeira a ir. Mas pronto.

Tu pensas em mudar de casa. [Risos]
A minha forma de combater estes medos e angústias exageradas é sempre o humor, é ver o ridículo que há neste pensamento. Se houver um tremor de terra, de facto, não posso fazer muito para o evitar.

Então o humor salva?
Sim, salva. Não salva, assim, numa dimensão efetiva, não é?, o humor não salva: uma pessoa está a morrer, não é com uma excelente piada que a vais salvar, mas salva-nos em pequeninos momentos ao longo do dia, que todos juntos são uma vida. E eu acho que as pessoas que não têm esse sentido do humor poderão passar com mais dificuldade por essas agruras da vida, porque tudo fica com um peso, não é? Não tens aquela leveza que às vezes uma piada num momento certo até te dá outra visão das coisas. Por exemplo, na rádio muitas vezes recebemos mensagens de pessoas que estão a passar doenças complicadas, que estão no hospital, internadas muito tempo, e hás de sentir o mesmo na televisão...

[acena]
... que é assim diária e faz companhia, e dizem olha, "durante aqueles 10 minutos, por exemplo, do Extremamente Desagradável, estou focada só naquilo". O problema continua lá, mas são 10 minutos bons daquele dia e poder estar a contribuir para isso a mim deixa-me contente.

Tu foste sempre assim desde criança?
Assim é o quê? Irritante, enervante?...

Não, não, eu não acho nada disso. [Sorriso] Assim, com esse lado do humor, de um olhar crítico e ao mesmo tempo divertido sobre ti própria, ou não? Ou foste aligeirando com a idade?
Eu não tenho grande recordação, mas por coisas que a minha mãe conta percebo que era um bocadinho assim, ela diz que tinha algum medo da minha inconveniência, não é? Iam visitas lá a casa e eu dizia uma coisa que não era suposto dizer.

Não gostarias de ser tocada, nem beijada, nem abraçada?
Não, isso já vem de longa data, mas lembro de a minha mãe contar que eu corrigia o português de alguns adultos, o que era uma vergonha, imagina, que vergonha, não é? Hoje em dia, se os meus filhos fizessem isso, diria logo para não fazerem, mas tinha esse lado meio enervante da pessoa que está a reparar no que está mal. E também, rapidamente, quando aprendi a escrever, divertia-me muito aquela ideia, "olha, se eu juntar estas palavras resulta nisto".

O fascínio das palavras?
E fazia livros que vendia depois aos meus pais, coitados. Eram obrigados a comprar.

Os teus pais prepararam-se para a filha que és? [Risos]
Não sei, não sei. Acho que não, acho que não. Acho que deviam preferir uma coisa mais digna e séria, e às vezes lá encolhem os ombros. "Ah, lá estás tu outra vez". Depois veem assim aquelas notícias: "Ah, foste-te meter com não sei quem, para quê?" Acham tudo muito perigoso. Perigoso e arriscado.

Têm medos por ti?
O meu pai deve ter de certeza, o meu pai foi dele que eu herdei os medos de tudo. A minha mãe não tanto. A minha mãe é uma grande fã de humor. Segue uma série de humoristas, gosta mesmo. E, portanto, acho que fica contente com mais uma humorista, que por acaso é filha dela, mas podia não ser.

Mais uma humorista. O humor e a mulher. É uma combinação perfeita?
Não, acho que não. Acho que não. Eu nunca pensei em mim muito com esta coisa, mesmo quando fazemos As Três da Manhã na rádio. O facto de sermos três mulheres, muitas vezes nos perguntam isso.

Houve tempos em que o humor estava muito ligado aos homens, não é?
Sim, e ainda está mais, se pensarmos numa proporção da quantidade que existe. Mas eu acho que sempre - não penso muito nisto em termos de género -, eu acho que fazem sempre falta pessoas que sejam engraçadas. E se são mulheres ou se são homens, a mim passa-me um bocadinho ao lado. Quando eu, enquanto espectadora, vou à procura de humor, não procuro, "ah, quero agora ver só mulheres humoristas". Não, quero ver pessoas que me façam rir. E, portanto, acho que pode ser tanto um homem como uma mulher. Claro que depois, no humor que fazes, está lá tudo, não é? O humor é uma coisa tão pessoal que é diferente ser feito por uma mulher de 37 anos, que tem dois filhos, que vive em Lisboa, ou ser feito por um homem que vive no Japão e que é solteiro. Porque depois isso está lá, mesmo que não estejas a falar diretamente da tua vida, a tua experiência é que te leva a fazer aquele texto ou a dizer aquelas coisas. Mas eu não dou muita importância a isto. Sei que algumas feministas depois ficam enervadas comigo por eu não hastear aqui a bandeira do feminismo, "sim, agora têm que ser só mulheres no humor e têm direito por decreto". Não, acho que todas as mulheres engraçadas... Tenho uma grande amiga, como sabes, que é humorista, que é a Mariana Cabral, Bumba na Fofinha...

(Ah, já ouvi falar. [Risos]
Acho que já conversaram um com o outro e que estão muito bem.

Adorei.)
... e que ganhou o seu espaço, acho que por mérito próprio, e não por ser mulher, nem deveria nunca deixar de ter esse espaço por ser mulher. Mas eu também não sinto que em Portugal isso aconteça. Acho que as pessoas aderem àquilo de que gostam e não acho que rejeitem no humor, por exemplo, alguém por ser mulher.

Como é que tu te perspectivas daqui a 30 anos ou não fazes esses planos?
Não faço. Até agora correu bem sem plano nenhum, vamos manter sem plano. E vou-me surpreendendo com coisas que acontecem, como esta aqui, que foi uma ideia parva que tive um dia: "Olha, vamos brincar a isto dos coaches e vamos fazer assim em grande, que é como eles fazem, os coaches é tudo em grande." E portanto eu gosto...

E atiraste a ideia: Altice Arena!
Vamos fazer exatamente como fez a Cristina Ferreira, como fazem uma série de coaches até internacionais que vêm cá, e que às vezes é uma realidade que nos passa um bocadinho ao lado, mas pelo lado divertido da coisa...

Devem dizer as mesmas coisas.
É, só que noutra língua. [Risos] Mas é pelo lado divertido da brincadeira. Isto para mim é tudo uma brincadeira, eu não levo isto a sério. Se vamos imitar os coaches vamos fazer como eles fazem.

É o que eu te dizia, tu andas a brincar diariamente.
Exatamente, isto é uma sorte imensa e portanto é aproveitar enquanto dura, até vir alguém de facto bater-me ou bater ao Daniel.

Já falámos aqui diversas vezes a tua hipocondria ligada à morte. Assusta-te a morte? Ou irrita-te?
Irrita-me muito porque a pessoa está a fazer coisas, tem coisas combinadas e de repente isto pode ser tudo interrompido. Eu acho que não lhe dou muito tempo para me assustar, porque vivo de pensar nela, mas eu acho que sim, em última análise nos assusta a todos, pelo menos a quem goste muito de viver. Acho que quanto mais gostas de viver, mais sentes que te vão roubar tempo. Se de repente a morte vier, sobretudo quando vem anos do tempo. Mas eu estou com muita esperança, sabes porquê? Porque a minha avó tem 100 anos e está a caminho...

A minha mãe tem 100.
... está a caminho do centésimo primeiro aniversário, faz em janeiro como eu. E portanto eu estou muito entusiasmada...

Capricórnio.
Capricórnio. Estou muito entusiasmada com a possibilidade de poder ter herdado os genes da minha avó. Sei que isto é uma péssima notícia para quem não gosta muito de mim, mas se calhar...

Mãe da mãe ou mãe do pai?
Mãe da minha mãe. Com quem eu sempre passei muito tempo. Depois da escola ia muito para casa dela, etc. E agora dá-se o caso de vivermos no mesmo prédio. Portanto seremos ambas atingidas pelo tsunami.

Ai coitada! Estou a brincar.
E a minha avó é uma excelente vizinha.

E está bem?
E está ótima. E portanto estou com alguma esperança de conseguir seguir-lhe as pisadas. Não vai ser fácil.

2024 é marcado pelo teu coaching.
Ah, marcado também não! Pronto, vai ser um momento. Vai ser... vão ser dois dias muito parvos, 22 e 23 de março, aqui nesta sala. Mas, se Deus quiser, 2024 vai ser marcado por coisas muito mais interessantes. Vamos ter eleições, por exemplo. Se calhar isso vai marcar-nos mais enquanto país.

Vamos ter eleições logo a seguir. Espera lá: antes, antes!
Antes, a 10 de março.

Antes. Então há material... Ah não, porque não vais muito à política, mas haveria material...
Muito, vai haver muito. Portanto vai ser um março bastante interessante. E vai ser um ano divertido. Eu acho que isso é que é importante.

O que é que te irrita, verdadeiramente? O que é que te tira do sério?
Como eu tento transformar todas as minhas irritações em fontes de algum tipo de riso, não há, assim, coisas que me irritem muito. Ou seja, por exemplo, os tais convencidos, os arrogantes, os nobres, enervam-me. Mas, ao mesmo tempo, dão-me muito material que me diverte.

Imagina se eles não existissem.
Olha, irritam-me muito os meus filhos quando saem da cama 17 vezes à noite. Vou lá, pô-los, digo "hoje ninguém sai, já lemos a história, já fizemos tudo, está bem?" Vão dizendo sempre que sim. Depois aparecem na sala 17 vezes. Assim, "queres só dizer mais uma coisa", e inventam no momento, não têm nada para dizer, é só para me perturbar.

Mas tu não deverias deixá-los a dormir mesmo já, num sono profundo?
Não. Só se lhe meter uma coisa debaixo da língua, não dá. Eles demoram muito a entrar em sono profundo. Não posso ficar. Já viste o que era eu estar ali duas horas a olhar para eles? Não, deixo-os lá, "vá, a mãe vai para a sala e vocês vão dormir, sim". E mentem-me com todos os dentes - um deles não tem muitos ainda -, mentem-me e aparecem sempre. Os meus filhos são as pessoas que mais me conseguem irritar. Também são das que eu mais gosto, é verdade. Mas têm um poder de me irritar com aquela... É assim como uma coisa que eu acho que também deve ter tido e todos tivemos e que depois se vira contra nós, não é? Aquela esperteza saloia que os meus filhos têm. E, portanto, enervam-me muito, mais ou menos na mesma proporção em que gosto deles.

E do que é que tu gostas mesmo na vida?
Olha, gosto muito de rir. Gosto muito dos jantares que temos de vez em quando.

Uma vez por mês?
Uma vez por mês.

Mas já temos o almoço para janeiro.
E temos uma ata, não é? E gosto muito de coscuvilhar, mas coscuvilhar no bom sentido. Eu acho que se pensar nas pessoas com quem mais me dou, são pessoas que, mais do que gostarmos das mesmas coisas, não gostamos das mesmas coisas. Portanto, gostamos de dizer mal, mas aqui é um mal que não faz mal a ninguém. Até porque é só entre nós, as pessoas não sabem. E esse "cortar na casaca" diverte-me imenso.

Ah, eu não tenho ideia desses jantares. [Risos]
Diverte-me muito e se eu pensar assim nos meus amigos...

É um exercício muito saudável, não é?
... nos meus amigos mais próximos, todos temos este território comum, que é... "Ah, de quem é que vamos dizer mal agora?"

Tens muitos amigos?
Não tenho muitos, mas tenho bons. Não tenho muitos porque eu não sou, lá está, não sou muito sociável. Sou um bocadinho bicho do mato.

Tu não és de ir a festas também?
Não, não. Evito ao máximo.

Vais aos Globos de Ouro para levares para casa um globo.
Vou aos Globos de Ouro, porque tem que ser...

Que importância tem ter um Globo de Ouro?
Para mim não tem muita importância, na verdade, não querendo ser indelicada para os senhores dos Globos de Ouro...

Mas não é coroar um trabalho, celebrar, validar um trabalho?
É, mas eu acho que esse trabalho, essa coisa de o validar, pronto, ok, é um júri que liberou e considerou tudo bem, e pronto, obrigada a esse júri. Mas para mim essa validação vem muito mais assim de um espectáculo em que eu vejo as pessoas ali à minha frente a rir, vem de quando saem todos os anos os tops dos podcasts mais ouvidos, de estar lá o Extremamente Desagradável, isso é que me dá a noção de que há muita gente a ouvir e a participar nisto, ou quando recebo as tais mensagens de pessoas, para quem é importante, às vezes uma importância que nós não imaginamos que tem, não é?, naquele momento de ouvir aquilo. Isso, sinceramente, não só me dá mais gozo, como também é muito mais confortável, porque eu posso estar em casa descansadamente a receber esse feedback, enquanto nos Globos de Ouro...

E podes estar até de fato de treino. [Risos]
De fato de treino. Nos Globos de Ouro tenho que estar com uma roupa que claramente não é minha, que eu vou devolver logo a seguir.

Cintilante.
Para mim é como estar mascarado, e eu odeio o carnaval.

Eu também.
E portanto tenho que estar numa sala com imensa gente de quem eu falei, nem todos com o fair play de Cristina Ferreira, alguns mais perigosos, e portanto os Globos de Ouro para mim são uma cerimónia desconfortável e desagradável. Eu vou por respeito.

E lá irás para o ano, certamente. Algures para receber outro. Onde é que os pões?
Não, para o ano vou assobiar assim: "Então o Goucha não ganha? que vergonha, Bu!". [Risos]

Onde é que pões os teus Globos de Ouro, onde é que estão?
Olha, estão no meu escritório, que eu acho que é onde eles pertencem, porque aquilo tem a ver só com o trabalho e nada mais.

Até nisso somos iguais.
Estão ali bem, e nunca iria pôr na sala. Na sala tenho desenhos dos meus filhos. E tenho também num ponto alto, e não muito alto se não eu não chego...

Ah não, porque é uma arma de arremesso.
É muito pesado e aquilo nas mãos do Xavier e do Nicolau seria perigosíssimo, partiam a cabeça em três tempos. Mas é isso, pertence ali, ainda bem, não vou dizer que não fico contente, não é? Tu vais ali gramar aquela estucha, que temos de dizer que é verdade: são três horas e meia no Coliseu com muito calor. Ficas mais contente se no fim trouxeres alguma coisa, não é? Se não, foste lá, como tu, não é?, tristíssimo...

Escutas de estar a carregar.
[
Risos] E ao menos pensas assim: "olha, pronto". Mas eu prefiro ver em casa. É uma cerimónia que eu adoro, que existe. Faço sempre dois ou três Extremamente Desagradáveis só com uma cerimónia dos Globos de Ouro. Mas eu preferia não participar. E abdico sem problema nenhum do prémio, até porque há imensa gente para receber e com valor. E agora nem sequer estou a falar de ti. Mas, portanto, passava bem por cima essa ocasião.

Joana Marques por Joana Marques. Quem é Joana Marques?
Isto é o teu "O que dizem os teus olhos"? [Risos]. Não sei, olha, não faço ideia. Eu acho que é uma pessoa que, de facto, não se leva muito a sério, que adorava que os outros não se levassem também e que não tornassem isto uma guerra, porque não é nada disso. Até a linguagem que às vezes é usada é um bocadinho bélica, não é? "Joana Marques arrasa não sei quem, destrói".... E a minha intenção nunca é essa. Não estou a dizer com isto que toda a gente tem que gostar, nada disso. Mas que se divirtam mais e que se não gostarem, ouçam outra coisa porque há tanta coisa boa para ouvir. E não percam tanto tempo das vossas vidas a não produzir nada, não é? Só a destilar um ódio que as pessoas pensam assim "ah, eu estou a destilar ódio porque é o que ela também faz". Mas estão enganadas. Eu não estou a destilar ódio nenhum. Estou só a divertir-me e a tentar divertir alguém nesse processo. Espero que consiga. Umas vezes sim, outras vezes não se acerta.

Muito obrigado, Joana.
Obrigada.

Uma vez mais eu digo publicamente que gosto muito de ti e sou teu amigo.
Olha, isto foi a melhor coisa que eu consegui com o humor. Há bocado estavas-me a perguntar. E eu acho que foi isto. Agora, de repente, se eu alguma vez, a Joana de 15 anos, pensava, "vou ser amiga do Manuel Luís Goucha". Eu adorava. Eu era, lá está, era um bocadinho bicho do mato.

Eu sei.
E chegava à escola e dizia assim, "estive a ver de manhã um programa espetacular, é o Você na TV". E os meus amigos de 15 anos, estás a ver?, "não, isso é uma coisa que ninguém quer ver".

Escreveste um texto maravilhoso sobre mim.
E eu adorava, sempre adorei.

Fizeste uma radiografia que, aliás, aproveito para pedir autorização para incluir no meu livro de histórias de televisão.
Ah, vamos a isso. Vai ser a pior parte do livro.

Não vai não.
O resto é escrito por ti.

Sim, mas...
Vamos a isso, vamos a isso. Mas olha, estou muito contente...

Sai para o ano.
... não é tanto aqui pelo Altice Arena, é por estar aqui contigo. Se a minha Joana de 16 anos só soubesse disto, ficava doida.

E o que é que a Joana de 16 anos pensaria sobre mim? Que eu era completamente fora da caixa?
Sim, eu já te conhecia como todos nós conhecíamos, como aquele senhor sisudo do bigode, não é?

De bigode, de bigode farto.
Exatamente. E de repente, até me lembro que foi um ano em que passei a ter aulas à tarde, e portanto de repente tinha as manhãs livres, o que é que eu fui fazer? Ver televisão, que era o que eu gostava de fazer. E pensei, "afinal este senhor - eras um senhor- é divertidíssimo!"

Já não sou? [Risos]
Para mim, agora não te vejo como um senhor, porque há uma maior proximidade, agora és o Manel.

Somos amigos.
Mas eu via assim: "Afinal é divertidíssimo, tem ironia, tem sarcasmo", que eu acho que estavam na altura ainda a passar muito ao lado muita gente, e depois as pessoas começaram a perceber que isso estava tudo lá, e às vezes havia um bocadinho aquele preconceito, como é um programa da manhã, eu via aquilo como se fosse um talk show das 10 da noite. E divertia-me imenso. E portanto, podia ter-se dado o caso de ter conhecido, e isso era uma desilusão, como muitas vezes acontece com tanta gente.

Ah é, acontece? [Risos]
Pessoas ligeiramente antipáticas. E como isso não aconteceu, acho que isto é uma história com um final... Olha, a história mais inspiradora que eu tenho para partilhar é esta.

Uma história com um final feliz.
Exato, é só esta. O resto é tudo mau.

Obrigado, Joana.
Obrigada, eu.

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