As fragilidades dos jovens presentes na Via-Sacra: a solidão, a intolerância, o medo do futuro (e também o cansaço ao quarto dia da JMJ) - TVI

As fragilidades dos jovens presentes na Via-Sacra: a solidão, a intolerância, o medo do futuro (e também o cansaço ao quarto dia da JMJ)

Foi mais um banho de multidão para a "estrela" da Jornada Mundial da Juventude. Os jovens vieram ao Parque Eduardo VII para ver o Papa Francisco e recordar o caminho de Jesus para a Cruz. Houve muitas emoções, mas também já é visível o cansaço entre muitos dos que participam na Jornada Mundial da Juventude

Relacionados

Mesmo que se esteja na outra ponta do recinto sabe-se sempre quando o Papa Fancisco está a chegar. Os jovens correm para ele, atropelam-se, gritam a plenos pulmões, entusiasmados por poderem estar perto do líder da Igreja Católica. Como quem corre para um dos seus ídolos. Assim que perceberam que o Papa ia passar perto do sítio onde estavam, Maria e Inês também correram e gritaram. Foi um momento de tal forma intenso que nem se lembraram de tirar uma fotografia com o telemóvel. "Só vê-lo já foi maravilhoso", diz Inês.

Aconteceu assim ontem, voltou a acontecer assim esta sexta-feira no Parque Eduardo VII, quando meia hora antes da hora prevista para o início da Via-Sacra, o Papa atravessou todo o recinto no "Papamóvel", rodeado dos seus muitos guarda-costas vestidos de fato preto e olhar atemorizador. As medidas de segurança são apertadas. Enquanto o Papa percorre o recinto, as entradas e saídas estão proibidas, os voluntários de camisa amarela dão as mãos formando fileiras que se sobrepõem às grades já lá existentes. Até Francisco estar sentado, no seu lugar no centro do palco, ninguém pode sair de onde está. Acompanhamos o percurso pelos gritos dos jovens - "esta é a juventude do Papa" - e pelos braços levantados, como uma onda.

Maria e Inês vieram de Arouca

Gonçalo foi um dos que se aproximou das grades para ver Francisco de perto. No momento certo, levantou a mão na qual segurava dois terços e chamou: "Francisco!" O Papa virou-se, viu-o e fez o sinal da cruz, benzendo os terços. Gonçalo quase não conseguia conter a alegria.

Depois desta emoção inicial, os jovens acalmaram. Ao contrário do Acolhimento, na quinta-feira, que era uma festa, com muita cor e alegria, a Via-Sacra é um momento de reflexão e de introspeção. 

"Amar é perigoso, há que correr o risco de amar." As palavras de Francisco dirigem-se às cerca de 800 mil pessoas que, segundo as autoridades, no Parque Eduardo VII e espalhadas por toda a avenida Liberdade, em Lisboa, acompanham a Via-Sacra, mas dirigem-se sobretudo aos jovens, muitos deles vindos de países distantes para participar nesta Jornada Mundial da Juventude (JMJ). "A cruz revela-nos a beleza do amor (…). Dum amor sem medida, mas concreto, e por isso credível, que nos leva a dobrar os joelhos, a deixar que o coração se comova."

As fragilidades dos jovens: da solidão ao medo do futuro

A Via-Sacra é a recriação do caminho que Jesus fez para a crucificação. "A cruz, que acompanha cada JMJ, é o ícone deste caminho", diz o Papa Francisco. "Quando olhamos a cruz, vemos a beleza de um amor que dá a sua vida por nós."

Em Lisboa, a cruz percorre o enorme palco azul e vertical, instalado no Parque Eduardo VII. Cada uma das 14 estações corresponde a uma queda e uma ferida de Jesus - e na versão aqui apresentada corrresponde também a uma "ferida" ou fragilidade  dos jovens de todo o mundo, recolhidas através de um questionário feito através do Dicastério dos Leigos e da Famílias, como explicou à CNN Portugal o padre jesuíta João Goulão, um dos responsáveis pelo evento.

Que fragilidades são essas? Pobreza, violência, solidão, falta de compromisso, intolerância, individualismo, saúde metal, destruição da criação, dependências, incoerência, crises humanitárias, produtivismo, desinformação, medo do futuro. A cada estação, enquanto a cruz é transportada pelos jovens do Ensemble23 pelo palco, além do depoimento de um jovem, é desenrolada uma tela, de autoria do padre Nuno Branco.

"Eu choro, de vez em quando? Há coisas na vida que me fazem chorar? Todos chorámos e choramos", diz Francisco no seu discurso de abertura. "Jesus com a sua ternura, enxuga as nossas lágrimas", acrescenta, convidando os jovens a fazer o  caminho de Jesus e garantindo-lhes que, no final, encontrarão a salvação. "Jesus caminha para a cruz, para que a nossa alma possa sorrir."

O objetivo para quem assiste, explicou o padre João Goulão, é  que, "a partir da experiência da fé e, sobretudo, a partir da experiência estética, se possa contemplar alguma coisa que, a partir da ferida e da fragilidade, se pode abrir alguma janela de luz, de esperança e de recomeço".

As fragilidades dos jovens: bolhas nos pés e muito cansaço

Muitos jovens acompanham a interpretação da Via-Sacra, muitos outros rezam, de olhos fechados, alguns estão verdadeiramente comovidos. Mas nem todos. Afinal, devido ao facto do terreno ser muito acidentado, com árvores e outros obstáculos, em várias das zonas é absolutamente impossível ver o que se passa no palco. Aos jovens que estão nessas zonas, resta acompanhar a cerimónia através de uma emissão televisiva, o que muitos fazem, deitados na relva, com os olhos nos telemóveis e os fones nos ouvidos. Outros aproveitam só para descansar (e também para dormir). O ambiente faz lembrar uma tarde no último dia de um festival de música, quando os jovens estão à espera que os concertos comecem.

Gonçalo Carvalho, aquele que estendeu os terços para Francisco benzer, tem 18 anos e é o mais velho do grupo de jovens que veio de Seia e Gouveia (distrito da Guarda). São 15 e vieram acompanhados por dois padres. Chegaram na segunda-feira e estão instalados na Escola Secundária de Cacilhas. Todos os dias, têm participado na catequese na Igreja de Almada e, depois, apanham o barco para Lisboa. Apesar dos banhos de água fria e das filas para comer - sobretudo fast food - estão a gostar desta Jornada Mundial da Juventude. Agora, estão estendidos na relva, à sombra de uma árvore, a descansar, e a ouvir ao longe os cânticos da Via-Sacra. Do palco não veem nada. Ecrãs também não há por perto. "Chegámos às 14:30 e já não conseguimos um lugar melhor", queixam-se.  "Ontem [na quinta-feira], conseguíamos ver mas o lugar era péssimo, estávamos todos escolhidos", contam.

Gonçalo (à esquerda) com o grupo que veio de Seia e Gouveia

Ainda assim, conseguiram ver o Papa: quando viram a agitação ali perto, perceberam que Francisco ia passar no "Papamóvel" e foram até às grades. É a parte boa de estarem afastados da multidão: conseguiram chegar perto vê-lo e bem. Para Gonçalo esta nem sequer foi a primeira vez que viu o Papa. Ele, que é pré-seminarista e sonha vir a ser a padre, foi um dos privilegiados que participou nas Vésperas, no Mosteiro dos Jerónimos, na quarta-feira. "Estávamos todos muito expectantes, nunca tinha visto o Santo Padre. Mas foi um momento muito intenso. Todo o ambiente do Mosteiro convidava à oração. E tudo o que o Santo Padre diz é importante."

"Tem sido muito bom, o ambiente entre os jovens é fantástico, falamos todos uns com os outros", conta Gonçalo. "O nosso grupo é muito animado, gostamos de cantar e há sempre jovens a cantar, na rua, no barco. É muito divertido." Esta sexta-feira estão a ter uma tarde mais calma, um pouco também no espírito da Via-Sacra. E também porque se estão a preparar para o dia de amanhã: irão andar a pé cerca de 14 quilómetros, desde o Cais do Sodré ao setor B do Campo da Graça (No Parque do Tejo), onde vão acompanhar a Vigília e depois dormir, em colchões, para a assistir à missa de manhã. "Vai ser muito puxado."

"Nem sei bem como vai ser. Será que vamos conseguir dormir? Onde vamos lavar os dentes? E trocar de roupa?", perguntam Maria e Inês. Estas duas jovens, de 20 e 19 anos, vieram de Arouca (distrito de Aveiro), num grupo com 42 pessoas. Também elas estão sentadas na relva do Parque Eduardo VII, demasiado longe para poder acompanhar a Via-Sacra. "Tem sido muito cansativo, temos de acordar cedo e andamos muito a pé", conta Maria, que se queixa de bolhas nos pés, enquanto Inês se queixa dos joelhos. "Temos andado 15 quilómetros por dia!"

Todos os dias, o grupo tem uma missa às 8:30 da manhã, depois a catequese e, por fim, sai de Vale de Milhazes, no distrito do Setúbal. Umas vezes vêm de autocarro, outras de comboio ou de barco. Depois, à tarde, têm aproveitado para passear em Lisboa, assistir a alguns dos eventos culturais e falar com os outros peregrinos. "É um evento muito grande, com milhares pessoas de todos os países que vêm todas aqui por causa de uma coisa: a sua fé. Isso é muito bonito", diz Inês. "Está a ser ótimo", concorda Maria. "Temos falado com muitas pessoas, trocamos pulseiras e crucifixos. O único problema mesmo é caminhar muito."

No final da Via-Sacra, quando os jovens encontram "a luz", a cerimónia torna-se um pouco mais alegre. Salvador Seixas, cantor português que participou no concurso The Voice, sobe ao palco para cantar "This I Believe (The Creed)", do grupo australiano Hillsong Worship. Enquanto, isso, o Papa Francisco cumprimenta, um a um, os bailarinos do Ensemble23, e conversa um pouco com eles e com alguns outros jovens da equipa que foram convidados a subir ao palco. O ambiente é de festa.

Sábado, Francisco irá a Fátima de manhã. E tem encontro marcado com os jovens à noite, no Parque Tejo, para a celebração da Vigília.

Continue a ler esta notícia

Relacionados