«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

José Manuel Barbosa Alves, conhecido como Coelho, teve uma formação que causa inveja ao comum dos mortais. O talentoso médio ofensivo iniciou o percurso no Paços de Ferreira e despertou a atenção do FC Porto aos 11 anos. Aos 16, assinou pelo Inter de Milão. Aos 18, regressou a Portugal para jogar no Benfica. Pelo caminho, somou 21 internacionalizações pelas seleções jovens.

Porém, em 2009, com apenas 19 anos, já era catalogado como «uma estrela caída». As circunstâncias da vida, e outros factores que o ex-jogador assume terem faltado para a sua afirmação plena, impediram uma carreira sénior de topo para José Coelho.

Emprestado pelo Benfica ao Paços de Ferreira, estreou-se na Supertaça de Portugal frente ao FC Porto, mas não teve continuidade. Fez apenas sete jogos pelos castores, três deles na Liga, os únicos que disputou no escalão principal. Seguiram-se Fátima, Atlético, Sheriff (Moldávia), Freamunde, Penafiel, Felgueiras, Olhanense, Al Hala (Bahrain), Persela (Indonésia) e Ofi Creta (Grécia).

Com 28 anos, em 2018, tentou regressar ao nosso país e disputar um campeonato profissional. Em vão. Agastado com as respostas foi ouvindo e com o lado mau do futebol, desistiu. Assinou como amador pelo Aliados de Lordelo, da AF Porto, e mudou de vida.

«Sempre pensei muito na segunda vida, à parte do futebol, e por um lado ainda bem, porque me preparou para o que sou hoje. Hoje estou casado com uma mulher maravilhosa, o negócio corre-me bem e estou a estudar arquitetura, mas admito que passei um período de anos num buraco negro», começa por dizer, em entrevista ao Maisfutebol.

Coelho decidiu apostar na decoração de interiores e criou a Scandal by Design, empresa sediada em Paços de Ferreira: «Quando voltei a Portugal em 2018, queria ficar perto de casa, falei com alguns treinadores, até da II B, que me diziam ‘vamos ver’, e tal, ‘temos de ver as tuas caraterísticas’, etc. Enfim, fartei-me. Acabei por deixar o futebol profissional, diverti-me a jogar três anos no Aliados de Lordelo e virei-me para os negócios.»

«Comecei a tirar um curso de Design de Interiores e interessei-me bastante pela realidade virtual, algo que é bastante útil na minha área. O meu primeiro cliente foi um jogador, um amigo, o Romeu Ribeiro, a quem tenho de agradecer por ter confiado em mim. Entretanto entrei na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Acho que vou demorar dez anos a terminar o curso de arquitetura, mas vou terminar.»

 

A Scandal by Design cimentou a sua posição no mercado ao longo destes cinco anos. «A certa altura, acabei por pendurar definitivamente as chuteiras, em 2021, porque a vida profissional já não me permitia continuar. Atualmente temos uma estrutura interessante, já fizemos projetos com alguma dimensão, hotéis, restaurantes, etc. Está a correr bem», explica.

«Entretanto, também tenho uma empresa de estofos, a S. Scorpion. Surgiu de uma necessidade, começámos a ter dificuldades em receber materiais e como nunca fui pessoa de ficar para trás, lancei-me. Hoje em dia produzimos para nós e para fora, para casas de decoração, gabinetes de arquitetura e design, e no futuro podemos até expandir», resume o ex-jogador.

Com vincado espírito empreendedor, que evidenciou desde sempre, José Coelho tem outro projeto na manga: a app The Social Sports. «Comecei a trabalhar nisto há um ano, com alguns amigos. É uma aplicação para marcação de campos para jogos sociais, com outras vertentes. Também pode ser utilizada por professores, por PT’s para fazerem as suas agendas, os jogadores podem criar uma Fantasy, criar torneios entre amigos, ranking entre clubes, etc.»

«Serve para marcação de campos em qualquer desporto, seja futebol, padel, basquetebol, sejam outras atividades como bilhar, setas, matrecos, qualquer atividade onde se possa criar um ranking. Outra coisa interessante é que será possível agendar um jogo, mesmo que falte uma pessoa, e todas as pessoas com a app naquele raio serão notificadas, podendo juntar-se. A app vai ser lançada este mês e é uma forma de eu me envolver no desporto, gosto de me manter envolvido», salienta.

O FC Porto, Balotelli no Inter, o Benfica e a maioridade

José Coelho nasceu há 32 anos em Paços de Ferreira e voltou a casa para a vida depois do futebol. Foi por ali que tudo começou, no clube da Mata Real, antes de seduzir os olheiros do FC Porto com tenra idade.

O jovem foi campeão nacional de juvenis pelos dragões em 2004/05, numa equipa treinada por Vítor Pereira e Álvaro Silva, e ia-se destacando nas seleções portuguesas de sub-16 e sub-17. Tanto que atraiu a atenção de clubes ingleses e italianos, acabando por assinar pelo Inter de Milão.

O português rumou a Itália em 2006, com 16 anos, e cruzou-se com uma personagem inigualável, colega de equipa e de quarto: Mario Balotelli. Porém, não se sentia feliz. No ano seguinte, regressou ao nosso país para representar o Benfica.

Depois de uma época como júnior no clube encarnado, foi emprestado consecutivamente a Paços de Ferreira (Liga), Fátima (II Liga) e Atlético (II Liga), antes de rumar ao Sheriff para ser campeão da Moldávia.

Depois da experiência na Moldávia, no verão de 2012, explicou ao Maisfutebol que o apoio à família era prioritário: «Por doença, o meu pai teve de amputar uma perna há cerca de dois anos e a outra há cerca de dois meses. Está muito dependente das pessoas que o rodeiam e a minha mãe, sozinha em casa, começa a ceder. Vendo as coisas tão difíceis, não podia deixar de lhes dar apoio, até sentimental.»

Ora perante esse cenário, e sem encontrar um clube atraente perto de casa, José Coelho chegou a suspender a carreira, aos 22 anos, apostando numa marca de roupa: Le Miserable. «Tomei a decisão de deixar de jogar, fiquei parado seis meses e criei a marca de roupa. Aquilo estava a correr muito bem, mas acabei por vendê-la mais tarde para me concentrar novamente no futebol», recorda.

Coelho regressou ao ativo no Freamunde (II Liga), passando depois por Penafiel (II Liga), Felgueiras (Campeonato de Portugal) e Olhanense (II Liga), antes de voltar a emigrar. O médio ofensivo esteve no Al Hala do Bahrain, regressou ao Felgueiras e fez as malas para jogar no Persela (Indonésia) e no OFI Creta (Grécia).

«Fiz grandes amigos e vivi experiências muito boas no futebol. Sobretudo, o futebol deu-me a possibilidade de conhecer muitos países, muitas culturas e muitas realidades sociais que hoje fazem de mim uma pessoa mais sensata na forma de levar a vida.»

O jogador português contribuiu para a subida do OFI Creta à primeira divisão da Grécia em 2018. Tinha 28 anos e estava preparado para regressar a casa, uma vez mais. Foi nesse momento que teve a maior desilusão da carreira futebolística.

«Subimos de divisão no OFI Creta mas estive lá sem receber, era um clube problemático e quis vir-me embora para Portugal. Acreditei que, pelo que tinha feito antes de emigrar, teria pelo menos uma oportunidade numa II Liga. Um clube da II Liga disse-me para esperar, com isso perdi duas boas oportunidades na II B e, quando tentei, ouvi respostas que me levaram a desistir do futebol profissional», desabafa.

«Amo e odeio o futebol em partes iguais»

Agastado com o futebol profissional, José Coelho virou costas. Aos 28 anos. Foi, como diz, a sua primeira morte: «Os futebolistas, os desportistas em geral, morrem duas vezes. Há sempre aquele momento em que tomamos a decisão de deixar de jogar e isso é o fim de uma vida. Um médico, um enfermeiro, um marceneiro, esses têm uma vida toda para atingirem os seus objetivos. Um desportista tem um relógio, aliás uma bomba-relógio, há sempre um tic-tac que é muito complicado de gerir.»

«Estamos sempre a dizer que é neste ano que vamos ter sucesso, depois é para o ano, depois até corre bem uma época e é desta, mas depois aparece algo, muda o treinador, aparece alguém não te aprecia, é preciso uma força mental, uma estabilidade emocional e também alguma ‘estupidez’, ou seja, alguma ignorância para não sentir demasiado isso e continuar a trabalhar como dantes. Eu tive tudo e sempre questionei muito, passei por uma fase que é importante de ser falada e que hoje em dia já se fala mais abertamente», admite.

A resistência mental de Coelho foi colocada à prova. «Admito que passei por uma…não gosto de lhe chamar depressão, mas diria uma desilusão. Dormia duas ou três horas por noite, acordava preocupado, foi uma fase muito difícil. Por isso é que digo que amo e odeio o futebol em partes iguais. Viajei, conheci outras culturas, diverti-me imenso a jogar no estrangeiro, mas no fundo foi esconder o que gostaria de ter feito mais e que não consegui», reconhece.

«Joguei na Liga, estreei-me numa Supertaça portuguesa, subi duas vezes de divisão, fui campeão num clube, aprendi mais línguas, vi coisas maravilhosas, portanto considero que fiz uma carreira bonita, mesmo sabendo que podia ter feito mais. Se mudava alguma coisa? Sim, mudava muita coisa.»

No fundo, admite José Coelho, a inegável qualidade futebolística não chegou para um percurso ao mais alto nível como sénior: «Acho que a ambição está acima do talento puro. No meu caso foi isso, tenho a certeza absoluta, a minha impaciência esteve sempre à frente de tudo o resto e admito que tomei decisões erradas.»

«Era um bom aluno, academicamente podia considerar-me inteligente, mas no futebol fui pouco inteligente. Também não me cruzei com as pessoas certas nas alturas certas. Depois conheci outras que me vão ajudando nesta segunda vida», explica.

Em jeito de resumo, a antiga promessa considera que fez «a carreira adequada ao talento que tinha, ao que era capaz de fazer». «As circunstâncias da vida, a ambição, até aquela ‘estupidez’ de que falei antes, tudo isso faz parte do talento para mim. Aquilo que fazemos com a bola não é tudo, não é só isso que dita o que é a carreira de um jogador», remata José Coelho.

Vítor Hugo Alvarenga