Bispo José Ornelas sobre casais homossexuais e em segunda união: "Jesus nunca recusou ninguém" - TVI

Bispo José Ornelas sobre casais homossexuais e em segunda união: "Jesus nunca recusou ninguém"

  • Agência Lusa
  • 30 abr 2023, 08:33
José Ornelas (TIAGO PETINGA/LUSA)

Presidente da CEP recorda que "o próprio Papa colocou à Igreja estes temas" considerados fraturantes na religião Católica

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O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) lembra que “Jesus nunca recusou ninguém”, a propósito de questões vistas como fraturantes no seio da Igreja, como as uniões homossexuais ou casais em segunda união.

Eleito para um segundo mandato na liderança do órgão de cúpula do episcopado português já neste mês de abril, José Ornelas, em entrevista conjunta à agência Lusa e à agência Ecclesia, abordou a síntese da CEP para a fase continental do Sínodo dos Bispos, que está a decorrer até 2024, para sublinhar que “o próprio Papa colocou à Igreja estes temas, dizendo, antes de mais, que essas pessoas precisam de ser acolhidas”.

“Jesus nunca recusou ninguém por nenhuma dessas questões. Para já, essas coisas nem se punham, nesse tempo, nessa linguagem. Mas, hoje temos questões novas, e o Papa Francisco diz: ‘não busquem simplesmente soluções do passado para problemas de hoje. Não vai dar certo’”, sublinha o também bispo de Leiria-Fátima, acrescentando que há questões destas que não se podem ignorar.

Segundo a síntese da Igreja portuguesa, apresentada em 7 de fevereiro, em Praga, “há alguma dificuldade em acolher todos de igual forma e em aceitar a diversidade no seio da Igreja (casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais), em valorizar a fragilidade, nomeadamente das pessoas com deficiência, e em compreender o que se entende por ‘acolhimento’”.

“Há, ainda, tensões diversas em temas ditos fraturantes, tais como: o acesso das mulheres ao sacramento da ordem; a ordenação de homens casados; a identidade sexual e de género; a educação para a afetividade e sexualidade; e o celibato dos padres”, acrescentava o documento.

Hoje, José Ornelas questiona: “quando nós sabemos que uma grande parte dos casais, também dos matrimónios que se fazem na igreja, acabam em separação, então essas pessoas são simplesmente postas fora?”

“Portanto, e [tendo em conta] os caminhos que o próprio Papa Francisco foi abrindo nesse sentido, as questões do matrimónio, precisam de ser repensadas e ajustadas, mas não é simplesmente uma questão de Direito. Aí trata-se, sobretudo, de uma abertura para com as pessoas, ajudar a fazer um caminho de verdade, discernimento sobre a sua própria vida”, afirma o prelado.

Segundo José Ornelas, “a Igreja não é uma Igreja só de gente perfeita. É de gente que, às vezes, vive situações para as quais uma solução simplesmente normal não chega. Então, tem de se fazer aquilo que aconteceu no Evangelho. Tiveram de ‘descapotar’ a casa para que um doente chegasse à beira de Jesus. E isto é importante”.

“É encontrar soluções novas. E para essas soluções novas é preciso desestruturar algumas coisas. Isto para mim é muito claro”, diz.

Já a ordenação de padres casados é uma das questões que “estão em franca discussão”, reconhece o bispo, acrescentando que “não é novidade nenhuma. A Igreja Greco Católica do leste europeu, por exemplo, tem padres casados e alguns vivem aqui entre nós, com a sua família e estão ativamente no ministério. E, para eles, causa uma estranheza porque é que a Igreja latina, a partir do Concílio de Trento [1545 a 1563], acabou com os padres casados”.

“Portanto, isso é uma questão disciplinar. Ainda há dias o Papa voltou a dizer isto, é uma questão disciplinar. Não é uma questão nem dogmática nem coisa nenhuma, é uma questão que, porém, deve ser discutida e aceite e, digamos, implementada pela Igreja no seu todo e não simplesmente por cada um”, diz José Ornelas.

A ordenação de mulheres é, para o presidente da CEP, também “um tema que está em cima da mesa. Não se põe ao mesmo nível dos outros, é mais complexo e, sobretudo, mais do que a complexidade, em termos culturais é algo de diferente. E nós não temos de olhar simplesmente para a Igreja na Europa, mas temos de olhar para a Igreja que está em todo o mundo, em diferentes culturas. Se se chegar a essa conclusão [de ordenar mulheres], a Igreja deve ser preparada para tal e deve fazer o seu caminho”.

O mesmo é defendido em relação a outras questões ditas fraturantes.

“Não é simplesmente uma questão de moda. É uma questão de ir ao encontro de uma sociedade que mudou, de uma cultura que está mudando e, portanto, encontrar linguagem, caminhos novos para ir ao encontro dessa cultura”, sublinha.

Abusos sexuais na Igreja? "É evidente que nós não estamos acima da lei”

José afirma que a Igreja “não está acima da lei” e que se as vítimas de abuso sexual interpuserem processos que levem ao pagamento de indemnizações, será seguida a lei.

“Indemnização é um termo jurídico, chega-se à indemnização através de um processo jurídico. Se alguém puser um processo, vai seguir a lei. A lei diz que quem é responsável por um mal praticado são as pessoas que o praticaram. Agora, o que nós dizemos é que ninguém vai ficar sem ajuda para aquilo que é justo e para a sua vida”, afirma José Ornelas, em entrevista conjunta à agência Lusa e à agência Ecclesia.

“O que nós vamos fazer é disponibilizar ajuda. E é por isso que não pomos [a questão] em termos jurídicos. Se for em termos jurídicos, é evidente que vai haver um processo e é evidente que nós não estamos acima da lei”, explicou o prelado, acrescentando que “as pessoas que foram abusadas em ambiente de igreja, ou por pessoas da igreja, têm e vão ter a ajuda necessária”.

Para José Ornelas, a ação da Igreja Católica em Portugal no campo dos abusos sexuais, com a criação da Comissão Independente, cujo trabalho foi apresentado em 13 de fevereiro, com as comissões diocesanas e, agora, com o Grupo VITA, “é uma iniciativa que foi julgada absolutamente necessária na época em que vivemos, com o objetivo de permitir conhecer a realidade em que vivemos e concretamente na Igreja”.

“A nossa perspetiva era de conhecer, para melhor intervir. (…) Eu dizia desde o início: pior do que aquilo que possa vir a conhecer-se é não [se] conhecer o que temos”, afirma o também bispo de Leiria-Fátima, convicto de que foi dado, com a Comissão Independente, “um passo muito significativo” em direção a esse conhecimento, “porque foi feito por pessoas competentes, pessoas que tinham capacidade para o fazer, que planearam muito bem, seja a constituição da equipa, seja a metodologia seguida. E permitiu também organizar e articular todo esse esforço técnico com a realidade das dioceses, concretamente, não só com a busca de eventuais casos de abuso, mas também com o recurso aos arquivos diocesanos”.

Quanto aos números apresentados pela comissão liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht em 13 de fevereiro - 512 denúncias validadas das 564 recebidas, levando a uma extrapolação para a existência de um número mínimo de 4.815 vítimas nos últimos 72 anos -, José Ornelas é perentório: “Eu não posso dizer (…) se são muitos ou poucos. Eu só sei é que qualquer um é um drama”.

Já sobre as críticas ao relatório da Comissão Independente, inclusive por parte de alguns membros da Igreja, o bispo diz poder “entender o desconforto de pessoas que dizem: bom, porque é que a Igreja é que tomou ela a iniciativa de destapar esta caixa de Pandora?”, mas manifesta-se contra essa ideia.

“A verdade é mais significativa e mais importante, sobretudo quando queremos atuar sobre a realidade (…). Mais, era importante, particularmente, porque estamos a tratar de pessoas, de pessoas sobre as quais foram cometidas injustiças muito graves. E ir ao encontro destas pessoas só poderia ser assim”, sublinha o presidente da CEP, explicando que a constituição da Comissão Independente quando já existiam as comissões diocesanas se deveu à necessidade de “quebrar o gelo”, permitindo a aproximação das vítimas.

Segundo José Ornelas, “as pessoas diziam: eu não gostaria de me manifestar perante uma comissão onde está um meu vizinho, ou uma minha vizinha”.

“Isto não tira nada da competência dessas pessoas [que integram as comissões diocesanas de proteção de menores]. (…) Mas, para esta fase, era muito importante, para quebrar este gelo, que tivéssemos alguém de fora que garantisse o anonimato” e que esta primeira fase decorresse num ambiente de “discrição em relação às vítimas”.

Abordando a polémica surgida com a inclusão de nomes de alegados abusadores já falecidos nas listas entregues pela Comissão Independente às dioceses, o líder da CEP garante que “não foi por desleixo, nem por falta de atenção que eles lá figuram. [A inclusão de] a maior parte destas pessoas já falecidas [nas listas] tem a ver com o facto de as vítimas estarem vivas e, portanto, [foram incluídas] por uma questão de justiça para com estas pessoas”.

Grupo VITA "não é a continuação da Comissão Independente"

Quanto ao Grupo VITA, apresentado na quarta-feira, coordenado pela psicóloga forense Rute Agulhas, José Ornelas assegura que “não é a continuação da Comissão Independente (…), porque essa era uma comissão de estudo e, portanto, era uma comissão totalmente independente”.

“Agora, esta faz parte do processo operativo que se segue às conclusões do estudo, do relatório feito, das recomendações e daquilo que nós próprios fomos vendo com o processo que está a fazer a Igreja”, diz.

“Entramos num processo operativo, e este grupo vai ter uma parte muito significativa de intervenção, nos próximos dois três anos”, que passa por “preparar a Igreja para estar atenta, acolher casos eventuais que vão acontecendo, tratá-los convenientemente, ir ao encontro destas pessoas [vítimas] e dos outros que vêm do passado. Mas, também, e sobretudo, preparar tipos de prevenção, de formação de pessoas, sobretudo dos agentes que estão em contacto com crianças”, explica o presidente da Conferência Episcopal.

O objetivo passa, ainda, por “montar um sistema que fique na igreja” para o acompanhamento destes casos, com a opção a ir no sentido de “uma organização preferentemente laical e competente”.

Reconhecer "erro" nos abusos sexuais "não tira a credibilidade" da Igreja

Confrontado com a questão do rombo que os casos de abuso terão provocado na credibilidade da Igreja Católica em Portugal, José Ornelas diz desconhecer, tendo em conta o muito “fumo” que houve “nos media”, considerando que “também houve muita desinformação no meio disto tudo”.

No entanto, “esses casos existiram e não fechamos os olhos, não olhamos para o outro lado e temos de melhorar o nosso sistema. Não é que a Igreja seja [uma instituição] que tenha mais abusadores que outras situações... Agora, é duplamente grave”, reconhece.

“E não me preocupa o escândalo, preocupa-me que tenham existido esses casos. É isso que me preocupa. A credibilidade vem daí. Não é de se fazer conhecer, é de existirem e, agora, ter a coragem de chamar as coisas pelo nome e de agir. Não é falta de credibilidade. Quando eu posso dizer ‘errei’, isto não me tira a credibilidade”, afirma José Ornelas.

“O pior seria eu cometer uma asneirada e continuar, para me defender, a encobri-la ou, simplesmente, dissimulá-la”, enfatiza o presidente da CEP, reeleito para um segundo mandato neste mês de abril.

Bispo José Ornelas (Tiago Petinga/LUSA)

Bispo espera que “rede capilar de jovens” fique para o futuro 

O presidente da CEP espera que a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, a realizar em agosto, deixe para o futuro “a rede capilar de jovens” que se está a mobilizar nas paróquias e nas dioceses.

O bispo José Ornelas destaca o esforço “muito interessante, dentro da Igreja e fora dela”, para a preparação da JMJ, nomeadamente a “articulação com autoridades, instituições, processos em curso, não só da logística, mas muito mais, de interesse, de motivação de pessoas”.

“Isto é para mim o que é mais válido, o que está a acontecer, porque implica pessoas. Depois, basta que não entre toda a gente na ressaca do pós [jornada]”, pois “isto criou um movimento” de apelo aos jovens, para que “saiam do sofá, das comodidades, do individualizar e criar cada um o seu caminho, a sua igreja e o seu grupo, para estar em ligação com outros”, diz o também bispo de Leiria-Fátima, defendendo que “esta é a cultura que é preciso que passe para a Igreja, particularmente na nossa juventude, mas passe também para o mundo”.

José Ornelas exemplifica ainda com a “estrutura” que está a ser criada em paróquias que não tinham grupo de jovens e agora têm. “Se nós conseguirmos manter esta rede capilar de jovens e manter os jovens dentro do seu núcleo, isto para mim é uma rede fundamental e luminosa”, sublinha.

Quando se encontrar com o Papa Francisco, em Lisboa e em Fátima, onde também é esperado, José Ornelas “gostaria de lhe pedir que continuasse o seu ministério, como tem sido, como ele tem feito, porque tem sido um Papa que tem inspirado muito os nossos jovens, apesar da sua idade, mas tem apresentado caminhos novos para a sua Igreja”.

“Quando a gente pensa que a Igreja, a Igreja institucional, é pesada e monótona e os profetas são aqueles que estão um bocado mais à margem, tem verdade, tudo isso. Mas, um Papa como este foi um profeta, o Papa João Paulo II, sem dúvida, foi um profeta no meio da Igreja. Mudou tantas coisas. E, portanto, estes papas tiveram uma dimensão profética muito grande de mudança e é esta mudança que está em curso, que é preciso confirmar e fazer com que tenha resiliência na Igreja para a sua continuação”, afirma.

Além da JMJ, também Fátima é uma das preocupações do presidente da CEP, desde logo porque é o bispo titular do território onde se encontra o santuário mariano.

Admitindo que o santuário “tem uma dinâmica que está em constante transformação, para encontrar respostas novas para tempos novos”, Ornelas diz ainda não se sentir “confortável” para dizer qual a linha a seguir [está à frente de Leiria-Fátima apenas há pouco mais de um ano], mas não hesita em apontar como importante que, tendo em conta a canonização de Francisco e Jacinta, em 2017, e o processo em curso relativo à Irmã Lúcia, que “Fátima deve focalizar, não simplesmente de um ponto de vista de reflexão e espiritual, mas também muito de ação concreta, a atenção aos mais pequenos, concretamente às crianças”.

“Quando a gente vê que no mundo morrem todos os dias muitas crianças, em números horrorosos, de fome, de crianças que são usadas a todos os níveis, de crianças que não têm escola, isto não pode passar ao lado do Santuário”, defende o bispo, lembrando que “Maria veio precisamente para estas crianças”.

“Fátima tem de ser isto, para que não corra o risco, como santuário, de ser um nicho onde se vai fazer devoções e depois se volta e tudo continua na mesma. Mas que seja algo que mexa com as pessoas, e a função dos santuários é precisamente essa. E dada a projeção internacional que tem, o santuário pode fazer a diferença”, acrescenta o presidente da CEP, para quem “o santuário é uma bênção para aquela diocese, do ponto de vista espiritual, de dinâmica de vida para mais novos e mais velhos, da própria projeção da diocese e abertura de caminhos”.

O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, foi nos últimos dias reconduzido cargo, para novo período de cinco anos. O sacerdote é reitor do maior santuário do país desde 2011, ano em que substituiu no cargo Virgílio Antunes, então nomeado bispo de Coimbra.

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