"Isto foi horrível", disse Sócrates - e a juíza pediu-lhe desculpa: MP censurado por revelar conversa íntima que envolve nomes de Salazar, Mário Soares, Almeida Santos - TVI

"Isto foi horrível", disse Sócrates - e a juíza pediu-lhe desculpa: MP censurado por revelar conversa íntima que envolve nomes de Salazar, Mário Soares, Almeida Santos

Em causa está uma escuta em que Sócrates conta uma história a Henrique Granadeiro. O Ministério Público (MP) diz que servia para provar que Sócrates e Granadeiro era muito próximos e por isso passou a escuta em tribunal. Sócrates não gostou, a juíza também não. Por outro lado: Sócrates e a juíza confrontaram-se de novo - mas por motivos de adjetivação: o ex-primeiro-ministro diz que, daqui em diante, vai arranjar outras maneiras de ridicularizar as perguntas que lhe fazem, uma maneira em que, promete o próprio, não vai utilizar o termo "idiotas" para as classificar

Nesta quarta-feira em que José Sócrates regressou ao tribunal, 24 horas após ter levado uma descompostura da juíza por “desrespeitar” a audiência, o ex-primeiro-ministro ouviu um pedido de desculpas da magistrada Susana Seca. Trata-se de algo que aconteceu depois de o Ministério Público ter pedido ao tribunal para passar uma escuta telefónica intercetada em julho de 2014 entre Sócrates e Henrique Granadeiro, pessoa de quem Sócrates disse em declarações anteriores que não era amigo próximo - a ideia do procurador Rui Real era a de provar, com a escuta em causa, que ambos tinham na verdade uma relação de forte proximidade.

Nessa conversa telefónica, que aconteceu pouco depois de a Caixa Geral de Depósitos vender as suas participações na Portugal Telecom, é possível ouvir José Sócrates a comentar com o na altura chairman da PT que essa decisão do Governo de Pedro Passos Coelho foi “uma coisa deprimente”. “Que vergonha, pá.”

A conversa passa depois para um evento organizado por José Sócrates, no qual o ex-governante lamenta o facto de Granadeiro ter sido colocado na segunda fila em vez de próximo do palco. "Fiquei muito sensibilizado por ter estado comigo naquele momento. (...) Verifiquei que estava na segunda fila. Eu não gostei, desculpe esta desconsideração. Gostava de lhe ter dado a devida distinção” porque "tem um lugar muito especial entre todos os meus amigos".

O momento de maior espanto dentro do tribunal acontece minutos a seguir, quando José Sócrates é ouvido a contar a Granadeiro os detalhes de um jantar em que estiveram presentes Almeida Santos e Mário Soares, históricos socialistas, jantar esse no qual tinham debatido as relações sexuais de Salazar - e durante a escuta ouve-se palavras explícitas. Sócrates, que estava sentado na cadeira, esbracejou, interrompendo a reprodução da gravação, perante risos discretos que se geravam na sala de audiências.

O advogado de José Sócrates mas também o de Zeinal Bava - o ex-gestor da PT também consta no leque de arguidos -, reclamaram contra a decisão de emitir aquela escuta, sublinhando que se tratou apenas de um “exercício de voyeurismo” e que não se destinou a produzir qualquer matéria de facto. Contudo, o Ministério Público justificou a emissão completa da interceção telefónica pelo facto de ser necessário provar que existia uma relação de forte proximidade entre o ex-primeiro-ministro e o antigo chairman da PT - relação próxima essa que o MP disse que Sócrates estava a tentar negar. “A utilização de certos vernáculos permitem perceber a proximidade da relação entre os arguidos”.

A juíza, contudo, teve um entendimento diferente. E, quando voltou a dar a palavra a José Sócrates, deixou-o também com um pedido de desculpa. “O tribunal lamenta o incidente ocorrido.” O ex-primeiro-ministro, que até então tinha assumido uma postura de menor hostilidade, levantou a voz para se manifestar contra aquilo que descreveu como um “exercício de voyeurismo indigno para com pessoas falecidas”. "Estava à espera que o tribunal tivesse uma posição muito mais firme. (...) O Ministério Público não tem o direito de usar isto.”

Já fora da sala de audiências, Sócrates viria a criticar a audição daquela escuta em que aborda a “vida sexual” de Salazar. “Foi um ato  indigno por parte do Ministério Público. (...) O MP produziu uma conversa telefónica entre mim e o dr. Henrique Granadeiro para fazer o espetáculo mais indigno de voyeurismo político e pessoal e para me expor a falar do Mário Soares e do Almeida Santos. (...) É uma coisa horrível, como nos defendemos de um procurador sem escrúpulos?”.

Mas houve mais tensão entre Sócrates e o tribunal. Logo no início da sessão, que acabou por não ser afetada pela greve dos procuradores marcada para esta esta quarta e quinta-feiras, a juíza Susana Seca explicou ao antigo primeiro-ministro que é ela quem decide se as perguntas deveem ou não ser respondidas e reiterou-lhe que “o arguido não deve pôr em causa, como tem acontecido, a pertinência da pergunta”. Em resposta, Sócrates, que a fitou de braços cruzados, prometeu fazer um esforço. “Tendo em consideração o que se passou nas últimas sessões, espero que possamos fazer o possível para que isto corra com a maior normalidade”, “um esforço tanto meu como o da juíza”. “Não posso dizer: ‘a pergunta é idiota, não respondo’, digo apenas ‘não respondo’”.

E José Sócrates ponderou mesmo não responder quando foi questionado sobre qual a relação que tinha com Hélder Bataglia, antigo líder do BES Angola e tido pelo Ministério Público como um dos responsáveis por fazer chegar milhões de euros em subornos ao antigo primeiro-ministro. "Estive poucas vezes com ele, tem uma relação familiar com a minha família mais próxima, nunca tive nenhuma relação de simpatia para com ele. (...) E quer que explique porquê? Não o queria fazer, mas esse senhor teve uma filha da minha prima e durante o primeiro ano não quis dar o nome (à filha) e eu achei isso um ato de tal forma indigno”, afirmou, sublinhando que nada o liga "a essa personagem". 

Sócrates diz que não vai fazer como Montenegro/Spinumviva

O principal arguido do processo Marquês explicou ainda que manteve e mantém uma grande relação de amizade com o primo José Paulo e com Carlos Santos Silva, ambos acusados pelo Ministério Público de intermediarem o circuito do dinheiro que terá chegado às mãos de Sócrates.

Depois, as atenções viraram-se para o Grupo Lena, empresa ligada a Santos Silva e Joaquim Barroca, a quem o antigo PM terá favorecido em contratos públicos enquanto exercia o cargo, nomeadamente em negócios ligados ao TGV. Sócrates descreveu como foi apanhado numa escuta a interceder junto do governo angolano por esta empresa, descrevendo-a  como uma entidade “a quem devo atenções”. “Fiz isso com muito gosto, junto do vice-presidente de Angola”, justificou, porque o na altura presidente Joaquim Barroca tinha apoiado Sócrates num evento de campanha em Leiria em 2009. "São amáveis connosco, são gentis connosco e isso faz com sejam retribuídos em atenções."

A partir desta resposta, o Ministério Público interrogou Sócrates sobre se a ajuda que deu ao Grupo Lena foi condizente com outras empresas e, se sim, "que empresas foram essas, que responsáveis governativos foram contactados - e o que foi alcançado?”. Na resposta, Sócrates abordou a recente polémica de Luís Montenegro e da Spinumviva: o atual primeiro-ministro recusou-se várias vezes a fornecer a lista de clientes da empresa que se manteve na sua esfera familiar enquanto primeiro-ministro.

"Senhora juíza, eu não quero invocar o principio do atual primeiro-ministro. Tenho todo o gosto em fornecer uma lista de clientes. (...) Foram duas empresas que trabalhavam com o governo da Venezuela e pediram-me para falar com alguns responsáveis para que fossem recebidos. (...) Se o Ministério Público não tem nada de melhor, se se quiser dedicar a isto, eu trago na próxima sessão a lista das empresas”, comprometeu-se Sócrates, antes de ser interrogado pela juíza Susana Seca sobre se efetivamente o irá fazer. “Tenho de lhes pedir autorização.”

Continue a ler esta notícia