O TGV e a linha de alta velocidade foram os temas dominantes na parte da tarde da sessão de julgamento da Operação Marquês. Ouviu-se mais um escuta de um telefonema entre Sócrates e o presidente da Octapharma em Portugal, Paulo Lalanda e Castro, e falou-se de alta velocidade. Mas desta vez - ao contrário do que se viu durante a manhã - não houve nenhuma exaltação maior da parte de José Sócrates.
Durante toda a audiência foi mesmo o ex-primeiro-ministro que demonstrou dominar o tema melhor e bem melhor do que qualquer outro dos presentes na sala - e chegou mesmo a corrigir o procurador-geral-adjunto Rómulo Mateus. À primeira pergunta de Rómulo Mateus sobre TGV, a relação entre o MP e Sócrates até começou com elogios: quando o procurador referiu um relatório sobre o troço de alta velocidade Poceirão – Caia, o ex-primeiro-ministro corrigiu a referência. O procurador-geral-adjunto reconheceu a confusão e o arguido reagiu assim: "Não faz ideia de como apreciei o seu gesto, um gesto de grandeza".
No entanto, já após a pausa de 15 minutos, quando o tema foram os riscos financeiros inerentes ao projeto, Sócrates demonstrou que vinha tão ou mais preparado como quem vai para um último debate pré-eleitoral: "Uma aventura é não se fazer nada, sr. procurador". Sócrates exaltou-se com a temática e pegou nos exemplos de Marrocos e Espanha, onde a alta velocidade "acabou por ser um êxito". "Estamos hoje, 14 anos depois... temos um Governo a fazer exatamente o mesmo projeto", afirmou. E prosseguiu: "Agora temos um procurador a dizer que era um desperdício. Um desperdício foi não termos feito nada. O Tribunal de Contas tem todo o direito a ter o seu ponto de vista, eu tinha outro. Nunca concordei com isto de abandonar o projeto". E mais: “Todo esse discurso de análise financeira e projetos que nos levaram à ruína... isso é treta. Está tudo ultrapassado”, rematou.
O antigo primeiro-ministro lembrou que "a velocidade é hoje fundamental em qualquer meio de transporte e a ferrovia não é exceção” e que “foi por isso que atribuí ao TGV uma prioridade". "Não era apenas para ligar à Europa, era para ligar Lisboa ao Porto ou a Leiria", explica, referindo que "era uma política nacional, para o interior de Portugal”. "Vocês imaginam a minha revolta de ver um governo do PS durante oito anos a ignorar o TGV e agora ver um governo do PSD a pegar no projeto."
"Uma questão de crianças"
Deste ponto em diante, a tarde complicou-se para a acusação. Na sequência de uma pergunta do procurador-geral-adjunto Rómulo Mateus em que referia um despacho publicado em Diário da República, a presidente do coletivo de juízes, Susana Seca, questionou o MP em que parte da acusação se encontrava o referido documento.
Após uma procura durante escassos minutos, encontrou-se o documento, mas constatou-se que havia um lapso. "Um lapso de escrita", constatava José Sócrates do seu palanque para desespero da acusação. Susana Seca confirmou que, na referência presente na acusação referente ao ano do despacho, onde se encontrava 2010 devia ler-se 2009. Posto isto, é necessário fazer-se um requerimento de retificação, como alertou a juíza, e só se voltará à questão quando for feita a correção na acusação.
Posto isto, o MP questionou José Sócrates sobre se tinha conhecimento que após a crise de 2008 o risco financeiro de um projeto como o TGV aumentava. Esta foi a resposta: “Alguém perguntar a um ex-primeiro-ministro se se apercebeu que em 2009 as condições financeiras se agravaram é uma questão de crianças”.
Sócrates aproveitou para argumentar que "o princípio do declínio da Europa" não foi a crise de 2008, mas o método que os europeus escolheram para lidar com o problema financeiro: a austeridade. "Foi o fim da austeridade que resolveu a crise europeia, não foi a austeridade que a resolveu, só a agravou."
Por fim, uma pergunta sobre o risco arqueológico do TGV. Sócrates repete que não compreende o intuito da questão, responde que "não é o primeiro-ministro quem se preocupa com os riscos arqueológicos de um projeto”, sendo essa uma tarefa alocada às competências do grupo ministerial. Susana Seca intervém e questiona qual a relevância das perguntas. Posto isto, perderam-se mais uns minutos à procura de documentação, até que arguido, acusação e a presidente do coletivo de juízes decidiram que por esta quarta-feira estava cumprido o dever.