Cientistas identificam ingrediente secreto nos quadros de Leonardo da Vinci - TVI

Cientistas identificam ingrediente secreto nos quadros de Leonardo da Vinci

  • CNN
  • Jacopo Prisco
  • 2 abr 2023, 16:00
"Mona Lisa" de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre, em Paris, França. Chesnot/Getty Images

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Grandes mestres como Leonardo da Vinci, Sandro Botticelli e Rembrandt podem ter usado proteínas, especialmente gema de ovo, nas suas pinturas a óleo, de acordo com um novo estudo.

Vestígios de resíduos de proteína há muito são detetados em pinturas a óleo clássicas, embora muitas vezes tenham sido atribuídos à contaminação. Um novo estudo publicado esta semana na revista Nature Communications descobriu que a inclusão foi provavelmente intencional - e traz um novo esclarecimento sobre os conhecimentos técnicos dos antigos mestres, os pintores europeus mais qualificados dos séculos XVI, XVII, ou início do século XVIII, e a forma como preparavam as suas tintas.

"Há muito poucas pesquisas escritas sobre isto e nenhum trabalho científico foi feito anteriormente para investigar o assunto com tanta profundidade", disse a autora do estudo Ophélie Ranquet do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha. "Os nossos resultados mostram que, mesmo com uma quantidade muito pequena de gema de ovo, é possível obter uma incrível mudança de propriedades na tinta a óleo, demonstrando como isso pode ter sido benéfico para os artistas."

A simples adição de alguma gema de ovo às suas obras pode, afinal, ter efeitos duradouros que vão além da simples estética.

Ovos vs. óleo

Em comparação com a técnica formulada pelos antigos egípcios chamada têmpera - que combina gema de ovo com pigmentos em pó e água - a tinta a óleo cria cores mais intensas, permite transições de cor muito suaves e seca muito menos rapidamente, pelo que pode ser utilizada durante vários dias após a sua preparação. No entanto, a tinta a óleo, que utiliza óleo de linhaça ou de cártamo em vez de água, também apresenta desvantagens, incluindo ser mais susceptível ao escurecimento da cor e aos danos causados pela exposição à luz.

Uma vez que fazer tinta era um processo artesanal e experimental, é possível que os antigos mestres tenham adicionado gema de ovo, um ingrediente familiar, ao mais recente tipo de tinta, que apareceu pela primeira vez no século VII na Ásia Central antes de se espalhar para o Norte da Europa na Idade Média e Itália durante o Renascimento. No estudo, os investigadores recriaram o processo de fabrico de tintas utilizando quatro ingredientes - gema de ovo, água destilada, óleo de linhaça e pigmento - para misturar duas cores historicamente populares e significativas, branco chumbo e azul ultramarino.

"A adição de gema de ovo é benéfica porque pode ajustar as propriedades destas tintas de forma drástica", disse Ranquet, "por exemplo, mostrando o envelhecimento de maneira diferente: a oxidação da tinta demora mais tempo, devido aos antioxidantes contidos na gema".

As reações químicas entre o óleo, o pigmento e as proteínas da gema afetam diretamente o comportamento e a viscosidade da tinta. "Por exemplo, o pigmento branco de chumbo é bastante sensível à humidade, mas se o revestir com uma camada de proteína torna-o muito mais resistente à mesma, tornando a tinta bastante mais fácil de aplicar", explicou Ranquet.

"Por outro lado, se quisermos algo mais rígido sem ter de adicionar muito pigmento, com um pouco de gema de ovo podemos criar uma tinta de elevado empastamento", acrescentou, referindo-se a uma técnica de pintura em que a tinta é disposta num traço suficientemente espesso para que as pinceladas sejam visíveis. A utilização de menos pigmento teria sido desejável séculos atrás, quando certos pigmentos - como o lápis-lazúli, que era utilizado para fazer azul ultramarino - eram mais caros do que o ouro, de acordo com Ranquet.

"A Virgem do Cravo", em exposição na Alte Pinakothek em Munique, Alemanha, é uma das primeiras pinturas de Leonardo da Vinci. DeAgostini/Getty Images

Uma prova direta do efeito da gema de ovo na tinta a óleo, ou da sua falta, pode ser vista em "A Virgem do Cravo" de Leonardo da Vinci, uma das pinturas observadas durante o estudo. Atualmente em exposição na Alte Pinakothek em Munique, Alemanha, a obra mostra evidentes rugas no rosto de Maria e da criança.

"A tinta a óleo começa a secar da superfície para baixo, e é por isso que enruga", esclareceu Ranquet.

Uma razão para o enrugamento pode ser uma quantidade insuficiente de pigmentos na tinta, e o estudo mostrou que esse efeito poderia ser evitado com a adição de gema de ovo: "É bastante surpreendente porque temos a mesma quantidade de pigmento na tinta, mas a presença da gema de ovo muda tudo."

Como o enrugamento ocorre em poucos dias, é provável que Leonardo e outros grandes mestres tenham captado este efeito particular, bem como as propriedades benéficas adicionais da gema de ovo na tinta a óleo, incluindo a resistência à humidade. A "Virgem do Cravo" é uma das primeiras pinturas de Leonardo, criada numa época em que ele ainda tentava dominar a nova técnica de pintura a óleo.

Nova compreensão dos clássicos

Outro quadro observado durante o estudo foi "A Lamentação sobre o Cristo Morto", de Botticelli, também em exposição na Alte Pinakothek. O trabalho é feito principalmente com têmpera, mas foi utilizada tinta a óleo para o fundo e alguns elementos secundários.

"Sabíamos que algumas partes das pinturas mostram pinceladas típicas daquilo a que chamamos de pintura a óleo, e mesmo assim detetámos a presença de proteínas", indicou Ranquet. "Por ser uma quantidade muito pequena e difícil de detetar, isto pode ser descartado como contaminação: nas oficinas, os artistas usavam muitas coisas diferentes, e talvez os ovos fossem apenas da têmpera."

No entanto, como a adição de gema de ovo teve efeitos tão desejáveis na tinta a óleo, a presença de proteínas no trabalho poderia, em vez disso, ser uma indicação de uso deliberado, sugeriu o estudo. Ranquet espera que estas descobertas preliminares possam atrair mais curiosidade em relação a este tópico pouco estudado.

Maria Perla Colombini, professora de química analítica na Universidade de Pisa, em Itália, que não esteve envolvida no estudo, concorda. "Este empolgante trabalho oferece um novo cenário para a compreensão de técnicas de pintura antigas", disse.
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"O grupo de investigação, que reportou resultados desde o nível molecular até à escala macroscópica, contribui para um novo conhecimento na utilização de gema de ovo e aglutinantes de óleo. Não estão simplesmente a procurar identificar os materiais utilizados pelos antigos mestres, mas explicam como poderiam produzir efeitos maravilhosos e brilhantes, empregando e misturando os poucos materiais naturais disponíveis. Eles tentam descobrir os segredos de receitas antigas das quais pouco ou nada está escrito", acrescentou.

"Este novo conhecimento contribui não só para uma melhor conservação e preservação das obras de arte, mas também para uma melhor compreensão da história da arte."

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