*Por Isabela Labate - enviada a Buenos Aires
Machado de Assis, em seu conto “Verba Testamentária”, escreveu que “esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”. Foi exatamente isso que o técnico português e o Botafogo fizeram para conquistar a Copa Libertadores em cima do Atlético-MG e afastar qualquer fantasma da temporada passada que pudesse assombrar o título. Foi preciso superar uma montanha-russa de emoções para atingir tal feito.
Nem bem havia começado o jogo e a emoção tomava conta de torcedores, jogadores e comissões técnicas. No Botafogo, ficou claro o choro de Marlon Freitas, capitão do time e um dos remanescentes do fracasso no Brasileirão de 2023. O psicológico tão trabalhado por Artur Jorge era, sem dúvidas, o que mais precisava de atenção no Fogão.
No Brasil, há a seguinte frase popular “tem coisas que só acontecem com o Botafogo”. Pois é! Na primeira final de Libertadores de sua história, o Bota levou apenas um minuto para ter um jogador expulso de forma direta: Gregore atingiu a cabeça de Vera com o pé alto, fez o adversário sangrar e o árbitro não ter dúvidas para a expulsão.
É DO BOTAFOGO! 🔥
— sport tv (@sporttvportugal) November 30, 2024
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Quando se perde um jogador tão cedo, o jogo muda completamente. E a arquibancada também. Aqueles botafoguenses empolgados, emocionados e confiantes, deram lugar para feições preocupadas, abatidas e temerosas. O fantasma de 2023 voltava a assombrar a equipe, que ainda não sabia quão traiçoeira é uma final de Libertadores.
Mesmo perdendo um jogador defensivo no meio-campo, Artur Jorge não abriu mão de seu quarteto ofensivo para acertar o buraco no setor central. O treinador deu confiança para os dez que estavam no gramado e fez pequenos ajustes. Era importante não abalar ainda mais o psicológico desse time já tão abalado por outras decepções.
E não é que deu certo? O Atlético-MG, que não absorveu bem a responsabilidade de tomar as ações do jogo e pouco ameaçou o goleiro John. Enquanto isso, o Botafogo retomava a confiança e era empurrado pela arquibancada, que despertou e percebeu o momento favorável. A sinergia foi absoluta e o resultado não demorou a vir.
Com mais qualidade técnica e mais afeito ao jogo ofensivo, o Fogão chegou tranquilamente ao primeiro gol no primeiro ataque mais perigoso. Luiz Henrique fez a torcida botafoguense explodir de alegria em Buenos Aires ao balançar a rede. Foi ele também que sofreu o pênalti que Alex Telles converteu para abrir o 2 a 0 e transformar a depressão em delírio. Tudo isso em 50 minutos de etapa inicial. Em final de Libertadores não se brinca…
Em um piscar de olhos, veio o segundo tempo e com ele o gol precoce do Atlético-MG. Vargas aproveitou cobrança de escanteio e diminuiu para 2 a 1. A montanha-russa de emoções voltou a dar as caras. O Fogão e sua torcida ficaram mais preocupados, já os atleticanos ganharam novo ânimo e um espírito mais ofensivo em busca do gol do empate.
Aí sim foi preciso que Artur Jorge fizesse mudanças no time. Para o psicológico funcionar, era necessário renovar o fôlego e preencher os espaços que o Atlético-MG havia achado. Com isso, conseguiu diminuir o ímpeto do adversário e de sua torcida, e chamou de volta os botafoguenses que estavam apreensivos na arquibancada. Parecia um jogo de xadrez.
E como acontece no tabuleiro, o futebol é feito de detalhes. Vargas teve duas chances claras de empatar a partida e não empatou. Sabe aquela frase “tem coisas que só acontecem com o Botafogo”? Pois, é! Dessa vez elas não aconteceram. Falou mais alto a sorte, o psicológico e a jogada de mestre de Artur Jorge ainda no primeiro tempo.
Toda a tensão ficou para o lado atleticano, que não soube lidar com as adversidades como soube a parte botafoguense. O estádio foi um retrato disso, assim como o banco de reservas. Se Gabriel Milito não soube o que fazer, Artur sabia desde o início. A torcida botafoguense, calejada de decepções, conseguiu a harmonia com que com que estava em campo, algo que os fãs do Galo não tiveram correspondência.
No apito final, logo depois de confirmado o terceiro gol, marcado por Júnior Santos, Artur Jorge, que em momento algum mostrou desequilíbrio emocional, caiu no gramado em lágrimas para comemorar o êxtase de uma taça continental.
O Botafogo de Artur Jorge fez história no Monumental de Núñez. Não apenas pelo título inédito, mas principalmente por conseguir um resultado absolutamente improvável diante das condições apresentadas desde a primeira volta no relógio. Foram 90 minutos para exorcizar um ano inteiro de fantasmas.
* Isabela Labate escreve em português do Brasil